
  Livro: Capites da areia


  Autor: Jorge Amado

Reviso: ngelo Miguel Abrantes

  Editora: Record


  107 edio

  Ano: 2003






  (p. 3)

  Cartas  redao

  Crianas ladronas

  As aventuras sinistras dos "Capites da Areia" - A cidade infestada por crianas que vivem do furto - urge uma providncia do Juiz de Menores e do chefe de polcia
- ontem houve mais um assalto
  J por vrias vezes o nosso jornal, que  sem dvida o rgo das mais legtimas aspiraes da populao baiana, tem trazido noticias sobre a atividade criminosa
dos "Capites da Areia", nome pelo qual  conhecido o grupo de meninos assaltantes e ladres que infestam a nossa urbe. Essas crianas que to cedo se dedicaram
 tenebrosa carreira do crime no tm moradia certa ou pelo menos a sua moradia ainda no foi localizada. Como tambm ainda no foi localizado o local onde escondem
o produto dos seus assaltos, que se tornam dirios, fazendo Jus a uma Imediata providncia do Juiz de Menores e do dr. Chefe de Polcia.
  Esse bando que vive da rapina se compe, pelo que se sabe, de um nmero superior a 100 crianas das mais diversas idades, indo desde os8 aos 16 anos. Crianas
que, naturalmente devido ao desprezo dado  sua educao por pais pouco servidos de sentimentos cristos, se entregaram no verdor dos anos a uma vida criminosa.
So chamados de "Capites da Areia" porque o cais  o seu quartel-general. E tm por comandante um mascote dos seus 14 anos, que  o mais terrvel de todos, no
s ladro, como j autor de um crime de ferimentos graves, praticado na tarde de ontem. Infelizmente a Identidade deste chefe  desconhecida.

 (p. 4)

  O que se faz necessrio  uma urgente providncia da policia e do juizado de menores no sentido da extino desse bando e para que recolham esses precoces criminosos,
que j no deixam a cidade dormir em paz o seu sono to merecido, aos Institutos de reforma de crianas ou s prises. Passemos agora a relatar o assalto de ontem,
do qual foi vtima um honrado comerciante da nossa praa, que teve sua residncia furtada em mais de um conto de ris e um seu empregado ferido pelo desalmado chefe
dessa malta de jovens bandidos.

  Na residncia do comendador Jos Ferreira
  No Corredor da Vitria, corao do mais chique bairro da cidade, se eleva a bela vivenda do Comendador Jos Ferreira, dos mais abastados e acreditados negociantes
desta praa, com loja de fazendas na rua Portugal.  um gosto ver o palacete do comendador, cercado de jardins, na sua arquitetura colonial. Pois ontem esse remanso
de paz e trabalho honesto passou uma hora de indescritvel agitao e susto com a invaso que sofreu por parte dos "Capites da Areia".
  Os relgios badalavam as trs horas da tarde e a cidade abafava de calor quando o jardineiro notou que algumas crianas vestidas de molambos rondavam o jardim
da residncia do comendador. O jardineiro tratou de afastar da frente da casa aqueles incmodos visitantes. E, como eles continuassem o seu caminho, descendo a rua,
Ramiro, o jardineiro, volveu ao seu trabalho nos jardins do fiando do palacete. Minutos depois, porm, era o

  (p. 5)

  Assalto

  No tinham passado ainda cinco minutos quando o jardineiro Ramiro ouviu gritos assustados vindos do interior da residncia. Eram gritos de pessoas terrivelmente
assustadas. Armando-se de uma foice o jardineiro penetrou na casa e mal teve tempo de ver vrios moleques que, como um bando de demnios (na expresso curiosa de
Ramiro), fugiam saltando as janelas, carregados com objetos de valor da sala de jantar. A empregada que havia gritado estava cuidando da senhora do comendador, que
tivera um ligeiro desmaio em virtude do susto que passara. O Jardineiro dirigiu-se s pressas para o jardim, onde teve lugar a
  Luta

  Aconteceu que no jardim a linda criana que  Raul Ferreira, de 11 anos, neto do comendador, que se achava de visita aos avs, conversava com o chefe dos "Capites
da Areia", que  reconhecvel devido a um talho que tem no rosto. Na sua inocncia, Raul ria para o malvado, que sem dvida pensava em furt-lo. O jardineiro se
atirou ento em cima do ladro. No esperava, porm, pela reao do moleque, que se revelou um mestre nestas brigas. E o resultado  que, quando pensava ter seguro
o chefe da malta, o jardineiro recebeu uma punhalada no ombro e logo em seguida outra no brao, sendo obrigado a largar o criminoso, que fugiu.
  A polcia tomou conhecimento do fato, mas at o momento que escrevemos a presente nota nenhum rastro dos "Capites da Areia" foi encontrado. O Comendador Jos
Ferreira, ouvido pela nossa reportagem, avalia o seu prejuzo em mais de um conto de ris, pois s o pequeno relgio de sua esposa estava avaliado em 900$ e foi
furtado.

  (p. 6)

  Urge uma providncia

  Os moradores do aristocrtico bairro esto alarmados e receosos de que os assaltos se sucedam, pois este no  o primeiro levado a efeito pelos "Capites da Areia".
Urge uma providncia que traga para semelhantes malandros um justo castigo e o sossego para as nossas mais distintas famlias. Esperamos que o ilustre Chefe de Polcia
e o no menos ilustre dr. Juiz de Menores sabero tomar as devidas providncias contra esses criminosos to Jovens e j to ousados.

  A opinio da inocncia

  A nossa reportagem ouviu tambm o pequeno Raul, que, como dissemos, tem onze anos e j  dos ginasianos mais aplicados do Colgio Antnio Vieira. Raul mostrava
uma grande coragem, e nos disse acerca da sua conversa com o terrvel chefe dos "Capites da Areia".
  -- Ele disse que eu era um tolo e no sabia o que era brincar. Eu respondi que tinha uma bicicleta e muito brinquedo. Ele riu e disse que tinha a rua e o cais.
Fiquei gostando dele, parece um desses meninos de cinema que fogem de casa para passar aventuras.
  Ficamos ento a pensar neste outro delicado problema para a infncia que  o cinema, que tanta idia errada infunde s crianas acerca da vida. Outro problema
que est merecendo a ateno do dr. Juiz de Maiores. A ele volveremos.
  (Reportagem publicada no jornal da Tarde, na pgina de Fatos Policiais, com um clich da casa do comendador e um deste no momento em que era condecorado.)

  (p. 7)

  Carta do Secretrio do Chefe de polcia 
  Redao do Jornal da Tarde
  Sr. Diretor do Jornal da Tarde

  Cordiais saudaes.

  Tendo chegado ao conhecimento do dr. Chefe de Polcia a local publicada ontem na segunda edio desse jornal sobre as atividades dos "Capites da Areia", bando
de crianas delinqentes, e o assalto levado a efeito por este mesmo bando na residncia do comendador Jos Ferreira, o dr. Chefe de Polcia se apressa a comunicar
 direo deste jornal que a soluo do problema compete antes ao juiz de menores que  policia. A polcia neste caso deve agir em obedincia a um pedido do dr.
Juiz de Menores. Mas que, no entanto, vai tomar srias providncias para que semelhantes atentados no se repitam e para que os autores do de anteontem sejam presos
para sofrerem o castigo merecido.
  Pelo exposto fica claramente provado que a polcia no merece nenhuma crtica pela sua atitude em face desse problema. No tem agido com maior eficincia porque
no foi solicitada pelo juiz de menores.
  Cordiais saudaes.
  Secretrio do Chefe de Policia.

 (Publicada em primeira pgina do Jornal da Tarde, com clich do chefe de polcia e um vasto comentrio elogioso.)

  (p. 8)

  Carta do Doutor Juiz de Menores  Redao do Jornal da Tarde

  Exmo. Sr. Diretor do Jornal da Tarde.
  Cidade do Salvador
  Neste Estado.

  Meu caro patrcio.

  Cordiais saudaes.

  Folheando, num dos raros momentos de lazer que me deixam as mltiplas e variadas preocupaes do meu espinhoso cargo, o vosso brilhante vespertino, tomei conhecimento
de uma epstola do Infatigvel doutor Chefe de Polcia do Estado, na qual dizia dos motivos por que a Polcia no pudera at  data presente intensificar a meritria
campanha contra os menores delinqentes que infestam a nossa urbe. Justifica-se o doutor Chefe de Polcia declarando que no possua ordens do juizado de menores
no sentido de agir contra a delinqncia infantil. Sem querer absolutamente culpar a brilhante e infatigvel Chefia de Polcia, sou obrigado, a bem da verdade (essa
mesma verdade que tenho colocado como o farol que ilumina a estrada da minha vida com a sua luz purssima), a declarar que a desculpa no procede. No procede, sr.
Diretor, porque ao juizado de menores no compete perseguir e prender os menores delinqentes e, sim, designar o local onde devem cumprir pena, nomear curador para
acompanhar qualquer processo contra eles instaurado, etc. No cabe ao juizado de menores capturar os pequenos delinqentes. Cabe velar pelo seu destino posterior.
E o sr. doutor Chefe de Polcia sempre h de me encontrar onde o dever me chama, porque jamais, em 50 anos de vida impoluta, deixei de cumpri-lo.

 (p. 9)

  Ainda nestes ltimos meses que decorreram mandei para o Reformatrio de Menores vrios menores delinqentes ou abandonados. No tenho culpa, porm, de que fujam,
que no se impressionem com o exemplo de trabalho que encontram naquele estabelecimento de educao        e que, por meio da fuga, abandonem um ambiente onde se
respiram paz e trabalho e onde so tratados com o maior carinho. Fogem e se tornam ainda mais perversos, como se o exemplo que houvessem recebido fosse mau e daninho.
Por qu? Isso  um problema que aos psiclogos cabe resolver e no a mim, simples curioso da filosofia.
  O que quero deixar claro e cristalino, sr. Diretor,  que o doutor Chefe de Polcia pode contar com a melhor ajuda deste juizado de menores para intensificar a
campanha contra os menores delinqentes.
  De V.        Exa., admirador e patrcio grato, Juiz de Menores.
  (Publicada no jornal da Tarde com o clich do juiz de menores em uma coluna e um pequeno comentrio elogioso)

  (p. 10)

  Carta de uma Me,
Costureira,  Redao do
Jornal Da Tarde
  Sr. Redator:

  Desculpe os erros e a
letra pois no sou
costumeira nestas coisas de
escrever e se hoje venho a
vossa presena  para botar
os pontos nos ii. Vi no
jornal uma notcia sobre os
furtos dos "Capites da
Areia" e logo depois veio a
polcia e disse que ia
perseguir eles e ento o
doutor dos menores veio com
uma conversa dizendo que era
uma pena que eles no se
emendavam no reformatrio
para onde ele mandava os
pobres.  pra falar no tal
do reformatrio que eu
escrevo estas mal traadas
linhas. Eu queria que seu
jornal mandasse uma pessoa
ver o tal do reformatrio
para ver como so tratados
os filhos dos pobres que tm
a desgraa de cair nas mos
daqueles guardas sem alma.
Meu filho Alonso teve l
seis meses e se eu no
arranjasse tirar ele daquele
inferno em vida, no sei se
o desgraado viveria mais
seis meses. O menos que
acontece pros filhos da
gente  apanhar duas e trs
vezes por dia. O diretor de
l vive caindo de bbedo e
gosta de ver o chicote
cantar nas costas dos filhos
dos pobres. Eu vi isso
muitas vezes porque eles no
ligam pra gente e diziam que
era para dar exemplo. Foi
por isso que tirei meu filho
de l. Se o jornal do senhor
mandar uma pessoa l,
secreta, h de ver que
comida eles comem, o
trabalho de escravo que tm,
que nem um homem forte
agenta, e as surras que
tomam. Mas  preciso que v
secreto seno se eles
souberem vira um cu aberto.
V de repente e h de ver
quem tem razo.E por essas e
outras que existem os
"Capites da Areia". Eu
prefiro ver meu filho no
meio deles que no tal
reformatrio. Se o senhor
quiser ver uma coisa de
cortar o corao v l.
Tambm se quiser pode
conversar com o Padre Jos
Pedro, que foi capelo de l
e viu tudo isso. Ele tambm
pode contar e com melhores
palavras que eu no tenho.
  (Maria Ricardina, costureira. )
  (publicada na quinta pagina do jornal da Tarde, entre anncios, sem clichs e sem comentrios)

  (p. 12)

  Carta do Padre Jos~e Pedro  Redao do jornal da Tarde
  Sr. Redator do Jornal da Tarde. Saudaes em Cristo.
  Tendo lido, no vosso conceituado jornal, a carta de Maria Ricardina que apelava para mim como pessoa que podia esclarecer o que  a vida das crianas recolhidas
ao reformatrio de menores, sou obrigado a sair da obscuridade em que vivo para vir vos dizer que infelizmente Maria Ricardina tem razo. As crianas no aludido
reformatrio so tratadas como feras, essa  a verdade. Esqueceram a lio do suave Mestre, sr. Redator, e em vez de conquistarem as crianas com bons tratos, fazem-nas
mais revoltadas ainda com espancamentos seguidos e castigos fsicos verdadeiramente desumanos. Eu tenho ido l levar s crianas o consolo da religio e as encontro
pouco dispostas a aceit-lo devido naturalmente ao dio que esto acumulando naqueles jovens coraes to dignos de piedade. O que tenho visto, sr. Redator, daria
um volume.
  Muito grato pela ateno.
  Servo em Cristo,
  Padre Jos Pedro
  (Carta publicada na
terceira pgina do Jornal da
Tarde, sob o ttulo Ser
Verdade?  e sem
comentrios.)

  (p.13)

  Carta do Diretor do Reformatrio  Redao do Jornal Da Tarde
  Exmo. Sr. Diretor do Jornal da Tarde. Saudaes.
  Tenho acompanhado com grande interesse a campanha que o brilhante rgo da imprensa baiana, que com to rtila inteligncia dirigis, tem feito contra os crimes
apavorantes dos "Capites da areia", bando de delinqentes que amedronta a cidade e Impede que ela viva sossegadamente.
  Foi assim que li duas cartas de acusaes contra o estabelecimento que dirijo e que a modstia (e somente a modstia, sr. Diretor) me impede que chame de modelar.
  Quanto  carta de uma mulherzinha do povo, no me preocupei com ela, no merecia a minha resposta. Sem dvida  uma das muitas que aqui vm e querem impedir que
o Reformatrio cumpra a sua santa misso de educar os seus filhos. Elas os criam na rua, na pndega, e como eles aqui so submetidos a uma vida exemplar, elas so
as primeiras a reclamar, quando deviam beijar as mos daqueles que esto fazendo dos seus filhos homens de bem. Primeiro vm pedir lugar para os filhos. Depois sentem
falta deles, do produto dos furtos que eles levam para casa, e ento saem a reclamar contra o Reformatrio. Mas, como j disse, sr. Diretor, esta carta no me preocupou.
No  uma mulherzinha do povo quem h de compreender a obra que estou realizando  frente deste estabelecimento.
  O        que me abismou, sr. Diretor, foi a carta do Padre Jos Pedro. Este sacerdote, esquecendo as funes do seu cargo, veio lanar contra o estabelecimento
que dirijo graves acusaes. Esse padre (que eu chamarei  padre do demnio, se me permitis uma pequena ironia, sr. Diretor) abusou das suas funes para penetrar
no nosso estabelecimento de educao em horas proibidas pelo regulamento e contra ele eu tenho de formular uma sria queixa: ele tem incentivado os menores que o
Estado colocou a meu cargo  revolta,  desobedincia. Desde que ele penetrou os umbrais desta casa que os casos de rebeldia e contravenes aos regulamentos aumentaram.
O tal padre  apenas um instigador do mau carter geral dos menores sob a minha guarda. E por isso vou fechar-lhe as portas desta casa de educao.
  Porm, sr. Diretor, fazendo minhas as palavras da costureira que escreveu a este jornal, sou eu quem vem vos pedir que envieis um redator ao Reformatrio. Disso
fao questo. Assim podereis, e o pblico tambm, ter cincia exata e f verdadeira sobre a maneira como so tratados os menores que se regeneram no Reformatrio
Baiano de Menores Delinqentes e Abandonados. Espero o vosso redator na segunda-feira. E se no digo que ele venha no dia que quiser  que estas visitas devem ser
feitas nos dias permitidos pelo regulamento e  meu costume nunca me afastar do regulamento. Este  o motivo nico por que convido o vosso redator para segunda-feira.
Pelo que vos fico imensamente grato, como pela publicao desta. Assim ficar confundido o falso vigrio de Cristo.
  Criado agradecido e admirador atento, Diretor do Reformatrio Baiano de Menores Delinqentes e Abandonados (Publicada na 3 pgina do Jornal da Tarde com um clich
do reformatrio e uma notcia adiantando que na prxima segunda-feira ir um redator do Jornal da Tarde ao reformatrio.)

  (p. 15)

  Um Estabelecimento Modelar onde Reinam a Paz e o Tratado - um Diretor que  um Amigo - tima comida - crianas ladronas em Caminho da Regenerao - Acusaes Improcedentes
- s um Incorrigvel reclama - o Reformatrio Baiano  uma grande Famlia - onde deviam estar os Capites da Areia.
  (Ttulos da reportagem publicada na segunda edio de tera-feira do jornal da Tarde, ocupando toda a primeira pgina, sobre o Reformatrio Baiano, com diversos
clichs do prdio e um do diretor.)

  Sob a lua num velho trapiche abandonado

 (p. 19)

  O trapiche

  Sob a lua, num velho
trapiche abandonado, as crianas dormem.
  Antigamente aqui era o mar.
  Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche as ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A gua passava por baixo da ponte
sob a qual muitas crianas repousam agora, iluminadas por uma rstia amarela de lua. Desta ponte saram inmeros veleiros carregados, alguns eram enormes e pintados
de estranhas cores, para a aventura das travessias martimas. Aqui vinham encher os pores e atracavam nesta ponte de tbuas, hoje comidas. Antigamente diante do
trapiche se estendia o mistrio do mar-oceano, as noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras, daquela cor misteriosa que  a cor do mar  noite.
  Hoje a noite  alva em frente ao trapiche.  que na sua frente se estende agora o areal do cais do porto. Por baixo da ponte no h mais rumor de ondas. A areia
invadiu tudo, fez o mar recuar de muitos metros. Aos poucos, lentamente, a areia foi conquistando a frente do trapiche. No mais atracaram na sua ponte os veleiros
que iam partir carregados. No mais trabalharam ali os negros musculosos que vieram da escravatura. No mais cantou na velha ponte uma cano um marinheiro nostlgico.
A areia se estendeu muito alva em frente ao trapiche.  nunca mais encheram de fardos, de sacos, de caixes, o imenso casaro. Ficou abandonado em meio ao areal,
mancha negra na brancura do cais.

 (p. 20)

  Durante anos foi povoado exclusivamente pelos ratos que a atravessavam em corridas brincalhonas, que roam a madeira das portas monumentais, que o habitavam como
senhores exclusivos. Em certa poca um cachorro vagabundo o procurou como refgio contra o vento e contra a chuva. Na primeira noite no dormiu, ocupado em despedaar
ratos que passavam na sua frente. Dormiu depois de algumas noites, ladrando  lua pela madrugada, pois grande parte do teto j rura e os raios da lua penetravam
livremente, iluminando o assoalho de tbuas grossas. Mas aquele era um cachorro sem pouso certo e cedo partiu em busca de outra pousada, o escuro de uma porta, o
vo de uma ponte, o corpo quente de uma cadela. E os ratos voltaram a dominar at que os Capites da Areia lanaram as suas vistas para o casaro abandonado.
  Neste tempo a porta cara para um lado e um do grupo, certo dia em que passeava na extenso dos seus domnios (porque toda a zona do areal do cais, como alis
toda a cidade da Bahia, pertence aos Capites da Areia), entrou no trapiche.
  Seria bem melhor dormida que a pura areia, que as pontes dos demais trapiches onde por vezes a gua subia tanto que ameaava lev-los. E desde esta noite uma grande
parte dos Capites da Areia dormia no velho trapiche abandonado, em companhia dos ratos, sob a lua amarela. Na frente, a vastido da areia, uma brancura sem fim.
Ao longe, o mar que arrebentava no cais. Pela porta viam as luzes dos navios que entravam e saiam. Pelo teto viam o cu de estrelas, alua que os iluminava.
  Logo depois transferiram para o trapiche o depsito dos objetos que o trabalho do dia lhes proporcionava. Estranhas coisas entraram ento para o trapiche. No
mais estranhas, porm, que aqueles meninos, moleques de todas as cores e de idades as mais variadas1 desde os 9 aos 16 anos, que  noite se estendiam pelo assoalho
e por debaixo da ponte e dormiam, indiferentes ao vento que circundava o casaro uivando, indiferentes  chuva que muitas vezes os lavava, mas com os olhos puxados
para as luzes dos navios, com os ouvidos presos s canes que vinham das embarcaes...
   aqui tambm que mora o chefe dos Capites da Areia Pedro Bala. Desde cedo foi chamado assim, desde seus cinco anos. Hoje tem 15 anos. H dez que vagabundeia
nas ruas da Bahia. Nunca soube de sua me, seu pai morrera de um balao. Ele ficou sozinho e empregou anos em conhecer a cidade. Hoje sabe de todas as suas ruas
e de todos os seus becos. No h venda, quitanda, botequim que ele no conhea. Quando se incorporou aos Capites da Areia (o cais recm-construdo atraiu para as
suas areias todas as crianas abandonadas da cidade) o chefe era Raimundo, o Caboclo, mulato avermelhado e forte.

  (p. 21)

  No durou muito na chefia o caboclo Raimundo. Pedro Bala era muito mais ativo, sabia planejar os trabalhos, sabia tratar com os outros, trazia nos olhos e na voz
a autoridade de chefe. Um dia brigaram. A desgraa de Raimundo foi puxar uma navalha e cortar o rosto de Pedro, um talho que ficou para o resto da vida. Os outros
se meteram e como Pedro estava desarmado deram razo a ele e ficaram esperando a revanche, que no tardou. Uma noite, quando Raimundo quis surrar Barando, Pedro
tomou as dores do negrinho e rolaram na luta mais sensacional a que as areias do cais jamais assistiram. Raimundo era mais alto e mais velho. Porm Pedro Bala, o
cabelo loiro voando, a cicatriz vermelha no rosto, era de uma agilidade espantosa e desde esse dia Raimundo deixou no s a chefia dos Capites da Areia, como o
prprio areal. Engajou tempos depois num navio.
  Todos reconheceram os direitos de Pedro Bala  chefia, e foi desta poca que a cidade comeou a ouvir falar nos Capites da Areia, crianas abandonadas que viviam
do furto. Nunca ningum soube o nmero exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas runas do velho trapiche.
  Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos, soltando palavres e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam
totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas.

  (p. 22)

  Noite dos Capites da
Areia

  A grande noite de Paz da Bahia veio do Cais, envolveu os saveiros, o forte, o quebra-mar, se estendeu sobre as ladeiras e as torres das igrejas. Os sinos j no
tocam as ave-marias que as seis horas h muito que passaram. E o cu est cheio de estrelas, se bem que a lua no tenha surgido nesta noite clara. O trapiche se destaca
na brancura do areal, que conserva as marcas dos passos dos Capites da Areia, que j se recolheram. Ao longe, a fraca luz da lanterna da Porta do Mar, botequim
de martimos, parece agonizar. Passa um vento frio que levanta a areia e torna difceis os passos do negro Joo Grande, que se recolhe. Vai curvado pelo vento como
a vela de um barco. E alto, o mais alto do bando, e o mais forte tambm, negro de carapinha baixa e msculos retesados, embora tenha apenas treze anos, dos quais
quatro passados na mais absoluta liberdade, correndo as ruas da Bahia com os Capites da Areia. Desde aquela tarde em que seu pai, carroceiro gigantesco, foi pegado
por um caminho quando tentava desviar o cavalo para um lado da rua, Joo Grande no voltou pequena casa do morro. Na sua frente estava a cidade misteriosa, e ele
partiu para conquist-la. A cidade da Bahia, negra e religiosa,  quase to misteriosa como o verde mar. Por isso Joo Grande no voltou mais. Engajou com 9 anos
nos Capites da Areia, quando o Caboclo ainda era o chefe e o grupo pouco conhecido, pois o Caboclo no gostava de se arriscar. Cedo Joo Grande se fez um dos chefes
e nunca deixou de ser convidado para as reunies que os maiorais faziam para planejar os furtos. No que fosse um bom organizador de assaltos ou  uma inteligncia viva. Ao
contrrio, doa-lhe a cabea se tinha que pensar. Ficava com os olhos ardendo, como ficava tambm quando via algum fazendo maldade com os menores. Ento seus msculos
se retesavam e estava disposto a qualquer briga. Mas a sua enorme fora muscular o fizera temido. O Sem-Pernas dizia dele:

  (p. 23)

  -- Este negro  burro mas  uma prensa...
  E os menores, aqueles pequeninos que chegavam para o grupo cheios de receio tinham nele o mais decidido protetor. Pedro, o chefe, tambm gostava de ouvi-lo. E
Joo Grande bem sabia que no era por causa da sua fora que tinha a amizade do Bala. Pedro achava que o negro era bom e no se cansava de dizer:
  -- Tu  bom, Grande. Tu  melhor que a gente. Gosto de voc -- e batia pancadinhas na perna do negro, que ficava encabulado.
  Joo Grande vem vindo para o trapiche. O vento quer impedir passos e ele se curva todo, resistindo contra o vento que levanta a areia. Ele foi  Porta do Mar beber
um trago de cachaa com o Querido-de-Deus, que chegou hoje dos mares do Sul, de uma pescaria. O Querido-de-Deus  o mais clebre capoeirista da cidade. Quem no
o respeita na Bahia? No jogo de capoeira de Angola ningum pode se medir com o Querido-de-Deus, nem mesmo Z Moleque, que deixou fama no Rio de Janeiro. O Querido-de-Deus
contou as novidades e avisou que no dia seguinte apareceria no trapiche para continuar as lies de capoeira que Pedro Bala, Joo Grande e o Gato tomam. Joo Grande
fuma um cigarro e anda para o trapiche. As marcas dos seus grandes ps ficam na areia, mas o vento logo as destri. O negro pensa que nessa noite de tanto vento
so perigosos os caminhos do mar.
  Joo Grande passa por debaixo da ponte -- os ps afundam na areia -- evitando tocar no corpo dos companheiros que j dormem. Penetra no trapiche. Espia um momento
indeciso at que nota a luz da vela do Professor. L est ele, no mais longnquo canto do casaro, lendo  luz de uma vela. Joo Grande pensa que aquela luz ainda
 menor e mais vacilante que a da lanterna da Porta do Mar e que o Professor est comendo os olhos de tanto ler aqueles livros de letra mida. Joo Grande anda para
onde est o Professor, se bem durma sempre na porta do trapiche, como um co de fila, o punhal prximo da mo, para evitar alguma surpresa.

  (p. 24)

  Anda entre os grupos que conversam, entre as crianas que dormem, e chega para perto do Professor. Acocora-se junto a ele e fica espiando a leitura atenta do outro.
  Joo Jos, o Professor, desde o dia em que furtara um livro de histrias numa estante de uma casa da Barra, se tornara perito nestes furtos. Nunca, porm, vendia
os livros, que ia empilhando num canto do trapiche, sob tijolos, para que os ratos no os roessem. Lia-os todos numa nsia que era quase febre. Gostava de saber
coisas e era ele quem muitas noites, contava aos outros histrias de aventureiros, de borne do mar, de personagens hericos e lendrios, histrias que faziam aqueles
olhos vivos se espicharem para o mar ou para as misteriosas ladeiras da cidade, numa nsia de aventuras e de herosmo. Joo Jos era o nico que lia correntemente
entre eles e, no entanto, s esteve na escola ano e meio. Mas o treino dirio da leitura despertara completamente sua imaginao e talvez fosse ele o nico que tivesse
uma certa conscincia do herico das suas vidas. Aquele saber, aquela vocao para contar histrias, fizera-o respeitado entre os Capites da Areia, se bem fosse franzino,
magro e triste, o cabelo moreno caindo sobre os olhos apertados de mope. Apelidaram-no de Professor porque num livro furtado ele aprendera a fazer mgicas com lenos
nqueis e tambm porque, contando aquelas histrias que lia e muitas que inventava, fazia a grande e misteriosa mgica de os transportar para mundos diversos, fazia
com que os olhos vivos dos Capites da Areia brilhassem como s brilham as estrelas da noite da Bahia. Pedro Bala nada resolvia sem o consultar e vrias vezes foi
a imaginao do Professor que criou os melhores planos de roubo. Ningum sabia, entre tanto, que um dia, anos passados, seria ele quem haveria de contar em quadros que
assombrariam o pas a histria daquelas vidas e muitas outras histrias de homens lutadores e sofredores. Talvez s o soubesse Don'Aninha, a me do terreiro da Cruz
de Op Afonj, porque Don'Aninha sabe de tudo que Y lhe diz atravs de um bzio noites de temporal.
  Joo Grande ficou muito tempo atento  leitura. Para o negro aquelas letras nada diziam. O seu olhar ia do livro para a luz oscilante da vela, e desta para o cabelo
despenteado do Professor. Terminou por se cansar e perguntou com sua voz cheia e quente:
  -- Bonita, Professor?

  (p. 26)

  Professor desviou os olhos do livro, bateu a mo descarnada no ombro do negro, seu mais ardente admirador:
  -- Uma histria zorreta, seu Grande -- seus olhos brilhavam.
  -- De marinheiro?
  --  de um negro assim como tu. Um negro macho de verdade.
  -- Tu conta?
  -- Quando findar de ler eu conto. Tu vai ver s que negro...
  E volveu os olhos para as pginas do livro. Joo Grande acendeu um cigarro barato, ofereceu outro em silncio ao Professor e ficou fumando de ccoras, como que
guardando a leitura do outro. Pelo trapiche ia um rumor de risadas, de conversas, de gritos. Joo Grande distinguia bem a voz do Sem-Pernas, estrdula e fanhosa.
O Sem-Pernas falava alto, ria muito. Era o espio do grupo, aquele que sabia se meter na casa de uma famlia uma semana, passando por um bom menino perdido dos pais
na imensido agressiva da cidade. Coxo, o defeito fsico valera-lhe o apelido. Mas valia-lhe tambm a simpatia de quanta me de famlia o via, humilde e tristonho,
na sua porta pedindo um pouco de comida e pousada por uma noite. Agora, meio do trapiche, O Sem-Pernas metia a ridculo o Gato, que perde todo um dia para furtar
um anelo cor de vinho, sem nenhum valor real, pedra falsa, de falsa beleza tambm.
  Fazia j uma semana que o Gato avisara a meio mundo:
  -- Vi um anelo, seu mano, que nem de bispo. Um anelo bom pro meu dedo. Batuta mesmo. Tu vai ver quando eu trouxer...
  -- Em que vitrine?
  -- No dedo de um pato. Um gordo que todo dia toma o bonde de Brotas na Baixa do Sapateiro.
  E o Gato no descansou enquanto no conseguiu, no aperto um bonde das seis horas da tarde, tirar o anel do dedo do homem, escapulindo na confuso, porque o dono
logo percebeu. Exibia o anel no dedo mdio, com vaidade. O Sem-Pernas ria:
  -- Arriscar cadeia por uma porcaria! Um troo feio...
  -- Que tem tu com isso? Eu acho bom, t acabado.
  -- Tu  burro mesmo. Isso no prego no d nada.
  -- Mas d simpatia no meu dedo. Tou arranjando uma comida

  (p. 27)

  Falavam naturalmente em mulher apesar do mais velho ter apenas 16 anos. Cedo conheciam os mistrios do sexo.
  Pedro Bala, que ia entrando, desapartou o comeo de briga. Joo Grande deixou o Professor lendo e veio para junto do chefe. O Sem-Pernas ria sozinho, resmungando
acerca do anel. Pedro o chamou e foi com ele e com Joo Grande para o canto onde estava Professor...
  -- Vem c, Professor.
  Ficaram os quatro sentados. O Sem-Pernas acendeu uma ponta de charuto caro, ficou saboreando. Joo Grande espiava o pedao de mar que se via atravs da porta,
alm do areal. Pedro falou:
  -- Gonzales do 14 falou hoje comigo...
  -- Quer mais corrente de ouro? Da outra vez... -- atalhou O Sem-Pernas.
  --No. T querendo chapu. Mas s topa de feltro. Palhinha no vale, diz que no tem sada. E tambm...
  -- Que  que tem mais? -- novamente interrompeu O Sem-Pernas.
  -- Tem que muito usado no presta.
  --T querendo muita coisa. Se ainda pagasse que valesse a pena.
  -- Tu sabe, Sem-Pernas, que ele  um bicho calado. Pode no pagar bem, mas  uma cova. Dali no sai nada, nem a gancho.
  --Tambm paga uma misria. E  interesse dele no dizer nada. Se ele abrir a boca no mundo no h costas largas que livre ele do xilindr...
  -- T bom, Sem-Pernas, voc no quer topar o negcio, v embora, mas deixe a gente combinar as coisas direito.
  -- No tou dizendo que no topo. Tou s falando que trabalhar pra um gringo ladro no  negcio. Mas se tu quer...
  -- Ele diz que desta vez vai pagar melhor. Uma coisa que pague a pena. Mas s chapu de feltro bom e novo. Tu, Sem-Pernas, podia ir com uns fazer esse negcio.
Amanh de noite Gonzales manda um empregado do 14 aqui pra trazer os midos e levar as carapuas.
  -- Bom lugar e nos cinemas -- disse o Professor voltando-se para
  O Sem-Pernas.

 (p. 28)

  -- Bom  na Vitria... -- e o Sem-Pernas fez um gesto de
desprezo.
  --  s entrar nos corredores e aquilo  chapu garantido... Tudo gente de nota
  -- Tambm tem guarda em penca...
  --Tu liga pra guarda? Se ainda fosse fira... Guarda  pra correr
picula. Tu vai comigo, Professor?
  -- Vou. Mesmo que tou precisando de um chapu.
  Pedro Bala falou:
  -- Arranja os que quiser, Sem-Pernas. Este negcio fica por tua        conta. Menos o Grande e o Gato, que eu tenho um negcio com eles
pra amanh -- virou-se para Joo Grande. -- Um negcio do
Querido-de-Deus.
  -- Ele j teve me avisando. E diz-que de noite vem pra capoeira.
  Pedro voltou-se para o Sem-Pernas, que j se retirava para ir combinar com Pirulito a formao do grupo que ia em cata de chapus no dia seguinte:
  -- Olha, Sem-Pernas, tu trata de avisar que se algum for bispado trate de dar o sute para outro lado. No venha pra c.
Pediu um cigarro, Joo Grande deu. O Sem-Pernas, j afastado, chamava Pirulito. Pedro foi em busca do Gato, tinha um assunto a  conversar com ele. Depois voltou,
se estendeu perto do lugar onde estava Professor. Este retornou ao seu livro, sobre o qual se debruou at que a vela queimou-se toda e a escurido do trapiche o
envolveu. Joo Grande caminhou vagarosamente para a porta, onde se deitou ao comprido, o punhal no cinto.
  Pirulito era magro e muito alto, uma cara seca, meio amarelada, os olhos encovados e fundos, a boca rasgada e pouco risonha. O Sem-Pernas primeiro fez pilhria
perguntando se ele j estava rezado, depois entrou no assunto da pilhagem de chapus, acertaram que        a levariam um certo nmero de meninos que escolheram cuidadosamente,
marcaram as zonas onde operariam e se separaram. Pirulito ento foi para o seu canto costumeiro. Dormia invariavelmente ali, onde as paredes do trapiche faziam um
ngulo. Tinha

  (p. 29)

disposto carinhosamente as suas coisas: um cobertor velho, um travesseiro que trouxera certa vez de um hotel onde penetrara levando as malas de um viajante, um par
de calas que vestia aos domingos junto com uma blusa de cor indefinida, porm mais ou menos limpa. E pregados na parede, com pregos pequenos, dois quadros de santos:
um Santo Antnio carregando um Menino Deus (Pirulito se chamava Antnio e tinha ouvido dizer que Santo Antnio era brasileiro) e uma Nossa Senhora das Sete Dores
que tinha o peito cravado de setas: sob o seu quadro uma flor murcha. Pirulito recolheu a flor, aspirou-a, viu que no tinha mais perfume. Ento a amarrou junto
ao bentinho que trazia no peito e do bolso do velho palet que vestia retirou um cravo vermelho que colhera num jardim, mesmo sob as vistas do guarda, naquela hora
indecisa do crepsculo. E colocou o cravo por baixo do quadro, enquanto fitava a santa com um olhar comovido. Logo ajoelhou-se. Os outros, a princpio, faziam muita
pilhria quando o viam de joelhos, rezando. Porm j haviam se acostumado e ningum mais reparava. Comeou a rezar e seu arde asceta se pronunciou ainda mais, seu
rosto de criana ficou mais plido e mais grave, suas mos longas e magras se levantaram ante o quadro. Todo seu rosto tinha uma espcie de aurola e a sua voz
tonalidades e vibraes que os companheiros no conheciam. Era como se estivesse fora do mundo, no no velho e arruinado trapiche, mas numa outra terra, junto com
Nossa Senhora das Sete Dores. No entanto, sua reza era simples e no fora sequer aprendida em catecismos. Pedia que a Senhora o ajudasse a um dia poder entrar para
aquele colgio que estava no Sodr, e de onde saam os homens transformados em sacerdotes.
  O        Sem-Pernas, que vinha combinar um detalhe da questo dos chapus e que, desde que o vira rezando, trazia uma pilhria preparada, uma pilhria que s com
o pensar nela ele ria e que iria desconcertar completamente Pirulito, quando chegou perto e viu Pirulito rezando, de mos levantadas, olhos fixos ningum sabia onde,
o rosto aberto em xtase (estava como que vestido de felicidade), parou, o riso burlo murchou nos seus lbios e ficou a espi-lo meio a medo, possudo de um sentimento
que era um pouco de inveja e um pouco de desespero.

  (p. 30)

  O Sem-Pernas ficou parado, olhando. Pirulito no se mexia. Apenas seus lbios tinham um lento movimento. O Sem-Pernas costumava burlar dele, como de todos os demais
do grupo, mesmo de Professor, de quem gostava, mesmo de Pedro Bala, a quem respeitava. Logo que um novato entrava para os Capites da Areia formava uma idia ruim
de Sem-Pernas. Porque ele logo botava um apelido, ria de um gesto, de uma frase do novato. Ridicularizava tudo, era dos que mais brigavam. Tinha mesmo fama de malvado.
Uma vez fez tremendas crueldades com um gato que entrara no trapiche. E um dia cortara de navalha um garom de restaurante para furtar apenas um frango assado. Um
dia em que teve um abscesso na perna o rasgou friamente a canivete e na vista de todos o espremeu rindo. Muitos do grupo no gostavam dele, mas aqueles que passavam
por cima de tudo e se faziam seus amigos diziam que ele era um sujeito bom. No mais fundo do seu corao ele tinha pena da desgraa de todos. E rindo, e ridicularizando,
era que fugia da sua desgraa. Era como um remdio. Ficou parado olhando Pirulito, que rezava concentrado. No rosto do que rezava ia uma exaltao, qualquer coisa
que ao primeiro momento o Sem-Pernas pensou que fosse alegria ou felicidade. Mas fitou o rosto do outro e achou que era uma expresso que ele no sabia definir.
E pensou, contraindo o seu rosto pequeno, que talvez por isso ele nunca tivesse pensado em rezar, em se voltar para o cu de que tanto falava o padre Jos Pedro
quando vinha v-los. O que ele queria era felicidade, era alegria, era fugir de toda aquela misria, de toda aquela desgraa que os cercava e os estrangulava. Havia,
 verdade, a grande liberdade das ruas. Mas havia tambm o abandono de qualquer carinho, a falta de todas as palavras boas. Pirulito buscava isso no cu, nos quadros
de santo, nas flores murchas que trazia para Nossa Senhora das Sete Dores, como um namorado romntico dos bairros chiques da cidade traz para aquela a quem ama com
inteno de casamento. Mas o Sem-Pernas no compreendia que aquilo pudesse bastar. Ele queria uma coisa imediata, uma coisa que pusesse seu rosto sorridente e alegre,
que o livrasse da necessidade de rir de todos e de rir de tudo. Que o livrasse tambm daquela angstia, daquela vontade de chorar que o tomava nas noites de inverno.
No queria o que tinha Pirulito, o rosto cheio de uma exaltao. Queria alegria, uma mo que, o acarinhasse, algum que com muito amor o fizesse esquecer o defeito
fsico e os muitos anos (talvez tivessem sido apenas meses ou semanas, mas para ele seriam sempre longos anos) que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado
pelos homens que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores. Nunca tivera famlia. Vivera na casa de um padeiro a quem chamava meu padrinho
e que o surrava. Fugiu logo que pde compreender que a fuga o libertaria. Sofreu fome, um dia levaram-no preso. Ele quer um carinho, u'a mo que passe sobre os seus
olhos e faa com que ele possa se esquecer daquela noite na cadeia, quando os soldados bbados o fizeram correr com sua perna coxa em volta de uma saleta. Em cada
canto estava um com uma borracha comprida. As marcas que ficaram nas suas costas desapareceram. Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora. Corria na
saleta como um animal perseguido por outros mais fortes. A perna coxa se recusava a ajud-lo. E a borracha zunia nas suas costas quando o cansao o fazia parar.
A princpio chorou muito, depois, no sabe como, as lgrimas secaram. Certa hora no resistiu mais, abateu-se no cho. Sangrava. Ainda hoje ouve como os soldados
riam e como riu aquele homem de colete cinzento que fumava um charuto. Depois encontrou os Capites da Areia (foi o Professor quem o trouxe, haviam feito camaradagem
num banco de jardim) e ficou com eles. No tardou a se destacar porque sabia como nenhum afetar uma grande dor e assim conseguir enganar senhoras, cujas casas eram
depois visitadas pelo grupo j ciente de todos os lugares onde havia objetos de valor e de todos os hbitos da casa. E o Sem-Pernas tinha verdadeira satisfao ao
pensar em quanto o xingariam aquelas senhoras que o haviam tomado por um pobre rfo. Assim se vingava, porque seu corao estava cheio de dio. Confusamente desejava
ter uma bomba (como daquelas de certa histria que o Professor contara) que arrasasse toda a cidade, que levasse todos pelos ares. Assim ficaria alegre. Talvez ficasse
tambm se viesse algum, possivelmente uma mulher de cabelos grisalhos e mos suaves, que o apertasse contra o peito, que acarinhasse seu rosto e o fizesse dormir
um sono bom, um sono que no estivesse cheio dos sonhos da noite na cadeia. Assim ficaria alegre, o dio no estaria mais no seu corao. E no teria mais desprezo,
inveja, dio de Pirulito que, de mos levantadas e olhos fixos, foge do seu mundo de sofrimentos para um mundo que conheceu nas conversas do padre Jos Pedro.

  (p.32)

  Um rumor de conversas se aproxima. Vem um grupo de quatro entrando no silncio que j reina na noite do trapiche. O Sem-Pernas se estremece, ri nas costas de Pirulito,
que continua a rezar. Encolhe os ombros, decide deixar para a manh do dia seguinte o acerto dos detalhes do furto dos chapus. E como tem medo de dormir, vai ao
encontro do grupo que chega, pede um cigarro, diz dichotes sobre a aventura de mulheres que os quatro contam:
  -- Uns franguinhos como vocs, quem  que vai acreditar que seja
capaz de derrubar uma mulher? Isso devia ser algum xibungo vestido
de menina.
  Os outros se irritam:
  -- Tu tambm se faz de besta. Se quer  s vir com a gente amanh. Assim tu pode conhecer a zinha, que  um peixo.
  O Sem-Pernas ri, sardnico:
  -- No gosto de xibungo.
  E sai andando pelo trapiche.
  O Gato ainda no est dormindo. Sempre sai depois das onze horas.  o elegante do grupo. Quando chegou, alvo e rosado, Boa-Vida tentou conquist-lo. Mas j naquele
tempo o Gato era de uma agilidade incrvel e no vinha, como Boa-Vida pensava, da casa de uma famlia. Vinha do meio dos ndios Maloqueiros, crianas que  vivem
sob as pontes de Aracaju. Fizera a viagem na rabada de um trem. Conhecia bem a vida de um grupo de crianas abandonadas. E j tinha da mais de 13 anos. Assim conheceu
logo os motivos por que Boa-Vida, mulato troncudo e feio, o tratou com tanta considerao, lhe ofereceu cigarros e lhe deu parte do seu jantar e correu com ele a
cidade. Depois bateram juntos um par de sapatos novos que estava exposto na porta de uma casa na Baixa dos Sapateiros. Boa-Vida tinha dito:
  -- Deixa estar, que eu sei onde se pode vender.
  O Gato espiou seus sapatos pudos.
  -- Eu tava querendo eles pra mim. J tou precisando...

  (p. 33)

  -- Tu com um sapato ainda to bom... -- se admirou Boa-Vida, que raras vezes levava sapatos e que, naquele momento, estava descalo.
  -- Eu pago a tua parte. Quanto tu pensa?
  Boa-Vida olhou para ele. O Gato levava gravata, um palet remendado e, coisa espantosa!, levava meias.
  -- Tu  da elegncia, hein? -- sorriu.
  -- No nasci para essa vida. Nasci para o grande mundo -- disse o Gato, repetindo uma frase que ouvira certa vez de um caixeiro-viajante num cabar de Aracaju.
  Boa-Vida achava-o decididamente lindo. O Gato tinha um ar petulante, e embora no fosse uma beleza efeminada, agradava a Boa-Vida, que, alm de tudo, no tinha
muita sorte com mulheres, pois aparentava muito menos que 13 anos, baixo e acachapado. O Gato era alto e sobre os seus lbios de 14 anos comeava a surgir uma penugem
de bigode que ele cultivava. Boa-Vida naquele momento o amou com certeza, porque disse:
  -- Tu pode ficar com eles... Eu te dou minha parte.
  -- T certo. Fico te devendo.
  Boa-Vida quis aproveitar os agradecimentos do outro para iniciar sua conquista. E baixou a mo pelas coxas do Gato, que se esquivou s com o jogo do corpo. O Gato
riu consigo mesmo e no disse nada. Boa-Vida achou que no devia insistir, seno era capaz de espantar o menino. Ele no sabia nada do Gato e nem imaginava que este
conhecia seu jogo. Andaram juntos parte da noite, vendo a iluminao da cidade (o Gato estava assombrado), e por volta das onze foram para o trapiche. Boa-Vida mostrou
o Gato a Pedro e levou-o depois para o lugar onde dormia:
  -- Tenho aqui um lenol. D pra ns dois.
  O Gato deitou. Boa-Vida se estendeu ao lado. Quando pensou que o outro estava dormindo o abraou com uma mo e com a outra comeou a puxar-lhe as calas devagarinho.
Num minuto o Gato estava de p:
  -- Tu te enganou, mulato. Eu sou  homem.

  (p. 34)

  Mas Boa-Vida j no via nada, s via seu desejo, a vontade que tinha do corpo alvo do Gato, de enrolar o rosto nos cabelos morenos do Gato, de apalpar as carnes
duras das coxas do Gato. E se atirou em cima dele com inteno de derrub-lo e for-lo. Mas o Gato desviou o corpo, passou-lhe a perna, Boa-Vida se estendeu de
nariz. J tinha se formado um grupo em torno. O Gato disse:
  -- Ele pensava que eu era maricas. Tu te faz de besta.
  Arrancou com o lenol de Boa-Vida para outro canto e dormiu e dormiu. Levaram algum tempo inimigos, mas depois voltaram s boas e agora,  quando o Gato se cansa
de uma pequena, entrega ao Boa-Vida.
  Uma noite o Gato andava pelas ruas das mulheres, o cabelo muito lustroso de brilhantina barata, uma gravata enrolada no pescoo, assoviando como se fosse um daqueles
malandros da cidade. As mulheres o olhavam e riam:
  -- Olha aquele frangote... O que querer por aqui?
  O Gato respondia aos sorrisos e seguia. Esperava que uma o chamasse e fizesse o amor com ele. Mas no queria por dinheiro, no s porque os nqueis que possua
no passavam de mil e quinhentos, ou como porque os Capites da Areia no gostavam de pagar mulher.
  Tinham as negrinhas de dezesseis anos para derrubar no areal.
  As mulheres olhavam para a sua figura de garoto. Sem dvida achavam-no belo na sua meninice viciada e gostariam de fazer o amor com ele. Mas no o chamavam porque
aquela era a hora em que as esperavam os homens que pagavam, e elas tinham que pensar na casa e no almoo do dia seguinte. Se contentavam assim com rir e fazer
pilhrias. Sabiam que dali sairia um daqueles vigaristas que enchem a vida de uma mulher, que lhe tomam dinheiro, do pancadas, mas tambm do muito amor. Muitas
delas gostariam de ser a primeira mulher deste malandro to jovem. Mas eram dez horas, hora dos homens que pagavam. E o Gato andava de um lado para outro, inutilmente.
Foi quando viu Dalva, que vinha pela rua embuada num capote de peles apesar da noite devero. Ela passou por ele quase da o ver. Era uma mulher de uns trinta e
cinco anos, corpo forte, rosto cheio de sensualidade. O Gato a desejou imediatamente. Foi atrs dela. Viu quando entrou em casa sem se voltar. Ficou na esquina esperando.
Minutos depois ela apareceu na janela. O Gato subiu e desceu a rua, mas ela nem o olhava. Depois passou um velho, atendeu ao chamado dela, entrou. O Gato ainda esperou,
porm, mesmo depois do velho ter sado muito apressado, procurando no ser visto, ela no voltou  janela.
  Noites e noites o Gato volveu  mesma esquina s para v-la. Agora tudo o que conseguia em dinheiro era para comprar trajes usados e se pr elegante. Tinha o dom
da elegncia malandra, que est mais no jeito de andar, de colocar o chapu e dar um lao despreocupado na gravata que na roupa propriamente. O Gato desejava Dalva
do mesmo modo como desejava comida ao ter fome, como desejava dormir ao ter sono. J no atendia ao chamado das outras mulheres quando, passada a meia-noite, elas
j tinham feito para as despesas do dia seguinte e ento queriam o amor juvenil do pequeno malandro. Uma vez foi com uma s para saber da vida de Dalva. Foi assim
que se inteirou de que ela tinha um amante, um tocador de flauta num caf, que tomava o dinheiro que ela fazia e ainda tomava porres colossais na sua casa, atrapalhando
a vida de todas as rameiras do prdio.
  O Gato voltava todas as noites. Dalva nunca lhe deu sequer um olhar. Por isso ele ainda a amava mais. Ficava numa espera dolorosa at meia hora depois de meia-noite,
quando o flautista chegava e, depois de a beijar na janela, entrava pela porta mal iluminada. Ento o Gato ia para o trapiche, a cabea cheia de pensamentos: se
um dia o flautista no viesse... Se o flautista morresse... Era fraco, talvez no agentasse nem o peso dos quatorze anos do Gato. E apertava a navalha que levava
na blusa.
  E uma noite o flautista no veio. Nesta noite Dalva andara pelas ruas como uma doida, voltara tarde para casa, no recebera nenhum homem e agora estava ali, postada
na janela, apesar de j ter dado as doze horas h muito tempo. Aos poucos a rua foi ficando deserta. No restaram seno o Gato na esquina e Dalva, que ainda esperava
na janela. O Gato sabia que aquela era a sua noite e estava alegre. Dalva desesperava. Ento o Gato comeou a passear de um lado para o outro da rua at que a mulher
o notou e fez um sinal. Ele veio logo, sorrindo.
  -- Tu no  um frangote que fica na esquina toda noite?
  -- Quem fica na esquina sou eu. Agora essa coisa de frangote...
  Ela sorriu tristemente:

  (p. 36)

  --        Tu quer me fazer um favor? Te dou uma coisa -- mas logo pensou e fez um gesto. -- No. Tu com certeza t esperando tua comida e no vai perder tempo.
  -- Posso, sim. A que estou esperando no vem agora.
  --        Ento eu quero, filhinho, que tu v na rua Rui Barbosa. O nmero  35. Procura seu Gasto.  no primeiro andar. Diz a ele que estou esperando.
  O Gato saiu humilhado. Primeiro pensou em no ir e em nunca mais voltar a ver Dalva. Mas depois se decidiu a ir para ver de perto o flautista que tinha coragem
de abandonar uma mulher to bonita. Chegou no prdio (um sobrado negro de muitos andares), subiu as escadas, no primeiro andar perguntou a um garoto que dormia no
corredor qual era o quarto do Sr. Gasto. O garoto mostrou o ltimo quarto, o Gato bateu na porta. O flautista veio abrir, estava de cuecas e na cama o Gato viu
uma mulher magra. Estavam os dois bbados.
  O Gato falou:
  -- Venho da parte de Dalva.
  -- Diga quela bruaca que no me amole. Tou chateado dela at aqui... -- e punha a mo aberta na garganta.
  De dentro do quarto a mulher falou:
  --        Quem  esse cocadinha?
  --        No te mete - disse o flautista, mas logo acrescentou: --  um recado da bruaca da Dalva. T se pelando que eu volte.
  A mulher riu um riso canalha de bbada:
  --        Mas tu agora s quer tua Bebezinha, no ? Vem me dar um beijinho, anjo sem asas.
  O        flautista riu tambm:
  --        T vendo, pedao de gente? Diz isso a Dalva.
  --        Tou vendo um couro espichado ali, sim senhor. Que urubu voc arranjou, hein, camarada?
  O        flautista o olhou muito srio:
  --        No fale de minha noiva -- e logo: -- Quer tomar um trago?  caninha da boa.
  O        Gato entrou. A mulher na cama se cobriu. O flautista riu:

  (p. 37)

  --  um filhote somente. No faz medo.
  -- Mesmo esse couro -- disse o gato -- no me tenta. Nem pra me tocar bronha.
  Bebeu a cachaa. O flautista j voltara para a cama e beijava a mulher. Nem viram que o Gato saa e que levava a bolsa da prostituta, que estava esquecida na cadeira,
sobre vestidos. Na rua o Gato contou sessenta e oito mil-ris. Jogou a bolsa no p da escada, meteu o dinheiro no bolso. E foi para rua de Dalva, assoviando.
  Dalva o esperava na janela. O Gato olhou para ela fixamente:
  -- Vou emborcar... -- e foi entrando sem esperar resposta.
  Dalva, mesmo no corredor, perguntou:
  -- O que foi que ele disse?
  -- No quarto te digo. Me mostre onde .
  Entraram no quarto. A primeira coisa que o Gato viu foi um retrato de Gasto tocando flauta, vestido de smoking. Sentou na cama olhando o retrato. Dalva espiava
espantada e mal pde novamente interrogar:
  -- O que foi que ele disse?
  O Gato respondeu:
  -- Senta aqui -- e indicou a cama.
  -- Esse frangote... -- murmurou ela.
  -- Olha, bichinha, ele t grudado com outra, sabe? Tambm eu disse as boas aos dois. E depois pelei a bruaca -- meteu a mo no bolso, tirou o dinheiro. -- Vamos
rachar isso.
  -- T com outra, no ? Mas
meu Senhor do Bonfim h de
fazer com que os dois fique entrevado. Senhor do Bonfim  meu santo.
  Foi at onde estava o quadro do santo. Fez a promessa e voltou.
  -- Guarda teu dinheiro. Tu ganhou direito.
  O Gato repetiu:
  -- Senta aqui.
  Desta vez ela sentou, ele a pegou e a derrubou na cama. Depois que ela gemeu com o amor e com os tabefes que ele lhe deu, murmurou:
  -- O frangote parece um homem...

  (p. 38)

  Ele se levantou, endireitou as calas, foi at onde estava o retrato do flautista Gasto e o rasgou.
  -- Vou tirar um retrato pra tu botar ai.
  A mulher riu e disse:
  -- Vem, bichinho bom. Que malandro no vai sair dai! Vou te ensinar tanta coisa, meu cachorrinho.
  Fechou a porta do quarto. O Gato tirou a roupa.
  Por isso o Gato sai toda meia-noite e no dorme no trapiche. S volta pela manh para ir com os outros para as aventuras do dia.
  O Sem-Pernas se aproximou e pilheriou:
  -- Agora tu vai mostrar o anel, no ?
  -- Tu no tem nada com isso -- o Gato fumava um cigarro. -- Tu quer vir pra ver se topa alguma mulher que te queira assim coxo?
  -- No vou em casa de couros. Sei onde tem coisas que valha a pena.
  Mas o Gato no estava disposto a conversar e o Sem-Pernas continuou a sua peregrinao atravs do trapiche.
  O Sem-Pernas encostou-se junto a uma parede e deixou que o tempo passasse. Viu o Gato sair por volta das onze e meia. Sorriu porque ele havia lavado a cara, posto
brilhantina no cabelo e ia marchando com aquele passo gingado que caracteriza os malandros e os martimos. Depois o Sem-Pernas ficou muito tempo olhando as crianas
que dormiam. Ali estavam mais ou menos cinqenta crianas, sem pai, sem me, sem mestre. Tinham de si apenas a liberdade de correr as ruas. Levavam vida nem sempre
fcil, arranjando o que comer e o que vestir, ora carregando uma mala, ora furtando carteiras e chapus, ora ameaando homens, por vezes pedindo esmola. E o grupo
era de mais de cem crianas, pois muitas outras no dormiam no trapiche. Se espalhavam nas portas dos arranha-cus, nas pontes, nos barcos virados na areia do Porto
da Lenha. Nenhuma delas reclamava. Por vezes morria um de molstia que ningum sabia tratar, Quando calhava vir o padre Jos Pedro, ou a me-de-santo Don'Aninha
ou tambm o Querido-de-Deus, o doente tinha algum remdio. Nunca, porm, era como um menino que tem sua casa. O Sem-Pernas ficava pensando. E achava que a alegria
daquela liberdade era pouca para a desgraa daquela vida.

  (p. 39)

  Voltou-se porque ouviu movimento. Algum se levantava no meio do casaro. O Sem-Pernas reconheceu o negrinho Barando, que se dirigia de manso para o areal de
fora do trapiche. O Sem-Pernas pensou que ele ia esconder qualquer coisa que furtara e no queria mostrar aos companheiros. E aquilo era um crime contra as Leis do
bando. O Sem-Pernas seguiu Barando, atravessando entre os que dormiam. O negrinho j tinha transposto a porta do trapiche e dava a volta no prdio para o lado esquerdo.
Em cima era o cu de estrelas.
  Barando agora caminhava apressadamente. O Sem-Pernas notou que ele se dirigia para o outro extremo do trapiche, onde a areia era mais fina ainda. Foi ento pelo
outro lado e chegou a tempo de ver Barando que se encontrava com um vulto. Logo o reconheceu: era Almiro, um do grupo, de doze anos, gordo e preguioso. Deitaram-se
juntos, o negro acariciando Almiro. O Sem-Pernas chegou a ouvir palavras. Um dizia: meu filhinho, meu filhinho. O Sem-Pernas recuou e a sua angstia cresceu. Todos
procuravam um carinho, qualquer coisa fora daquela vida: o Professor naqueles livros que lia a noite toda, o Gato na cama de uma mulher da vida que lhe dava dinheiro,
Pirulito na orao que o transfigurava, Barando e Almiro no amor na areia do cais. O Sem-Pernas sentia que uma angstia o tomava e que era impossvel dormir. Se
dormisse viriam os maus sonhos da cadeia. Queria que aparecesse algum a quem ele pudesse torturar com dichotes. Queria uma briga. Pensou em ir acender um fsforo
na perna de um que dormisse. Mas quando olhou da porta do trapiche, sentiu somente pena e uma doida vontade de fugir. E saiu correndo pelo areal, correndo sem fito,
fugindo da sua angstia.
  Pedro Bala acordou com um rudo perto de si. Dormia de bruos e olhou por baixo dos braos. Viu que um menino se levantava e se aproximava cautelosamente do canto
de Pirulito. Pedro Bala, no meio do sono em que estava, pensou, a princpio, que se tratasse de um caso de pederastia. E ficou atento para expulsar o passivo do
grupo, pois uma das leis do grupo era que no admitiriam pederastas passivos. Mas acordou completamente e logo recordou que era impossvel, pois Pirulito no era
destas coisas. Devia se tratar de furto. Realmente o garoto j abria o ba de Pirulito. Pedro Bala se atirou em cima dele.

  (p. 40)

  A luta foi rpida. Pirulito acordou, mas os demais dormiam.
  --        Tu t roubando um companheiro?
  O        outro ficou calado, coando o queixo ferido. Pedro Bala continuou:
  -- Amanh tu vai embora... No quero mais tu com a gente. Vai ficar com a gente de Ezequiel, que vive roubando uns dos outros.
  --        Eu s queria era ver...
  --        Que era que tu vinha ver com as mos?
  -- Juro que era s para ver aquela medalha que ele tem.
  --        Desembucha esta histria direito seno leva porrada.
  Pirulito se meteu:
  --        Deixa ele, Pedro.Era bem capaz de querer ver mesmo a medalha.  uma medalha que o padre Jos Pedro me deu.
  --         isso mesmo -- disse o menino--, eu s queria ver. Juro -- mas tremia de medo. Sabia que a vida de um expulso dos Capites da Areia ficava difcil.
Ou entrava para o grupo de Ezequiel, que vivi todo dia na cadeia, ou acabava no reformatrio.
  Pirulito intercedeu de novo e Pedro Bala voltou para perto do Professor. Ento o menino disse com a voz ainda tremendo:
  --        Vou contar pra voc saber. Foi uma menina que eu vi hoje. Tava na Cidade de Palha. Eu tinha entrado na casa com idia de abafar um palet, quando ela
veio e ficou perguntando o que eu queria. A topamos a conversar. Eu disse que amanh ia levar um presente pra ela. Porque foi boa, boa assim comigo, sabe? -- e
agora gritava parecia que tinha raiva.
  Pirulito tomou a medalha que o padre lhe dera, ficou mirando. De repente estendeu para o menino:
  --        Tome. D a ela. Mas no conte a Pedro Bala.

  (p. 41)

  Volta Seca entrou no trapiche quando a madrugada j ia alta. O cabelo de mulato sertanejo estava revolto. Calava alpercatas como quando viera da caatinga. O seu
rosto sombrio se projetou dentro do casaro. Passou por cima do corpo do negro Joo Grande. Cuspiu adiante, passou o p em cima. Apertado no brao trazia um jornal.
Olhou todo o salo procurando algum. Segurou o jornal com as mos grandes e calosas logo que distinguiu onde estava Professor. E sem se importar da hora tardia
se dirigiu para l e comeou a cham-lo:
  -- Professor... Professor...
  -- O que ? -- Professor estava semi-adormecido.
  -- Eu quero uma coisa.
  Professor sentou-se. O rosto sombrio de Volta Seca estava meio invisvel na escurido.
  --  tu, Volta Seca? Que  que tu quer?
  -- Quero que tu leia pra eu ouvir essa notcia de Lampio que o Dirio traz. Tem um retrato.
  -- Deixa pra amanh que eu leio.
  -- L hoje, que eu amanh te ensino a imitar direitinho um canrio.
  O Professor buscou uma vela, acendeu, comeou a ler a notcia do jornal. Lampio tinha entrado numa vila da Bahia, matara oito soldados, deflorara moas, saqueara
os cofres da Prefeitura. O rosto sombrio de Volta Seca se iluminou. Sua boca apertada se abriu num sorriso. E ainda feliz deixou o Professor, que apagava a vela,
e foi para o seu canto. Levava o jornal para cortar o retrato do grupo de Lampio. Dentro dele ia uma alegria de primavera.

  (p. 42)

  Ponto das Pitangueiras

  Esperavam que o guarda andasse. Este demorou olhando o cu, mirando a rua deserta. O bonde desapareceu na curva. Era o ltimo dos bondes da linha de Brotas naquela
noite. O guarda acendeu um cigarro. Com o vento que fazia, gastou trs fsforos. Depois suspendeu a gola da capa, pois havia um frio mido que o vento trazia das
chcaras onde balouavam mangueiras e sapotizeiros. Os trs meninos esperavam que o guarda andasse para poder atravessar de um lado para o outro da rua e entrar
na travessa sem calamento. O Querido-de-Deus no tinha podido vir. Toda a tarde tinha passado na Porta do Mar esperando o homem que no veio. Se ele tivesse vindo
seria mais fcil, pois com o Querido-de-Deus ele no ia discutir, mesmo porque devia muita coisa ao capoeirista. Mas no tinha vindo, a informao fora errada, e
o Querido-de-Deus j tinha uma viagem acertada para essa noite. Ia a ltaparica. Durante a tarde, num terreninho que havia no findo da Porta do Mar, fizeram treinos
do jogo capoeira. O Gato prometia ser, com algum tempo, um lutador capaz de se pegar com o prprio Querido-de-Deus. Pedro Bala tambm tinha muito jeito. Dos trs
o menos gil era o negro Joo Grande muito bom numa luta onde pudesse empregar sua enorme fora fsica Assim mesmo aprendia o bastante para se livrar de um mais
forte ele. Quando se cansaram passaram para a sala. Pediram quatro pi e o Gato sacou um baralho do bolso das calas. Um velho bar sebento, de canas muito grossas.
O Querido-de-Deus afirmava o homem viria, o camarada que lhe dera a informao era um sujeito seguro. Era negcio para render muito e o Querido-de-Deus preferia
chamar os Capites da Areia, seus amigos, a um dos malandros do cais. Sabia que os Capites da Areia valiam mais que muitos homens e tinham a boca calada. A Porta
do Mar estava quase deserto quela hora. Somente dois marinheiros de um baiano bebiam cerveja ao fundo, conversando, O Gato ps o baralho em cima da mesa e props:
  -- Quem topa uma ronda?
  O Querido-de-Deus pegou no baralho:
  -- T mais que marcado, seu Gato. Um baralhinho bem velho...
  -- Se tu tem outro eu no me importa.
  -- No. Vamos com esse mesmo.
  Comearam o jogo. O Gato descobria duas cartas na mesa, os outros apostavam numa, a banca ficava com a outra. A princpio Pedro Bala e o Querido-de-Deus ganharam.
Joo Grande no estava jogando (conhecia demais o baralho do Gato), s fazia espiar, rindo com seus dentes alvos, quando o Querido-de-Deus dizia que estava com sorte
neste dia porque era o dia de Xang, seu santo. Sabia que a sorte seria s no princpio e que quando o Gato comeasse a ganhar no pararia mais. Certo momento o
Gato comeou a ganhar. Quando ganhou a primeira vez, disse com uma voz meio triste:
  -- Tambm j era tempo. Tava com um peso da me!
  Joo Grande abriu mais seu sorriso, O Gato ganhou de novo.
  Pedro Bala se levantou, recolheu os nqueis que havia ganho. O Gato olhou desconfiado:
  Tu no vai botar nada agora?
  -- Agora no que vou mijar... - e foi para os fundos do bar.
  O Querido-de-Deus ficou perdendo. Joo Grande ria e o capoeirista se afundava. Pedro Bala tinha voltado, mas no jogava. Ria com Joo Grande, O Querido-de-Deus
passou tudo quanto tinha ganho. Joo Grande disse entre dentes:
  -- Vai entrar no capital...
  -- Ainda tou perdendo -- falou o Gato.
  Reparou que Pedro tinha voltado:
  -- Tu no arrisca mais nada? No vai na dama?
  -- Tou cansado de jogar... -- e Pedro Bala piscou para o Gato
  como que dizendo que ele se contentasse com o Querido-de-Deus.

  (p.44)

  O Querido-de-Deus passou cinco mil-ris do capital. S ganhara duas vezes durante as ltimas jogadas e estava meio desconfiado. O  Gato abriu o baralho na mesa.
Puxou um rei e um sete.
  --        Quem vai? -- perguntou.
  Ningum foi. Nem mesmo o Querido-de-Deus, que olhava o ar baralho muito desconfiado. O Gato perguntou:
  --        T pensando que tem treita? Pode espiar. Eu fao jogo limpo...
  Joo Grande soltou uma daquelas suas gargalhadas escandalosas. Pedro Bala e o Querido-de-Deus riram tambm. O Gato olhou para Joo Grande com raiva:
  --        Esse negro  burro como uma porta. Tu no t venda...
  Mas no completou a frase, porque os dois marinheiros baiano, que j miravam o jogo h bastante tempo, se aproximaram. Um deles, o mais baixo, que estava bbado,
falou para o Querido- de-Deus:
  -- Pode-se entrar nesta brincadeira?
  --        A banca  deste moo.
  Os marinheiros olharam desconfiados para o menino. Mas baixo cutucou o outro com o cotovelo e murmurou qualquer coisa ao ouvido. O Gato riu para dentro porque
sabia que ele estava dizendo que seria fcil arrancar o dinheiro daquela criana. Se abancaram os dois e o Querido-de-Deus achou estranho que Pedro Bala se abancasse
tambm. Joo Grande, no entanto, no s no achou estranho se abancou tambm. Ele sabia que era preciso tapear os marinheiros e ento era necessrio que a gente
do grupo perdesse tambm. Os marinheiros, do mesmo modo que tinha acontecido com o Querido-de-Deus, comearam ganhando. Mas durou pouco a aragem da sorte e em breve
s o Gato ganhava dos quatro. Pedro Bala soltava aclamaes:
  --        Esse Gato quando tem sorte  um caso srio...
  --        Tambm, quando d de perder, perde a noite toda -- replicou Joo Grande e esta sua rplica deu grande confiana aos marinheiros (p. 45) sobre a honestidade
do jogo e a possibilidade da sorte virar. E continuaram a jogar e a perder. O baixo s dizia:
  -- A sorte tem de virar...
  O outro, que tinha um bigodinho, jogava calado e cada vez apostava mais alto. Tambm Pedro Bala subia o valor das suas apostas. Certa hora o de bigodinho virou
pro Gato:
  -- A banca topa cinco mil?
  O Gato coou o cabelo cheio de brilhantina barata, aparentando uma indeciso que os companheiros sabiam que no possua.
  V l. Topo. S pra dar meio de voc livrar teu prejuzo.
  O de bigodinho apostou cinco mil. O baixo foi com trs mil-ris. Foram ambos num s contra um valete da banca. Pedro Bala e Joo Grande foram no s tambm. O Gato
comeou a virar as cartas. A primeira era um nove. O baixo batia com os dedos, o outro puxava o bigodinho. Veio em seguida um dois e o baixo disse:
  -- Agora  o s. Dois, depois um... -- e batia com os dedos.
  Mas veio um sete e depois um dez e ento veio um valete. O Gato arrastou a mesa, enquanto Pedro Bala fazia uma cara de grande aborrecimento e dizia:
  -- Amanh, quando o peso te pegar, tu vai ver que te arraso.
  O baixo confessou que estava limpo. O de bigodinho meteu as mos nos bolsos:
  -- Tou s com os nqueis pra pagar a cerveja. O garoto  um brao.
  Se levantaram, cumprimentaram o grupo, pagaram a cerveja que tinham bebido na outra mesa. O Gato os convidou a voltarem no outro dia. O baixo respondeu que o navio
deles saa aquela noite para Caravelas. S quando voltasse. E se foram, de brao dado, comentando a pouca sorte.
  O Gato contou o lucro. Sem
juntar o dinheiro que Pedro Bala e Joo Grande haviam perdido, existia um lucro de trinta e oito mil-ris. O Gato devolveu o dinheiro de Pedro Bala, depois o de
Joo Grande, ficou um minuto pensando. Meteu a mo no bolso, tirou os cinco mil ris que o Querido-de-Deus havia perdido anteriormente:

  (p. 46)

  -- Toma, batuta. Tinha trapaa, eu no quero embolsar teu cobre...
  O Querido-de-Deus beijou a nota com satisfao, bateu a mo nas costas do Gato:
  -- Tu vai longe, menino. Tu pode enricar com essas treitas.
  Mas j o sol se punha e o homem no vinha. Eles pediram outra pinga. Com o cair da tarde o vento que vinha do mar aumentou. O Querido-de-Deus comeava a ficar
impaciente. Fumava cigarro sobre cigarro. Pedro Bala espiava para a porta. O Gato dividiu os trinta e oito mil-ris pelos trs. Joo Grande perguntou:
  -- Como teria ido o Sem-Pernas com o abafa de chapus?
  Ningum respondeu. Esperavam o homem e agora tinham a impresso que ele no viria. A informao tinha sido errada. No ouviam sequer a cano que vinha do mar.
A Porta do Mar estava deserta e seu Felipe quase dormia no balco. No tardaria, no entanto, a estar cheia, e ento todo acerto seria impossvel com o homem. Ele
no haveria de querer conversar ali com o salo cheio. Poderiam conhec-lo, e ele no queria isto. Tampouco o queriam os Capites da Areia. Em verdade, o Gato no
sabia de que se tratava. E pouco mais sabiam Pedro Bala e Joo Grande. Sabiam quanto sabia o Querido-de-Deus, a quem o negcio tinha sido proposto e que o tinha aceito
para Pedro Bala e os Capites da Areia. No entanto, ele mesmo tinha apenas vagas informaes e iam saber de tudo pelo homem que marcara uma entrevista  tarde na
Porta do Mar. Mas at as seis horas no chegou. Em lugar dele chegou o tal que tinha falado ao Queridos de-Deus. Chegou na hora em que o grupo ia sair. Explicou
que homem no tinha podido vir. Mas que esperava o Querido-de-Deus  noite, na rua em que morava. Viria por volta de uma da madrugada O Querido-de-Deus declarou
que no podia ir, mas que entregava o assunto aos Capites da Areia. O intermedirio mirou os meninos, desconfiado. O Querido-de-Deus perguntou:
  -- Nunca ouviu falar nos Capites da Areia?
  -- J, sim. Mas...
  -- De qualquer jeito quem ia tratar do negcio era eles. Da...
  O intermedirio pareceu se conformar. Combinaram para a uma da manh e se separaram. O Querido-de-Deus foi para seu barco, os (p. 47) Capites da Areia para o trapiche,
o intermedirio desapareceu no cais.
  O Sem-Pernas no havia ainda voltado. No havia ningum no trapiche. Deviam estar todos espalhados pelas ruas da cidade, cavando o jantar. Os trs saram novamente
e foram comer num restaurante barato que havia no mercado. Na sada do trapiche, o Gato, que estava muito alegre com o resultado do jogo, quis passar uma rasteira
em Pedro Bala. Mas este livrou o corpo e derrubou o Gato:
  -- Tou treinado nisso, besto.
  Entraram no restaurante fazendo barulho. Um velho, que era o garom, se aproximou com desconfiana. Sabia que os Capites da Areia no gostavam de pagar e que
aquele de talho na cara era o mais temvel de todos. Apesar de haver bastante gente no restaurante, o velho disse:
  -- Acabou tudo. No tem mais bia.
  Pedro Bala replicou:
  -- Deixa de conversa fiada, meu tio. Ns quer comer.
  Joo Grande bateu a mo na mesa:
  -- Seno a gente vira esse frege-mosca de cabea pra baixo.
  O velho ficava indeciso. Ento o Gato bateu o dinheiro em cima da mesa:
  -- Hoje ns vai fazer gasto.
  Foi um argumento suficiente. O garom comeou a trazer os pratos: um prato de sarapatel e depois uma feijoada. Quem pagou foi o Gato. Depois Pedro Bala props
que fossem andando at Brotas, pois j que iam a p tinham muito que caminhar.
  -- No vale a pena tomar a taioba -- disse Pedro Bala. --  melhor que ningum saiba que a gente foi pra l.
  O Gato ento disse que chegaria depois e os encontraria l. Tinha uma coisa que fazer antes. Ia avisar a Dalva para que no o esperasse essa noite.
  E agora estavam ali, no Ponto das Pitangueiras, esperando que o guarda se alistasse. Escondidos no vo de um portal, no falavam. Ouviam o vo dos morcegos que
atacavam os sapotis maduros nos ps. Finalmente, o guarda andou, eles ficaram espiando at que a sua figura (p. 48) desapareceu na curva que a rua fazia. Ento atravessaram
e entraram na alameda das chcaras e novamente se esconderam num portal. O homem no tardou muito. Saltou de um automvel na esquina, pagou a corrida e veio subindo
a alameda. Tudo o que se ouvia eram os seus passos e o rumor das folhas que o vento balanava nas rvores. Quando o homem vinha prximo, Pedro Bala saiu do portal.
Os outros vieram logo depois e como que o guardavam, pareciam dois guarda-costas. O homem se aproximou mais do muro junto ao qual vinha andando. Pedro caminhava
para ele. Quando estava defronte, parou:
  -- Pode me dar o fogo, senhor? -- levava na mo um cigarro apagado.
  O homem no disse nada. Sacou a caixa de fsforos, estendeu ao  menino. Pedro riscou um e, enquanto acendia o cigarro, olhou para o homem. Depois, ao entregar
a caixa de fsforos, perguntou:
  --  o senhor que se chama Joel?
  -- Porqu? -- quis saber o homem.
  -- Foi o Querido-de-Deus que nos mandou.
  Joo Grande e o Gato se aproximavam. O homem mirou os trs com espanto:
  -- Porm so uns meninos! Isso no  negcio para
  -- Diga o que , a gente sabe fazer o trabalho direito -- retrucou Pedro Bala, quando os outros dois tinham se aproximado.
  -- Mas se um negcio que talvez nem homens... -- e o homem ps a mo na boca, como quem teme ter dito mais do que convinha.
  -- Ns sabe guardar um segredo to bem como um cofre. E Capites da Areia sempre faz os servios bem feito...
  -- Os Capites da Areia? Esse grupo de que falam os jornais? meninos abandonados? So vocs?
  --  a gente, sim. E dos que manda.
  O homem parecia refletir. Enfim se decidiu:
  -- Eu preferia entregar esse negcio a homens. Mas como tem que ser esta noite mesmo... O jeito...
  -- Vai ver como a gente sabe trabalhar. No fique assustado.

 (p. 49)

  -- Venham comigo. Mas deixem que eu v na frente. Vocs iro uns passos atrs de mim.
  Os meninos obedeceram. Num porto o homem parou, abriu, ficou esperando. Veio de dentro um grande co que lhe lambia as mos. O homem fez os trs entrarem, atravessaram
uma rua de rvores, o homem abriu a porta da casa. Entraram para uma saleta, o homem ps a capa e o chapu numa cadeira e sentou-se. Os trs estavam de p. O homem
fez sinal para que sentassem e primeiro eles miraram desconfiados as largas e cmodas poltronas. Isso Pedro Bala e Joo Grande, porque o Gato j estava se sentando
muito a gosto, numa atitude displicente. A outro sinal do homem, Pedro e o Grande se sentaram, sendo que Joo Grande ficou sentado apenas na ponta da cadeira, como
se temesse suj-la. O homem tinha um ar de riso. De repente levantou-se e falou, mirando a Pedro, em quem reconhecera o chefe:
  -- O que vocs vo fazer  difcil e ao mesmo tempo  fcil. Agora o que tem  que  uma coisa que necessita que ningum saiba.
  -- No passa daqui -- disse Pedro Bala.
  O homem puxou o relgio do bolso:
  So uma e um quarto. Ele s volta s duas e meia... --olhava os Capites da Areia ainda com indeciso.
  -- Ento no  muito tempo -- falou Pedro. -- Se quer que a gente v,  bom desembuchar logo...
  O homem se decidiu:
  -- Duas ruas adiante desta.  a penltima chcara  direita. Tem que evitar um cachorro que j deve estar solto. E bravo.
  Joo Grande interrompeu:
  -- O senhor tem ai um pedao de carne?
  -- Pra qu?
  Pro cachorro. Um pedao chega.
  Verei j -- olhava os meninos. Parecia perguntar a si mesmo se devia confiar neles. -- Vocs entram pelos fundos. Junto da cozinha, na parte de fora da casa, tem
um quarto por cima da garagem.  o do empregado, que agora deve estar dentro de casa esperando o (p. 50) patro.  no quarto dele que vocs vo entrar. Devem procurar
um embrulho igual a este, igualzinho...
  Foi ao bolso da capa, trouxe um pequeno pacote amarrado com uma fita cor-de-rosa.
  --  igualzinho. No sei se ainda estar no quarto.Tambm pode ser que o empregado o tenha no bolso. Se assim for, nada mais se pode fazer -- e um desespero repentino
pareceu tom-lo. -- Se eu tivesse podido ir esta tarde... Ento, com certeza, ainda estaria no quarto.  Mas agora quem sabe? -- e cobriu o rosto com as mos.
  -- Mesmo que esteja com o empregado se pode trazer... -- disse Pedro.
  -- No.  essencial que ningum saiba que houve furto deste embrulho. O que vocs vo fazer  trocar os embrulhos, se o outro estiver no quarto.
  -- E se estiver com o empregado?
  -- Ento... -- e a fisionomia do homem novamente se alterou. Joo Grande pensou ouvir um nome que soava como Elisa. Mas talvez fosse iluso de Joo Grande, que
por vezes ouvia e via coisas que ningum percebia. O negro era muito mentiroso.
  -- Ento a gente troca os embrulhos do mesmo jeito. Pode ficar descansado. O senhor no conhece os Capites da Areia.
  Apesar do seu desespero, o homem sorriu da bravata de Pedro Bala:
  -- Ento podem ir. Depois, tem que ser antes de duas horas, voltem aqui. Mas s quando a rua estiver deserta. Eu os esperarei. Acertaremos nossas contas ento.
Mas quero dizer outra coisa lealmente. Se vocs forem percebidos e presos, no me envolvam no caso Nada farei por vocs, porque meu nome no pode aparecer nisso
tudo. Tratem de dar fim a este embrulho e no me chamem para nada.  ganhar ou perder...
  -- Neste caso -- replicou Pedro Bala --  preciso marcar o preo. Quanto o senhor paga  gente?
  -- Dou 100$. Trinta para cada e mais 10$ para voc -- apontou para Pedro.

  (p. 51)

  O Gato se mexeu na cadeira. Pedro fez sinal para que ele se calasse.
  -- O senhor d cinqenta a cada e parece que ainda vai fazer negcio. So 150 bicos pros trs. Seno, no tem embrulho.
  O homem no vacilou muito. Olhava o relgio, onde os ponteiros corriam:
  -- Est bem.
  A o Gato falou:
  -- No  que a gente desconfie do senhor. Mas a coisa pode sair pelo avesso e o senhor mesmo disse que no se importaria com o que acontecesse  gente.
  -- E da?
  -- repetiu tambm o homem. Tirou uma carteira do ou uma nota de cem mil-ris. Entregou a Pedro.
  --  justo que o senhor nos passe logo algum.
  Joo Grande apoiava o Gato com um gesto de cabea. Pedro Bala repetiu as ltimas palavras do outro:
  --  justo, sim. Se depois a gente no pode lhe recorrer...
  -- Agora toca a andar. Se faz tarde.
  Saram. Pedro Bala disse:
  -- Pode ficar descansado. Daqui a uma hora a gente volta com o embrulho.
  Em frente da casa (a rua estava completamente deserta, numa janela da casa havia luz e eles viam a sombra de uma mulher que andava de um lado para outro) o Grande
bateu na testa:
  -- Me esqueci da carne pro cachorro.
  Pedro Bala estava olhando a janela com luz, se voltou:
  No tem nada. Isso me cheira a coisa de amigamento. O sujeito aquele derrubava a zinha daqui e agora o empregado tem as cartas que os dois se escrevia e quer dar
o alarme. Esse pacote t com perfume.  que o outro h de ter.

  (p. 52)

  Fez sinal para os dois esperarem do outro lado da rua, chegou para perto do porto da casa. Logo que se encostou, um grande co se aproximou latindo. Pedro Bala
amarrou um cordel no ferrolho do porto, enquanto o co andava de um lado para outro, latindo baixo.
  Depois chamou os outros dois:
  -- Tu -- apontou pro Gato -- fica aqui na rua pra dar o alarme se vem algum. Tu, Grande, entra comigo.
  Treparam na gradezinha do muro. Pedro Bala puxou com o
cordo o ferrolho e o porto abriu. O Gato tinha ido para a esquina
  O co ao ver o porto aberto se precipitou para a rua, ficou remexendo
uma lata de lixo. Pedro Bala e Joo Grande pularam o muro, cerraram
o porto para que o cachorro no pudesse entrar, se adiantaram entre
as rvores. Na janela iluminada da casa o vulto de mulher continuava
a andar. Joo Grande disse baixinho:
  -- Tenho pena dela.
  -- Quem manda deitar com outros...
  Perto da casa o negro ficou para transmitir o aviso do Gato se viesse algum. Tinham assovios especiais para estes casos. Pedro Bala rodeou a casa, chegou  cozinha.
A porta estava aberta, como tambm a do quarto sobre a garagem. Porm, antes de subir a escada que dava para o quarto, Pedro espiou pela porta da cozinha. Na copa
havia luz e um homem jogava pacincia.Deve ser o tal empregado, pensou Pedro e rpido se afastou para a escada da garagem. Subiu de quatro, entrou no quarto do homem.
No havia luz. Pedro fechou a porta, acendeu um fsforo. Havia apenas uma cama, um ba e um cabide na parede. O fsforo se apagou, mas Pedro j estava em cima da
cama, que co toda com as mos. Depois viu embaixo do colcho. Tampouco nada. Desceu ento da cama, se aproximou, sem fazer rudo, do ba. Suspendeu a tampa, acendeu
um fsforo que prendeu nos dentes. Remexeu a roupa com cuidado, no havia nada. Cuspiu o fsforo (depois se lembrou que o homem podia no fumar e ento o recolheu
ao bolso) e foi at o cabide. Nada nos bolsos da roupa ali dependurada Pedro Bala acendeu outro fsforo, mirou todo o quarto:
  -- Com certeza est com o homem. Agora  que vo ser elas.
  Abriu a porta do quarto, desceu as escadas. Chegou na porta da cozinha, o homem ainda estava sentado. Ento Pedro Bala reparou (p. 53)
  que ele estava sentado em cima do embrulho. Aparecia uma ponta sob a perna do homem. Pedro pensou que tudo estava perdido. Como iria ele tirar o embrulho de baixo
da perna do homem? Saiu da porta da cozinha, foi andando para onde estava o Grande. S se ele e o Grande atacassem o homem. Mas a haveria gritaria, todo mundo saberia
do roubo. E o senhor que os tinha empregado no queria saber disso. De repente teve uma idia. Chegou perto de onde tinha deixado o Grande, assoviou baixinho. Joo
Grande apareceu logo. Pedro falou em voz muito baixa:
  -- Olha, Grande, o tal empregado t sentado em riba do embrulho. Tu vai chegar na porta da rua, apertar a campainha e sumir depois.  pro homem se levantar e eu
abafar o embrulho. Mas d o sute logo pro homem no te ver, pensar que foi sonho. Deixa passar o tempo de eu chegar na cozinha.
  Voltou rpido para a porta da cozinha. Dai a um minuto a campainha soou. O empregado levantou-se s pressas, abotoou o palet e se dirigiu para a frente da casa
pelo corredor, onde acendeu uma luz. Pedro Bala penetrou na copa, trocou os pacotes e abriu para os lados da chcara. Saltou o muro, assoviou para o Gato e Joo
Grande. O Gato veio logo. Mas Joo Grande no apareceu. Andaram de um lado para outro e o negro no chegava. Pedro comeava a ficar impaciente pensando que o empregado
podia ter surpreendido Joo Grande e agora estar atracado com ele. Mas quando ele passara por aqueles lados no havia escutado nenhum rudo... Disse:
  --        Se ele demorar, a gente entra.
  Assoviaram novamente, no tiveram resposta. Pedro Bala resolveu:
  -- Vamos entrar de novo...
  Mas ouviram o assovio de Joo Grande, que no tardou a estar ao lado deles. Pedro perguntou:
  --        Onde tu te meteu?
  O        Gato tinha pegado o cachorro pela coleira e o punha para dentro do porto. Tiraram o cordel do ferrolho e desapareceram pelo outro lado da rua. A o Grande
aplicou:
  --        Na hora que meti o dedo na campainha entonce a dama l em cima ficou muito assustada. Pegou, abriu a janela, parecia que ia se (p. 54) atirar mesmo.
Espiava que fazia medo. Tava mesmo chorando. Entonces eu tava com pena e trepei pela bica pra dizer a ela que no chorasse mais, que no tinha mais de qu. Que a
gente tinha abafado os papis. E como tive que aplicar tudo a ela, tive que demorar...
  O Gato perguntou muito curioso:
  -- Era boa, era?
  -- Era boa, sim. Passou a mo na minha cabea, depois me disse que muito obrigado, que Deus ia me ajudar.
  -- Deixa de ser burro, negro. Eu tava perguntando se era boa mas pra cama. Se tu viu o coxame...
  O negro no respondeu. Um automvel entrava pela rua. Pedro Bala bateu no ombro do negro e Joo Grande sabia que o chefe estava aprovando o que ele fizera. Ento
seu rosto se abriu de satisfao e murmurou:
  -- Eu s queria ver acara do galego quando o patro abrir o pacote no encontrar o que esperavam.
  E, j em outra rua, os trs soltaram a larga, livre e ruidosa. gargalhada dos Capites da Areia, que era como um hino do povo da Bahia.

  As luzes do carrossel

  O Grande Japons no era seno um pequeno carrossel nacional, que vinha de uma triste peregrinao pelas paradas cidades do interior naqueles meses de inverno,
quando as chuvas so longas e o Natal est muito distante ainda. De to desbotada que (p. 55)estava a tinta, tinta que antigamente fora azul e vermelha e agora o
azul era um branco sujo e o vermelho um quase cor-de-rosa, e de tantos pedaos que faltavam em certos cavalos e em certos bancos, Nhozinho Frana resolveu no arm-lo
numa das praas centrais da cidade e sim em Itapagipe. Ali as famlias no so to ricas, h muitas ruas s de operrios e as crianas pobres saberiam gostar do
velho carrossel desbotado. O pano tinha muitos buracos tambm, alm de um rasgo enorme que fazia o carrossel depender da chuva. J fora belo, fora mesmo o orgulho
da meninada de Macei noutros tempos. Ficava ento ao lado de uma roda-gigante e de uma sombrinha, sempre na mesma praa, e nos domingos e feriados as crianas ricas,
vestidas de marinheiro ou de pequeno lorde ingls, as meninas de holandesa ou de finos vestidos de seda, vinham se aboletar nos cavalos preferidos, indo os menores
nos bancos com as aias. Os pais iam para a roda-gigante, outros preferiam a sombrinha onde podiam empurrar as mulheres, tocando muitas vezes nas coxas e nas ndegas.
O parque de Nhozinho Frana era naquele tempo a alegria da cidade. E, mais que tudo, o carrossel dava dinheiro, rodando incansavelmente com as suas luzes de todas
as cores. Nhozinho achava a vida boa, as mulheres belas, os homens amveis para com ele, mas achava que a bebida era boa tambm, fazia os homens mais amveis e as
mulheres mais belas. E bebeu assim primeiro a sombrinha, depois a roda-gigante. Depois, como no queria se separar do carrossel, ao qual tinha um pegadio especial,
o desarmou uma noite com o auxlio de amigos e comeou a peregrinar nas cidades de Alagoas e Sergipe. Enquanto isto, os credores o xingavam de quanto nome feio conheciam.
Andou muito
  Nhozinho Frana com o seu carrossel. Depois de percorrer todas as
cidadezinhas dos dois estados, de se embriagar em todos os seus
bares, penetrou no estado da Bahia e at para o bando de Lampio
e l deu uma funo. Estava numa pobre vila do serto e no lhe faltava
o dinheiro apenas para o transporte do seu carrossel. Faltava para o
miservel hotel onde se hospedara e que era o nico da vila, e tambm o trago de pinga, para a cerveja, que no era gelada ali, assim        mesmo ele gostava. O
carrossel armado no capim da praa da Matriz estava parado fazia uma semana. Nhozinho Frana esperava a noite de sbado e a tarde de domingo para ver se fazia algum
cobre para arribar para um lugar melhor. Mas na sexta-feira Lampio entrou na vila com vinte e dois homens e ento o carrossel teve muito que trabalhar. (p. 56)
Como as crianas, os grandes cangaceiros, homens que tinham vinte e trinta mortes, acharam belo o carrossel, acharam que mirar suas luze rodando, ouvir a msica
velhssima da sua pianola e montar naqueles estropiados cavalos de pau era a maior felicidade. E o carrossel de Nhozinho Frana salvou a pequena vila de ser saqueada,
as moas de serem defloradas, os homens de serem mortos. S mesmo os dois soldados da polcia baiana que lustravam as botas na frente do posto  policial foram fuzilados
pelos cangaceiros, assim mesmo antes que eles vissem o carrossel armado na praa da Matriz. Porque talvez at aos soldados da polcia baiana Lampio perdoasse nessa
noite de suprema felicidade para o bando de cangaceiros. Ento eles foram como crianas, gozaram daquela felicidade que nunca haviam gozado na sua meninice de filhos
de camponeses: montar e rodar num cavalo de madeira de um carrossel, onde havia msica de uma pianola e onde as luzes eram de todas as cores: azuis, verdes, amarelas,
roxas vermelhas como o sangue que sai do corpo dos assassinados.
  Isso mesmo contou Nhozinho a Volta Seca (que ficou excitadssimo) e ao Sem-Pernas naquela tarde em que os encontrou na Porta do Mar e os convidou para que o ajudassem
no servio de carrossel durante os dias que estivesse armado na Bahia, em Itapagipe. No podia marcar ordenado, mas talvez desse para tirar cada um uns cinco mil-ris
por noite. E quando Volta Seca mostrou suas habilidades em imitar animais os mais vrios, Nhozinho Frana se entusiasmou por completo, mandou baixar mais uma garrafa
de cerveja declarou que Volta Seca ficaria na porta chamando o pblico, enquanto o Sem-Pernas o ajudaria com as mquinas e tomaria conta dapianola. Ele mesmo venderia
as entradas enquanto o carrossel estivesse parado. Quando estivesse rodando, Volta Seca o faria. E de quando em vez, disse piscando o olho, um sai pra tomar uma
pinga enquanto o outro faz o servio de dois.
  Volta Seca e o Sem-Pernas nunca haviam acolhido uma com tanto entusiasmo. Eles muitas vezes j tinham visto um carrossel mas quase sempre ouviam de longe, cercado
de mistrio, cavalgados seus rpidos ginetes por meninos ricos e choraminguentos. O Sem Pernas j tinha mesmo (certo dia em que penetrou num Parque de Diverses armado
no Passeio Pblico) chegado a comprar entrada para um, mas o guarda o expulsou do recinto porque ele estava vestido (p. 57) de farrapos. Depois o bilheteiro no
quis lhe devolver o bilhete da entrada, o que fez com que o Sem-Pernas metesse as mos na gaveta da bilheteria, que estava aberta, abafasse o troco, e tivesse que
desaparecer do Passeio Pblico de uma maneira muito rpida, enquanto em todo o Parque se ouviam os gritos de: Ladro!, ladro! Houve uma tremenda confuso, enquanto
o Sem-Pernas descia muito calmamente a Gamboa de Cima, levando nos bolsos pelo menos cinco vezes o que tinha pago pela entrada. Mas o Sem-Pernas preferiria, sem
dvida, ter rodado no carrossel, montado naquele fantstico cavalo de cabea de drago, que era sem dvida a coisa mais estranha e tentadora na maravilha que era
o carrossel para os seus olhos. Criou ainda mais dio aos guardas e maior amor aos carrossis distantes. E agora, de repente, vinha um homem que pagava cerveja e
fazia o milagre de o chamar para viver uns dias junto a um verdadeiro carrossel, movendo com ele, montando nos seus cavalos, vendo de perto rodarem as luzes de todas
as cores. E para o Sem-Pernas, Nhozinho Frana no era o bbado que estava em sua frente na pobre mesa da Porta do Mar. Para seus olhos era um ser extraordinrio,
algo como Deus, para quem rezava Pirulito, algo como Xang, que era o santo de Joo Grande e do Querido-de-Deus. Porque nem o padre Jos Pedro e nem mesmo a me-de-santo
Don'Aninha seriam capazes de realizar aquele milagre. Nas noites da Bahia, numa praa de Itapagipe, as luzes do carrossel girariam loucamente movimentadas pelo Sem-Pernas.
Era como num sonho, sonho muito diverso dos que o Sem-Pernas costumava ter nas suas noites angustiosas. E pela primeira vez seus olhos sentiram-se midos de lgrimas
que no eram causadas pela dor ou pela raiva. E seus olhos midos miravam Nhozinho Frana como a um dolo. Por ele at a garganta de um homem o Sem-Pernas abriria
com a navalha que traz entre a cala e o velho colete preto que lhe serve de palet.
  --  uma beleza -- disse Pedro Bala olhando o velho carrossel armado. E Joo Grande abria os olhos para ver melhor. Penduradas estavam as lmpadas azuis, verdes,
amarelas, roxas, vermelhas.

  (p. 58)

   velho e desbotado o carrossel de Nhozinho Frana. Mas tem a sua beleza. Talvez esteja nas lmpadas, ou na msica da pianola (velhas valsas de perdido tempo),
ou talvez nos ginetes de pau. Entre eles tem um pato que  para sentar dentro os mais pequenos.. Tem a sua beleza, sim, porque a opinio unnime dos Capites da
Areia  que ele  maravilhoso. Que importa que seja velho, roto e de cores apagadas se agrada s crianas?
  Foi uma surpresa quase incrvel quando naquela noite o Sem-Pernas chegou ao trapiche dizendo que ele e Volta Seca iam trabalhar uns dias num carrossel. Muitos
no acreditaram, pensaram que fosse mais uma pilhria do Sem-Pernas. Ento iam perguntar a Volta Seca que, como sempre, estava metido no seu canto sem falar, examinando
um revlver que furtara numa casa de armas. Volta Seca fazia que sim com a cabea e por vezes dizia:
  -- Lampio j rodou nele, Lampio  meu padrinho...
  O Sem-Pernas convidou a todos para irem ver o carrossel na outra noite, quando o acabariam de armar. E saiu para encontrar Nhozinho --Frana. Naquele momento todos
os pequenos coraes que pulsavam no trapiche invejaram a suprema felicidade do Sem-Pernas, mesmo Pirulito, que tinha quadros de santos na sua parede,
mesmo Joo Grande, que nessa noite iria com o Querido-de-Deus ao candombl de Procpio, no Matatu, at mesmo o Professor, que lia livros, e quem sabe se tambm Pedro
Bala, que nunca tivera inveja de nenhum porque era o chefe de todos? Todos o invejaram, sim. Como invejaram Volta Seca, que no seu canto, o cabelo mestio e despenteado,
os olhos apertados e a boca rasgada naquele rictus raiva, apontava o revlver ora para um dos meninos, ora para um todos que passava, ora para as estrelas, que eram
muitas no cu.
  Na outra noite foram todos com o Sem-Pernas e Volta Seca que tinham passado o dia fora, ajudando Nhozinho a armar o carrossel) ver o carrossel armado. E estavam
parados diante dele, extasiados da beleza, as bocas abertas de admirao. O Sem-Pernas mostrava, enquantu Volta Seca levava um por um para mostrar o cavalo que tinha sido cavalgado
por seu padrinho Virgulino Ferreira Lampio. Eram quase cem crianas olhando o velho carrossel de Nhozinho Frana, que a estas horas estava encornado num pifo tremendo
na Porta do Mar.

  (p. 59)

  O        Sem-Pernas mostrou a mquina (um pequeno motor que falhava muito) com um orgulho de proprietrio. Volta Seca no se desprendia do cavalo onde rodara Lampio.
O Sem-Pernas estava muito cuidadoso do carrossel e no deixava que eles o tocassem, que bulissem em nada.
  Foi quando o Professor perguntou:
  -- Tu j sabe mover com as mquinas?
  -- Amanh  que vou saber... -- disse o Sem-Pernas com um certo desgosto. - Amanh seu Nhozinho vai me ensinar.
  -- Ento amanh, quando acabar a funo, tu pode botar ele pra rodar s com a gente. Tu bota as coisas pra andar, a gente se aboleta.
  Pedro Bala apoiou a idia com entusiasmo. Os outros esperavam a resposta do Sem-Pernas ansiosos. O Sem-Pernas disse que sim, e ento muitos bateram palmas, outros
gritaram. Foi quando Volta Seca deixou o cavalo onde montara Lampio e veio para eles:
  -- Quer ver uma coisa bonita?
  Todos queriam. O sertanejo trepou no carrossel, deu corda na pianola e comeou a msica de uma valsa antiga. O rosto sombrio de Volta Seca se abria num sorriso.
Espiava a pianola, espiava os meninos envoltos em alegria. Escutavam religiosamente aquela msica que saa do bojo do carrossel na magia da noite da cidade da Bahia
s para os ouvidos aventureiros e pobres dos Capites da Areia. Todos estavam silenciosos. Um operrio que vinha pela rua, vendo a aglomerao de meninos na praa,
veio para o lado deles. E ficou tambm parado, escutando a velha msica. Ento a luz da lua se estendeu sobre todos, as estrelas brilharam ainda mais no cu, o mar
ficou de todo manso (talvez que Yemanj tivesse vindo tambm ouvir a msica) e a cidade era como que um grande carrossel onde giravam em invisveis cavalos os Capites
da Areia. Neste momento de msica eles sentiram-se donos da cidade. E amaram-se uns aos outros, se sentiram irmos porque eram todos eles sem carinho e sem conforto
e agora tinham o carinho e conforto da msica. Volta Seca no pensava com certeza em Lampio neste momento. Pedro Bala no pensava em ser um dia o chefe de todos
os malandros da cidade. O Sem-Pernas em se jogar no mar, onde os sonhos so todos belos. Porque a msica saa do bojo do (p. 60) velho carrossel s para eles e para
o operrio que parara. E era uma unidade valsa velha e triste, j esquecida por todos os homens da cidade.
  Desemboca gente de todas as ruas.  noite de sbado, amanh os homens no iro para o trabalho. Podem demorar na rua essa noite. Muitos preferiram ir para os bares,
a Porta do Mar est cheia, mas os que tinham filhos vieram com eles para a praa, que  mal iluminada. Em compensao a esto as luzes do carrossel que rodam. As
crianas olham para elas e batem palmas. Em frente  bilheteria Volta Seca imita vozes de animais e chama o pblico. Leva uma cartucheira como se estivesse no serto.
Nhozinho Frana achou que isto chamaria a ateno do povo e Volta Seca parece mesmo um cangaceiro com o chapu de couro e a cartucheira atravessada. E imita animais
at que se renam homens, mulheres e crianas na sua frente. Ento oferece entradas, que as crianas compram. Vai uma alegria por toda a praa. As luzes do carrossel
alegram a todos. No centro, agachado, o Sem-Pernas ajuda Nhozinho Frana a botar o motor para trabalhar. o carrossel gira, carregado de meninos, a pianola toca suas
velhas valsas, Volta Seca vende entradas.
  Na praa, casais de namorados passeiam. Mes de famlia compram picols e sorvetes, um poeta sentado perto do mar faz um poema sobre as luzes do carrossel e a
alegria das crianas. O carrossel ilumina toda a praa e todos os coraes. A cada momento desemboca gente das ruas e dos becos. Volta Seca imita os animais, vestido de
cangaceiro. Quando o carrossel pra de girar, os meninos o invadem, exibindo o bilhete de ingresso, e  difcil cont-los. Quando um encontra mais lugar, fica com
um rosto magoado de desiluso e impaciente a sua vez. E quando o carrossel pra, os que vo nele querem saltar,  preciso que o Sem-Pernas venha e diga:
  -- Pula fora! Pula fora! Ou ento compra outra entrada.
  S assim deixam os velhos cavalos, que nunca se cansam da corrida. Outros cavalgam os ginetes e a corrida recomea, as lmpadas girando, todas as cores fazendo uma cor
nica e estranha, a pianola tocando sua antiga msica. Tambm vo casais de namorados nos bancos e enquanto gira o carrossel murmuram palavras de amor. H mesmo quem troque
um beijo na corrida, quando o motor falha e as luzes se apagam. Ento Nhozinho Frana e o Sem-Pernas se debruam sobre o motor e examinam o defeito at a corrida
recomear, abafando os protestos dos meninos. O Sem-Pernas j aprendeu todos os mistrios do motor.
  Certa hora Nhozinho Frana manda que o Sem-Pernas v substituir Volta Seca na venda de bilhetes. E manda que Volta Seca v andar no carrossel. E o menino toma
o cavalo que serviu a Lampio. E enquanto dura a corrida, vai pulando como se cavalgasse um verdadeiro cavalo. E faz movimentos com o dedo, como se atirasse nos
que vo na sua frente, e na sua imaginao os v cair banhados em sangue, sob os tiros da sua repetio. E o cavalo corre e cada vez com mais, e ele mata a todos,
porque so todos soldados ou fazendeiros ricos. Depois possui nos bancos a todas as mulheres, saqueia vilas, cidades, trens de ferro, montado no seu cavalo, armado
com seu rifle.
  Depois vai o Sem-Pernas. Vai calado, uma estranha comoo o possui. Vai como um crente para uma missa, um amante para o seio da mulher amada, um suicida para a
morte. Vai plido e coxeia. Monta um cavalo azul que tem estrelas pintadas no lombo de madeira. Os lbios esto apertados, seus ouvidos no ouvem a msica da pianola
S v as luzes que giram com ele e prende em si a certeza de que est num carrossel, girando num cavalo como todos aqueles meninos que tm pai e me, e uma casa
e quem os beije e quem os ame. Pensa que  um deles e fecha os olhos para guardar melhor esta certeza. J Se v os soldados que o surraram, o homem de colete que
ria. Volta Seca os matou na sua corrida. O Sem-Pernas vai teso no seu cavalo.  como se corresse sobre o mar para as estrelas, na mais maravilhosa viagem do mundo.
Uma viagem como o Professor nunca leu nem inventou. Seu corao bate tanto, tanto, que ele o aperta com a mo.
  Nesta noite os Capites da Areia no vieram. No s a funo carrossel na praa terminou muito tarde (s duas horas da manh os homens ainda rodavam), como muitos
deles, inclusive Pedro Bala Boa-Vida, Barando e o Professor, estavam ocupados em vrios assuntos. Marcaram para o dia seguinte, das trs para as quatro da (p. 63)
manh. Pedro Bala perguntou ao Sem-Pernas se ele j sabia manobrar bem com o motor:
  No paga a pena dar um prejuzo ao teu patro -- explicou.
  -- J sei aquilo tudo de cor e decorado.  o tipo da coisa canja.
  O Professor, que jogava damas com Joo Grande, perguntou:
  -- No era bom agente de tarde d um pulo na praa? Quem sabe se no vale a pena?
  Eu vou -- falou Pedro Bala. -- Mas acho que no pode ir muitos. A turma pode desconfiar de ver tanto junto.
  O Gato disse que de tarde no ia. Tinha o que fazer, j que  noite ia estar ocupado no carrossel. O Sem-Pernas mangou:
  --Tu no pode passar um dia sem bater coxas com essa bruaca, no ? Tu vai acabar tatu...
  O Gato no respondeu. Joo Grande tambm no iria  tarde. Tinha que ir encontrar como Querido-de-Deus para irem comer uma feijoada na casa de Don'Aninha, a me-de-santo.
Finalmente ficou resolvido que fosse um grupo pequeno operar  tarde na praa. Os outros iriam para onde bem quisessem. S  noite se reuniriam para irem todos correr
no carrossel.
  --  preciso levar gasolina, gente, pro motor.
  O Professor (tinha vencido Joo Grande j em trs partidas) fez uma coleta para comprarem dois litros de gasolina:
  -- eu levo.
  Mas na tarde do domingo chegou o padre Jos Pedro, que era uma das rarssimas pessoas que sabiam onde ficava a pousada mais permanente dos Capites da Areia. O
padre Jos Pedro se fizera amigo deles h bastante tempo. A amizade veio por intermdio do Boa-Vida. Este, um dia, penetrara, aps uma missa, na sacristia de uma
igreja onde oficiava padre Jos Pedro. Penetrara mais por curiosidade que por outra qualquer coisa. Boa-Vida no era dos que mais faziam pela vida. Gostava de deixar
a vida correr, sem se preocupar muito. Era mais um parasita do grupo. Um dia, quando lhe dava ganas, entrava numa casa de onde trazia um objeto de valor ou batia
o relgio de um homem. Quase nunca o punha ele mesmo na mo dos intermedirios. Trazia e entregava a Pedro Bala, assim como uma contribuio que (p. 64) dava ao
grupo. Tinha muitos amigos entre os estivadores do cais, em vrias casas pobres da Cidade de Palha, em muitos pontos da Bahia Comia em casa de um, em casa de outro.
Em geral no aborrecia a nenhum. Se contentava com as mulheres que sobravam do Gato e mais que nenhum conhecia a cidade, suas ruas, seus lugares curiosos, uma festa
onde podiam ir beber e danar. Quando j tinha algum tempo que havia contribudo com algum objeto de valor para a economia do grupo, fazia um esforo, arranjava
algo que rendesse dinheiro e entregava a Pedro Bala. Mas realmente no gostava de nenhuma espcie de trabalho, fosse honesto ou desonesto. Gostava era de deitar
na areia do cais, horas e horas espiando os navios, de ficar de ccoras tardes inteiras nos portes dos armazns do porto ouvindo histrias de valentias. Vestia-se
de farrapos, pois s providenciava arranjar uma roupa quando seu traje caa aos pedaos. Gostava de andar ao lu nas ruas da cidade, entrando nos jardins para fumar
um cigarro sentado num banco, entrando nas igrejas para espiar a beleza do ouro velho, flanando pelas ruas caladas de grandes pedras negras.
  Naquela manh, quando viu o povo saindo da missa, entrou na igreja displicentemente e foi furando at a sacristia. Espiava tudo, os altares, os santos, riu de um
So Benedito muito preto. Na sacristia no tinha ningum e ele viu um objeto de ouro que devia dar muito dinheiro. Espiou mais uma vez, no viu ningum. Foi passando
a mo mas algum tocou no seu ombro. O padre Jos Pedro acabara de entrar:
  -- Por que faz isso, meu filho? -- perguntou com um sorriso enquanto tirava da mo do Boa-Vida o relicrio de ouro.
  -- Tava s dando uma espiada, reverendo.  batuta --responde Boa-Vida com certo receio. -- E batuta mesmo. Mas no v pensando que ia levar. Ia deixar a direitinho.
Sou de boa famlia.
  O padre Jos Pedro espiou as roupas do Boa-Vida e riu. Boa-Vida olhou tambm para seus trapos:
  --  que meu pai morreu, sabe? Mas at num colgio estive... Tou falando a verdade. Pra que  que eu ia roubar essa coisa? apontava o relicrio. -- Demais numa
igreja. No sou pago.
  O padre Jos Pedro sorriu de novo. Sabia perfeitamente que Boa-Vida estava mentindo. H muito que ele aguardava uma (p. 65) oportunidade para travar relaes com
as crianas abandonadas da cidade. Pensava que aquela era a misso que lhe estava reservada. J fizera umas tantas visitas ao reformatrio de menores, mas ali lhe
punham todas as dificuldades porque ele no esposava as idias do diretor de que  necessrio surrar uma criana para a emendar de um  erro. E mesmo o diretor tinha
idias nicas sobre os erros. H bastante tempo que o padre Jos Pedro ouvia falar nos Capites da Areia e sonhava entrar em contato com eles, poder trazer todos
aqueles coraes a Deus. Tinha uma vontade enorme de trabalhar com aquelas crianas, de ajud-las a serem boas. Por isso tratou o melhor que pde a Boa-Vida. Quem
sabe se por intermdio dele no chegaria, aos Capites da Areia? E assim foi.
  O padre Jos Pedro no era considerado uma grande inteligncia entre o clero. Era mesmo um dos mais humildes entre aquela legio de padres da Bahia. Em verdade
fora cinco anos operrio numa fbrica de tecidos, antes de entrar para o seminrio. O diretor da fbrica, num dia em que o bispo a visitara, resolveu dar mostra
de generosidade e disse que j que o senhor bispo se queixava da falta de vocao sacerdotal, ele estava disposto a custear os estudos de um seminarista ou de algum
que quisesse estudar para padre. Jos Pedro, que estava no seu tear, ouvindo, se aproximou e disse que ele queria ser padre. Tanto o patro como o bispo tiveram
uma surpresa. Jos Pedro j no era moo e no tinha  estudo algum. Mas o patro, diante do bispo, no quis voltar atrs. E Jos Pedro foi para o seminrio. Os demais
seminaristas riam dele. Nunca conseguiu ser um bom aluno. Bem comportado, isso era. Tambm dos mais devotos, daqueles que mais se acercavam da igreja. No estava
de acordo com muitas das coisas que aconteciam no seminrio e por isso os meninos o perseguiam. No conseguia penetrar os mistrios da filosofia, da teologia e do
latim. Mas era piedoso e tinha desejos de catequizar crianas ou ndios. Sofreu muito, principalmente depois que, passados dois anos, o dono da fbrica deixou de
pagar seus gastos e ele teve que trabalhar de bedel no seminrio para poder continuar. Mas conseguiu se ordenar e ficou adido a uma igreja da capital, esperando
uma parquia. Porm seu grande desejo era catequizar as crianas abandonadas da cidade, os meninos que, sem pai e sem me, viviam do roubo, em meio a todos os vcios.
O padre Jos Pedro queria levar aqueles coraes todos a Deus. Assim comeou a freqentar o reformatrio de menores, onde a princpio o diretor o recebia com muita
cortesia. Mas quando ele declarou contra os castigos corporais, contra deixar as crianas com fome dias seguidos, ento as coisas mudaram. Um dia teve escrever uma
carta sobre o assunto para a redao de um jornal. Ento sua entrada foi proibida no reformatrio e at uma queixa contra foi dirigida ao arcebispado. Por isso no
teve uma freguesia Porm seu maior desejo era conhecer os Capites da Areia, problema dos menores abandonados e delinqentes, que quase preocupava a ningum em toda
a cidade, era a maior preocupao do padre Jos Pedro. Ele queria se aproximar daquelas crianas no para traz-las para Deus, como para ver se havia algum meio de melhorar
sua situao. Pouca influncia tinha o padre Jos Pedro. No tinha mesmo influncia nenhuma, nem tampouco sabia como agir para ganhar a confiana daqueles pequenos
ladres. Mas s que a vida deles era falta de todo o conforto, de todo carinho, uma vida de fome e de abandono. E se o padre Jos Pedro notinha , comida e roupa para
levar at eles, tinha pelo menos palavras de carinho e, sem dvida, muito amor no seu corao. Nunca se enganou, a princpio, o padre Jos Pedro: em lhes oferecer, em troca
do abandono da liberdade que gozavam, soltos na rua, a possibilidade de vida mais confortvel. O padre Jos Pedro sabia que no podia acenar com o reformatrio quelas
crianas. Ele conhecia demais as leis do reformatrio, as escritas e as que cumpriam. E sabia que no havia possibilidade de nele uma criana se tornar boa e trabalhadora.
Mas o padre Jos Pedro confiava em amigas que possua, beatas velhas e religiosas. Elas podiam se encarregar de vrios dos Capites da Areia, de educ-los e aliment-los.
Mas isso seria o abandono de tudo de grande que tinha a vida a aventura da liberdade nas ruas da mais misteriosa e bela das cidades do mundo, nas ruas da Bahia de
Todos os Santos. E logo que, por intermdio de Boa-Vida, o padre Jos Pedro fez relaes com os Capites da Areia, viu que se lhes fizesse essa proposta perderia a confiana
que j depositavam nele e que se mudariam do trapiche e ele nunca mais os veria. Alm do mais no tinha absoluta confiana naquelas solteironas velhuscas que viviam metidas
na igreja e aproveitavam os intervalos das missas para comentarem a vida dos outros. Lembrava-se que, a princpio, elas tinham ficado magoadas com ele (p. 67) porque, ao acabar
de celebrar pela primeira vez naquela igreja, um grupo de beatas se acercou dele com o evidente propsito de o ajudar a mudar os trajes do oficio da missa. E ressoaram
em torno a ele exclamaes comovidas:
  -- Reverendozinho... Anjo Gabriel...
  Uma velhusca magra juntava as mos em adorao:
  -- Meu Jesuscristozinho...
  Pareciam ador-lo e o padre Jos Pedro se revoltou. Em verdade ele sabia que a grande maioria dos padres no se revoltava e ganhava bons presentes de galinhas,
perus, lenos bordados e por vezes at antigos relgios de ouro que passavam atravs de geraes na mesma famlia. Mas o padre Jos Pedro tinha outra idia da sua
misso, pensava que os outros estavam errados e foi com um furor sagrado que disse:
  -- As senhoras no tm o que fazer? No tm casa de que cuidar? Eu no sou jesuscristozinho, nem Anjo Gabriel... Vo para suas casas trabalhar, preparar o almoo,
coser.
  As beatas o olhavam assombradas. Era como se ele fosse o prprio Anticristo. O padre completou:
  -- Em suas casas trabalhando servem melhor a Deus que aqui cheirando as fraldas dos padres... Vo, vo...
  E enquanto elas saam atemorizadas, ele repetia mais com magoa
que com raiva:
  -- Jesuscristozinho... O nome de Deus em vo.
  As beatas foram diretas ao padre Clvis, que era gordo, calvo e
muito bem-humorado, confessor preferido de todas elas. Narraram-lhe entre exclamaes de assombro o que acabara de se passar. O padre Clvis mirou as beatas com
um olhar terno e as consolou:
  -- Logo passar... Isto  comeo. Depois ele ver que vocs so umas santas, umas verdadeiras filhas do Senhor. Isso passar. No fiquem tristes. Vo rezar um padre-nosso
e no se esqueam que h beno hoje.
  Ficou rindo quando elas partiram. E murmurava de si para si:
  -- Esses padres recm-ordenados estragam a vida da gente...

  (p. 68)

  Depois as beatas foram aos poucos se aproximando novamente do padre Jos Pedro. A verdade  que nunca chegaram a ter com ele uma perfeita intimidade. O seu ar srio,
a sua bondade que se reservava para quando se fazia necessria, e seu horror s intriguinhas de sacristia faziam com que elas o respeitassem mais que o amassem. Algumas,
no entanto, aquelas que em geral eram ou vivas ou esposas de maus maridos, se fizeram mais ou menos suas amigas. Outra coisa o afastava das beatas: ele era a negao
do pregador. Nunca havia conseguido descrever o inferno com a fora de convico do padre Clvis, por exemplo. Sua retrica era pobre e falha. No entanto, ele acreditava,
ele era um crente. E dificilmente se poderia dizer que padre Clvis acreditasse pelo menos no inferno.
  A princpio o padre Jos Pedro pensara em levar os Capites da Areia s beatas. Pensava que assim salvaria no s as crianas de vida miservel, como salvaria
tambm as beatas de uma inutilidade perniciosa. Poderia conseguir que elas se dedicassem aos meninos com a mesma fervorosa devoo com que se dedicavam s igrejas,
aos gordos padres. O padre Jos Pedro adivinhava (mais do que sabia) se elas passavam os dias em inteis conversas nas igrejas, ou a levar  lenos para o padre Clvis,
era porque no haviam tido, na malograda existncia de virgens, um filho, um esposo, a quem dedicar seu tempo e seu carinho. Agora ele levaria filhos para elas.
Muito tempo o padre Jos Pedro acariciou este projeto. Chegou mesmo a levar para casa de uma um menino do reformatrio. Isso muito antes de conhecer os Capites da Areia,
quando apenas ouvia falar neles. A experincia deu maus resultados: o menino arribou da casa da solteirona levando uns objetos de prata, preferindo a liberdade da rua
mesmo vestido de farrapos e sem muita certeza de almoo, aos trajes e ao almoo garantido com a obrigao de rezar o tero em alta voz, assistir vrias missas e bnos
todos os dias. Depois o padre Jos Pedro compreendeu que a experincia tinha fracassado mais por culpa da solteirona que do menino. Porque evidentemente -- pensava
padre Jos Pedro --  impossvel converter uma criana abandonada e ladrona em um sacristo. Mas  muito possvel convert-la em um homem trabalhador... E esperava
quando conhecesse os Capites da Areia entrar num acordo com alguns deles e com as beatas para tentar uma nova experincia, agora bem dirigida. Mas logo depois que

  (p. 69)

  Boa-Vida o apresentou ao grupo, que aos poucos ganhou a confiana da maioria, viu que era totalmente intil pensar nesse projeto. Viu que era absurdo, porque a
liberdade era o sentimento mais arraigado nos coraes dos Capites da Areia e que tinha que tentar outros meios.
  Nas primeiras vezes os meninos o olhavam com desconfiana. Ouviam muitas vezes na rua dizer que padre dava peso, que negcio de padre era para mulher. Mas o padre
Jos Pedro tinha sido operrio e sabia como tratar os meninos. Tratava-os como a homens, como a amigos. E assim conquistou a confiana deles, se fez amigo de todos,
mesmo daqueles que, como Pedro Bala e o Professor, no gostavam de rezar. Dificuldade grande s teve mesmo com o Sem-Pernas. Enquanto que o Professor, Pedro Bala,
o Gato eram indiferentes s palavras do padre (o Professor, no entanto, gostava dele, pois lhe trazia livros), Pirulito, Volta Seca e Joo Grande, principalmente
o primeiro, muito atentos ao que ele dizia, o Sem-Pernas lhe fazia uma oposio que a princpio tinha sido muito tenaz. Porm o padre Jos Pedro terminara por conquistar
a confiana de todos. E pelo menos em Pirulito descobrira uma vocao sacerdotal.
  Mas naquela tarde no foi com muita satisfao que o viram chegar. Pirulito se aproximou e beijou a mo do padre. Volta Seca tambm. Os demais o cumprimentaram.
O padre Jos Pedro explicou:
  -- Hoje venho fazer um convite a todos vocs.
  Os ouvidos se fizeram atentos. O Sem-Pernas resmungou:
  --Vai chamar a gente pra bno. S quero ver quem topa...
  Mas se calou porque Pedro Bala o olhava com raiva. O padre sorriu com bondade. Sentou-se num caixo, Joo Grande viu que a batina dele era suja e velha. Tinha
remendos feitos com linha preta e era grande para a magreza do padre. Cutucou Pedro Bala, que espiou tambm. Ento o Bala disse:
  -- Minha gente,o padre Jos Pedro, que  amigo de ns, tem uma bisa pra gente. Viva o padre Jos Pedro!
  Joo Grande sabia que tudo era por causa da batina rasgada e grande para a magreza do padre. Os outros responderam viva, o padre sorriu acenando com a mo, Joo
Grande no tirava os olhos da batina. Pensou que Pedro Bala era mesmo um chefe, sabia de tudo, sabia fazer (p. 70)
tudo. Por Pedro Bala, Joo Grande se deixaria cortar a faco como aquele negro de Ilhus por Barbosa, o grande senhor do cangao. O padre Jos Pedro meteu a mo
no bolso da batina, tirou o brevirio negro. Abriu e de dentro sacou algumas notas de dez mil-ris:
  -- Isso  pra gente andar no carrossel hoje... Convido vocs todos para andarem hoje no carrossel da praa de Itapagipe.
  Esperava que os rostos se animassem mais. Que uma extraordinria alegria reinasse em toda sala. Porque assim ficaria ainda mais convicto de que estava servindo
a Deus quando daqueles quinhentos mil-ris que dona Guilhermina Silva dera para comprar velas para o altar da Virgem tirara cinqenta mil-ris para levar os Capites
da Areia ao carrossel. E como os rostos no ficaram subitamente alegres, ele ficou desconcertado, as notas na mo, olhando a multido de meninos. Pedro Bala coou
o cabelo (que lhe caa sobre as orelhas), quis falar, no acertou. Olhou ento para o Professor, e foi este quem aplicou:
  -- Padre, o senhor  um homem bom. -- Teve vontade de dizer que o padre era bom como Joo Grande, mas pensou que talvez o padre se ofendesse se ele o comparasse
ao negro. - Mas o que tem que o Sem-Pernas e Volta Seca to os dois trabalhando no carrossel. E a gente t convidado -- a fez uma pequena pausa -- pelo proprietrio,
que  amigo deles, pra andar  noite de graa. Agente no esquece do convite do senhor... -- O Professor falava pausado escolhendo as palavras, pensando que aquele
era um momento delicado, adivinhando muita coisa, e Pedro Bala o apoiava com a cabea.
  -- Fica pra outra vez. Mas o senhor no vai zangar com a gente porque a gente no aceita? No vai, no ? -- e espiava o padre, cujo rosto agora estava novamente
alegre.
  -- No. Fica pra outra vez. -- Olhou para os meninos sorrindo
  -- Foi at melhor assim. Porque o dinheiro que eu tinha... - e se calou de repente ante o fato que ia contar. E pensou que talvez tivesse sido uma lio de Deus,
um aviso, e que tivesse feito uma coisa malfeita. Seu olhar foi to estranho, que os meninos se aproximaram um passo.
  Olhavam para o padre sem compreender. Pedro Bala franzia a testa como quando tinha um problema a resolver, o Professor tentou falar. Mas ,Joo Grande compreendeu
tudo, apesar de ser o mais burro de todos:
  -- Era da igreja, padre?-e bateu na boca com raiva de si mesmo.
  Os outros entenderam. Pirulito pensou que tivesse sido um grande pecado, mas sentiu que a bondade do padre era maior que o pecado. Ento o Sem-Pernas veio coxeando
ainda mais que o seu natural, como se viesse lutando consigo mesmo, chegou perto do padre e quase gritou a princpio, se bem logo baixasse muito a voz:
  -- A gente pode botar no lugar onde estava... E coisa canja pra gente. No fique triste... -- e sorria.
  E o sorriso do Sem-Pernas e a amizade que o padre lia nos olhos de todos (haveria lgrimas nos olhos do Grande?) lhe restituram a calma, a serenidade, a confiana
no seu ato e no seu Deus. Disse com sua voz natural:
  -- Uma velha viva deu quinhentos mil-ris para vela. Eu tirei cinqenta para vocs andarem no carrossel. Deus julgar se fiz bem. Agora compro mesmo de vela.
  Pedro Bala sentia que tinha uma dvida a saldar com o padre. Queria que o padre soubesse que todos eles compreendiam. E como no achasse nada mais  mo, se disps
a perder o trabalho que poderiam fazer naquela tarde e convidou o padre:
  -- A gente vai pro carrossel ver Volta Seca e Sem-Pernas agora de tarde. Quer ir com a gente, padre?
  Padre Jos Pedro disse que sim, porque sabia que aquilo era mais um passo na sua intimidade com os Capites da Areia. E foi um grupo com o padre para a praa. Vrios
no foram, o Gato inclusive, que foi ver Dalva. Mas os que iam pareciam um bando de bons meninos que tinham do catecismo. Se estivessem bem vestidos e limpos, pareceria
um colgio de to em ordem que eles iam.
  Na praa rodaram tudo com o padre. Mostravam com orgulho Volta Seca imitando animais, vestido de cangaceiro, o Sem-Pernas fazendo sozinho o carrossel girar, porque
Nhozinho Frana fora tomar uma cerveja num bar. Uma pena que  tarde as luzes do carrossel no estivessem acesas. No era to belo como  noite, as luzes girando
de todas as cores. Mas eles tinham orgulho de Volta Seca imitando animais, do Sem-Pernas movimentando o carrossel, (p. 72) fazendo as crianas subirem, as crianas
baixarem. O Professor, com um pedao de lpis e uma tampa de caixa, desenhou Volta Seca vestido de cangaceiro. Tinha um jeito especial para desenhar e por vezes ganhava
dinheiro fazendo desenho, nas caladas, de homens que passavam, de senhoritas que iam com os noivos. Estes paravam um minuto, riam do desenho ainda indeciso, as
noivas diziam:
  -- Est muito parecido...
  Ele recolhia os nqueis e ento ficava a retocar o desenho feito a giz, a ampli-lo, a colocar homens decais e mulheres da vida, at um guarda o expulsava da calada.
Por vezes j tinha um grupo espiando e havia quem dissesse:
  -- Este menino promete.  pena que o governo no olhe s vocaes... -- e lembravam casos de meninos da rua que, ajudados por famlias, foram grandes poetas, cantores
e pintores.
  O Professor acabou o desenho (no qual ps o carrossel e Nhozinho Frana caindo de bbado) e deu ao padre. Estavam todos num cerrado espiando o desenho, que o padre
elogiava, quando ouviram:
  -- Mas  o padre Jos Pedro...
  E o lorgnon da velha magra se assestou contra o grupo como arma de guerra. O padre Jos Pedro ficou meio sem jeito, os meninos olhavam com curiosidade os ossos do pescoo
e do peito da velha onde um barret custosssimo brilhava  luz do sol. Houve um momento em que todos ficaram calados, at que o padre Jos Pedro nimou e disse:
  -- Boa tarde, dona Margarida.
  Mas a viva Margarida Santos assestou novamente o lorgnon de ouro.
  -- O senhor no se envergonha de estar nesse meio, padre? Um sacerdote do Senhor? Um homem de responsabilidade no meio desta gentalha...
  -- So crianas, senhora.
  A velha olhou superiora e fez um gesto de desprezo com a mo. O padre continuou:
  -- Cristo disse: Deixai vir a mim as criancinhas...
  -- Criancinhas... Criancinhas... -- cuspiu a velha.
  -- Ai de quem faa mala uma criana, falou o Senhor -- e o padre Jos Pedro elevou a voz acima do desprezo da velha.
  -- Isso no so crianas, so ladres. Velhacos, ladres. Isso no do so crianas. So capazes at de ser dos Capites da Areia... Ladres -- repetiu com nojo.
  Os meninos a fitavam com curiosidade. S o Sem-Pernas, que tinha vindo do carrossel pois Nhozinho Frana j voltara, a olhava com raiva. Pedro Bala se adiantou
um passo, quis explicar:
  -- O padre s quer aju...
  Mas a velha deu um repelo e se afastou.
  -- No se aproxime de mim, no se aproxime de mim, imundcie.
  Se no fosse pelo padre eu chamava o guarda.
  Pedro Bala a riu escandalosamente, pensando que se no fosse pelo padre a velha j no teria o barret nem tampouco o lorgnon. A velha se afastou com um ar de
grande superioridade, no sem dizer estas palavras  para o padre Jos Pedro:
  -- Assim o senhor no vai longe, padre. Tenha mais cuidado com suas relaes.
  Pedro Bala ria cada vez mais, e o padre tambm riu, se bem que se sentisse triste pela velha, pela incompreenso da velha. Mas o carrossel girava com as crianas bem
vestidas e aos poucos os olhos dos Capites da Areia se voltaram para ele e estavam cheios de desejo de montar nos cavalos, de girar com as luzes. Eram crianas, sim
-- pensou padre.
  No comeo da noite caiu uma carga d'gua. Tambm as nuvens logo depois desapareceram do cu e as estrelas brilharam,        ou tambm a lua cheia. Pela madrugada
os Capites da Areia vieram. O Sem-Pernas botou o motor para trabalhar. E eles esqueceram no que eram iguais s demais crianas, esqueceram que no tinham, nem pai,
nem me, que viviam de furto como homens, que eram temidos na cidade como ladres. Esqueceram as palavras da velha de lorgnon. Esqueceram tudo e foram iguais a todas
as crianas, cavalgando os ginetes do carrossel, girando com as luzes. As estrelas brilhavam, brilhava a lua cheia. Mas, mais que tudo, brilhavam a noite da Bahia
as luzes azuis, verdes, amarelas, roxas, vermelhas do Grande Carrossel Japons.

  Docas

  Pedro Bala bateu a moeda de quatrocentos ris na parede da Alfndega, ela caiu adiante da de Boa-Vida. Depois Pirulito bate a dele, a moeda ficou entre a de Boa-Vida
e a de Pedro Bala. Boa-Vida estava acocorado, espiando. Tirou o cigarro da boca:
  -- Eu gosto  assim mesmo. De comear ruim...
  E continuaram o jogo, mas Boa-Vida e Pirulito perderam moedas de quatrocentos, que Pedro Bala embolsou:
  -- Eu sou  bamba mesmo.
  Diante deles estavam os saveiros ancorados. Do Mercado mulheres e homens. Eles esperavam nesta tarde o saveiro do Querido-de-Deus. O capoeirista estava numa pescaria,
que sua profisso era pescador. Continuaram o jogo do cruzado at que Pedro Bala limpou os outros dois. A cicatriz do seu rosto brilhava. Gostava de ganhar assim num
jogo limpo, principalmente quando os parceiros eram da fora do Pirulito (que fora muito tempo o campeo do grupo) e de Boa-Vida. Quando terminaram, Boa-Vida puxou
o bolso para fora:
  -- Tu vai me emprestar nem que seja um cruzado. Tou ar nem.
  Depois mirou o mar, os saveiros ancorados:
  -- Querido-de-Deus vai chegar de tardinha. Vamos para as docas.
  Pirulito disse que ficava esperando o Querido-de-Deus, mas Pedro Bala foi com Boa-Vida para as docas. Atravessaram as ruas do cais, afundaram os ps na areia.
Um navio desatracava do armazm 5, haviam movimento de gente que entrava e saa. Pedro Bala perguntou ao Boa-Vida:
  -- Tu no tem vontade de ser martimo?
  -- T vendo... Gosto daqui. No quero arribar, no.
  -- Pois eu tenho vontade.  bonito trepar num mastro. E um temporal, bem? Tu te lembra daquela histria que o Professor leu pra gente? Aquela que tinha um temporal.
Batuta...
  -- Era porreta, sim.
  Pedro Bala ficou se lembrando da histria. Boa-Vida achava besteira sair da Bahia, onde, quando crescesse, seria to fcil viver uma boa existncia de malandro,
navalha na cala, violo debaixo do brao, uma morena para derrubar no areal. Era a existncia que desejava ter quando se fizesse completamente homem.
  Chegaram ao porto do armazm sete. Joo de Ado, um estivador negro e fortssimo, antigo grevista, temido e amado em toda a estiva, estava sentado num caixo.
Fumava cachimbo e os msculos saltavam sob sua camisa. Quando viu os meninos foi saudando:
  -- Olha o amigo Boa-Vida. E o Capito Pedro.
  S chamava Pedro de Capito Pedro e gostava de conversar com eles. Ofereceu um pedao de caixo a Pedro Bala, Boa-Vida se acocorou na sua frente. Num canto, uma
negra velha vendia laranjas cocadas, vestida com uma saia de chito e uma angua que deixava ver os seios ainda duros apesar da sua idade. Boa-Vida ficou espiando
os peitos da negra, enquanto descascava uma laranja que apanhara no bueiro.
  -- Tu ainda tem uma peitama bem boa, hein, tia?
  A negra sorriu:
  -- Esses meninos de hoje no respeita os mais velho, compadre Joo de Ado. Onde j se viu um capetinha destes falar em peito pra a velha encongrujada como eu?
  Deixa de conversa, tia. Tu ainda topa a coisa...
  A negra riu com vontade:
  -- J fechei a cancela,
Boa-Vida. Passei da idade. Pergunta este... -aponta Joo de Ado. -- Vi quando ele, quase menino as como tu, fez a primeira greve aqui nas doca. Naquele tempo ningum
sabia que diabo era greve. Tu te lembra, compadre?
  Joo de Ado balanou a cabea que sim, fechou os olhos recordando os longnquos tempos da primeira greve que chefiara nas docas. Era um dos doqueiros mais velhos, embora
ningum lhe desse a idade que tinha.
  Pedro Bala falou:
  -- Negro quando pinta, trs vezes trinta.
  A negra mostrou a carapinha toda pintada de branco. Tinha tirado o leno que enrolava na cabea e Boa-Vida chalaceou:
  -- Por isso tu anda com esse leno. O negra cheia de proso
  Joo de Ado perguntou:
  -- Tu te lembra de Raimundo, comadre Luisa?
  -- O Loiro, que morreu na greve? Como no me lembro? Era que toda tarde vinha dar dois dedo de prosa comigo, gostava de pilhria...
  -- Mataram ele bem aqui, naquele dia que a cavalaria ato a gente. --Olhou para Pedro Bala. -- Tu nunca ouviu falar Capito?
  -- No.
  -- Tu tinha uns quatro anos. Depois disso tu andou um ano casa de um pra casa de outro at que tu fugiu. Depois a gente s saber de tu quando tu j era chefe dos
Capites da Areia. Mas a gente sabia que tu havia de te arranjar. Quantos anos tu tem agora?
  Pedro ficou fazendo clculos e o prprio Joo de Ado interrompeu.
  -- Tu t com uns quinze anos. No , comadre?
  A negra fez que sim. Joo de Ado continuou:
  -- No dia que tu quiser tu tem um lugar aqui nas docas. A gente tem um lugar guardado pra tu.

  (p. 77)

  -- Por qu? -- perguntou Boa-Vida, j que Pedro apenas olhava espantado.
  -- Porque o pai dele era Raimundo e morreu foi aqui mesmo lutando pela gente, pelo direito da gente. Era um homem e tanto. Valia dez destes que a gente encontra
por ai.
  -- Meu pai?-fez Pedro Bala, que daquelas histrias s conhecia vagos rumores.
  -- Teu pai, era. A gente chamava ele de Loiro. Quando foi da greve fazia discurso pra gente, nem parecia um estivador. Foi pegado por uma bala. Mas tem um lugar
pra tu nas docas.
  Pedro Bala riscava o asfalto com um graveto. Olhou Joo de Ado:
  -- Por que tu nunca me contou isso?
  -- Tu era pequeno para entender. Agora tu t ficando um homem -- e riu com satisfao.
  Pedro Bala riu tambm. Estava contente de saber a histria de seu pai, porque ele tinha sido um homem valente. Mas perguntou lentamente:
  -- E minha me tu conheceu?
  Joo de Ado pensou um momento:
  -- No sei, no. Quando conheci o Loiro, ele no tinha mulher.
  Mas tu vivia com ele.
  -- Eu conheci -- era a negra que estava falando. -- Um pedao mulher. Corria uma histria que teu pai tinha fintado ela de casa, ela era de uma famlia rica l
de cima -- e apontava a cidade alta. Morreu quando tu nem tinha seis meses. Nesse tempo Raimundo trabalhava na fbrica de ciganos de Itapagipe. Depois foi que veio
pras docas.
  Joo de Ado repetiu:
  -- Quando tu quiser...
  Pedro Bala fez um aceno com a cabea. Depois perguntou:
  -- Foi uma coisa batuta a greve, no foi?
  E ficaram ouvindo Joo de Ado narrar a greve. Quando ele acabou, Pedro Bala disse:
  -- Eu gostava de fazer uma greve. Deve ser porreta.
  Vinha entrando um navio. Joo de Ado se levantou:
  -- Agora a gente vai carregar aquele holands.
  O navio apitava nas manobras de atracao. De todos os cantos surgiam estivadores que se iam dirigindo para o grande armazm Pedro Bala os olhou com carinho. Seu
pai fora um deles, morrera em defesa deles. Ali iam passando homens brancos, mulatos, negros muitos negros. Iam encher os pores de um navio de sacos de cacau, fardos
de fumo, acar, todos os produtos do estado que iam para ptrias longnquas, onde outros homens como aqueles, talvez altos loiros, descarregariam o navio, deixariam
vazios os seus pores, pai fora um deles. S agora o sabia. E por eles fizera discursos trepado em um caixo, brigara, recebera uma bala no dia em que a cavalaria
enfrentou os grevistas. Talvez ali mesmo, onde ele se sentava, tivesse cado o sangue de seu pai. Pedro Bala mirou o cho agora asfaltado. Por baixo daquele asfalto devia
estar o sangue que correra do corpo de seu pai. Por isso, no dia em que quisesse, teria um lugar nas docas entre aqueles homens, o lugar que fora de seu pai. E teria tambm
que carregar fardos... Vida dura aquela, com fardos de sessenta quilos s costas. Mas tambm poderia fazer uma greve assim como seu pai Joo de Ado, brigar com policias,
morrer pelo direito deles, vingaria seu pai, ajudaria aqueles homens a lutar pelo seu interesse. (vagamente Pedro Bala sabia o que era isso). Imaginava-se em greve, lutando.
E sorriam os seus olhos como sorriam os seus lbios.
  Boa-Vida, que chupava a terceira laranja, interrompeu seu sonho:
  -- T pensando na morte da bezerra, seu mano?
  A preta velha olhou Pedro Bala com carinho:
  --  a cara do pai, S que tem o cabelo ondeado da me. Se no fosse esse talho na cara, no tinha que tirar nem pr para Raimundo. Um homem bonito...
  Boa-Vida riu entre dentes. Perguntou quanto devia, pagou duzentos ris. Depois olhou mais uma vez os peitos da negra perguntou:
  -- Tu no tem uma fia, minha tia?
  -- Pra que tu quer saber, desgraado?

  (p. 79)

  Boa-Vida riu:
  -- Eu podia me amigar com ela...
  A negra atirou o chinelo, Boa-Vida desviou o corpo:
  -- Se eu tivesse uma filha, no era pra teu bico, malandro.
  Depois se lembrou:
  -- Tu no vai hoje ao Gantois? Vai ser uma batida daquelas. Um fandango de primeira.  festa de Omolu.
  -- Muita bia? E alu?
  -- Se tem... -- mirou Pedro Bala. -- Por que tu no vai, branco?
  Omolu no  s santo de negro.  santo dos pobres todos.
  Boa-Vida estendeu a mo numa saudao quando ela falou em Omolu, o deus da bexiga. A tarde caa. Um homem comprou cocada. As luzes se acenderam de repente. A negra
se levantou, boa-vida ajudou a que ela botasse o tabuleiro na cabea. Ao longe, Pirulito apontava com o Querido-de-Deus. Pedro Bala olhou mais uma vez os homens
que nas docas carregavam fardos para o navio holands. Nas largas costas negras e mestias brilhavam gotas de suor. Os pescoos musculosos iam curvados sob os fardos.
E os guindastes rodavam ruidosamente. Um dia iria fazer uma greve como seu pai... Lutar pelo direito... Um dia um homem assim como Joo de Ado poderia contar a
outros meninos na porta das docas a sua histria, como contavam a de seu pai. Seus olhos tinham um intenso brilho na noite
recm-chegada.
  Ajudaram o Querido-de-Deus a desembarcar a pescaria, que fora boa. Yemanj o tinha ajudado. Um homem que tinha banca de peixe no mercado comprou toda a pescaria.
Depois foram comer num
restaurante prximo. Pirulito foi ver o padre Jos Pedro, que estava lhe ensinando a ler e a escrever. Passou pelo trapiche antes, para apanhar
uma caixa de penas que tinha levantado numa papelaria pela manh. Pedro Bala, Boa-Vida e o Querido-de-Deus andaram para o candombl do Gantois (o Querido era og),
onde Omolu apareceu com suas vestimentas vermelhas e avisou a seus filhinhos pobres, no cntico mais lindo que pode haver, que em breve a misria acabaria, (p. 80)
que ele levaria a bexiga para a casa dos ricos e que os pobres seriam alimentados e felizes. Os atabaques tocavam na noite de Omolu. E ele
anunciava que o dia de vingana dos pobres chegaria. As negras danavam, os homens estavam alegres. O dia da vingana chegaria.
Pedro Bala veio sozinho pelas ruas da cidade, pois o Boa-Vida fora com o Querido-de-Deus danar num blefor. Desceu as ladeiras que o conduziam  cidade baixa. Ia
devagar, como se carregasse um
peso dentro de si, ia como que curvado por dentro. Pensava na conversa da tarde com Joo de Ado, conversa que o alegrara porque ficara sabendo que seu pai fora
um homem valente do cais, um homem
que chegara a deixar uma histria. Mas Joo de Ado falara tambm dos direitos dos doqueiros. Pedro Bala nunca tinha ouvido falar naquilo e, no entanto, fora por
estes direitos que seu pai morrera. E depois, na macumba do Gantois, Omolu, paramentado de vermelho, dissera que odiada vingana dos pobres no tardaria a chegar.
E isso oprimia o corao de Pedro Bala, como aqueles fardos de sessenta quilos oprimem o cangote dos estivadores.
Quando acabou a descida da ladeira se dirigiu para o areal, com vontade de ir para o trapiche ver se dormia. Um cachorro latiu  sua passagem, pensando que ele ia lhe
disputar o osso que estava roendo. No fim da rua Pedro Bala viu um vulto. Parecia uma mulher andava apressada. Sacudiu seu corpo de menino como se sacode animal
jovem ao ver a fmea, e com passo rpido se aproximou da mulher que agora entrava no areal. A areia chiava sob os ps e a mulher notou que era seguida. Pedro Bala podia
v-la bem quando ela passava sob os postes: era uma negrinha bem jovem, talvez tivesse apenas tantos anos como ele. Mas os seios saltavam pontiagudos e as ndegas rolavam
no vestido, porque os negros mesmo quando esto andando naturalmente  como se danassem. E o desejo cresceu dentro de  Pedro Bala, era um desejo que nascia da vontade
de afogar a angstia que o oprimia. Pensando nas ndegas rebolantes da negrinha pensava na morte de seu pai defendendo o direito dos grevistas, Omolu pedindo vingana
na noite de macumba. Pensava em derrubar a negrinha sobre a areia macia, em acariciar seus seios duros (talvez seios de virgem, sempre seios de menina), em possuir
seu corpo quente de negra.
  (p. 81)

  Apressou seus passos, porque a negrinha se desviara da rua que cortava o areal e se internara por este, se afastando dos postes de iluminao. Mas quando ela notou
que Pedro Bala estava cada vez mais prximo, se lanou para a frente quase correndo. Pedro compreendeu que ele ia para uma daquelas ruas perdidas entre o morro e
o mar, e que se atravessava o areal era para caminho mais curto e com mais facilidade poder fugir dele. Ia um silncio por todo o cais, s chiar da areia sob os
passos deles fazia estremecer de medo o corao da negrinha e de impacincia o corao de Pedro Bala. Mas estava cada vez mais prximo. Andava muito mais rpido
que a negra e a alcanaria com mais dez passos. E ela tinha ainda muito que andar no areal antes de atingir os trapiches e as ruas que ficam alm dos trapiches.
Pedro sorria, um sorriso de dentes apertados, era igual a um animal feroz caando no deserto um outro animal para seu almoo.
  Quando j ia levando a mo para tocarem seu ombro e fazer com que ela voltasse o rosto, a negrinha comeou a correr. Pedro Bala se lanou em sua perseguio e
logo a alcanou. Mas ia a tal velocidade esbarrou nela e ambos rolaram na areia. Pedro se levantou de um salto, rindo, chegou para o lado dela, que procurava se pr em
p:
  -- No precisa, lindeza. Assim mesmo t bom.
  O rosto da negrinha era de terror. Mas quando viu que seu seguidor era um menino de quinze para dezesseis anos se animou mais um pouco e perguntou com raiva:
  -- Que  que tu quer?
  -- Deixa de orgulho, morena. Vamos bater um papozinho...
  E a agarrou pelo brao e novamente a derrubou na areia. O medo voltou a possu-la, um terror doido. Vinha da casa da av e ia para sua onde me e irms a esperavam.
Para que tinha vindo de noite, para que se arriscara na areia do cais? No sabia que a areia das docas  a cama de amor de todos os malandros, de todos os ladres,
de todos os martimos, de todos os Capites da Areia, de todos os que no podem pagar mulher e tm sede de um corpo na cidade santa da Bahia? Ela no sabia disto, mal
fizera quinze anos, havia muito pouco (p. 82)
tempo que era mulher. Pedro Bala tambm s tinha quinze anos, mas h muito tempo conhecia no s o areal e os seus segredos, como os segredos do amor das mulheres.
Porque se os homens conhecem esses segredos muito antes que as mulheres, os Capites da Areia os
conheciam muito antes que qualquer homem. Pedro Bala a queria porque h muito sentia os desejos de homem e conhecia as carcias do
amor. Ela no o queria porque fazia pouco que se tornara mulher e pretendia reservar seu corpo para um mulato que a soubesse apaixonar.
  No o queria entregar assim ao primeiro que a encontrasse no areal. E est com os olhos entupidos de medo.
  Pedro Bala passou a mo na carapinha da negra:
  -- Tu  um pancado, morena. Ns vai fazer um filho lindo...
  Ela lutou por se afastar dele:
  -- Me deixa. Me deixa, desgraado!
  E olhava em torno de si para ver se enxergava algum a quem gritar, a quem pedir socorro, algum que a ajudasse a conservar a sua virgindade, que tinham lhe ensinado
que era preciosa. Mas  noite no areal do cais da Bahia no se vem seno sombras e no se ouvem mais que gemidos de amor, baques de corpos que rolam confundidos
na areia.
  Pedro Bala acariciava seus seios e ela, no fundo de seu terror, comeava a sentir um fio de desejo, como um fio de gua que corre entre montanhas e vai engrossando
aos poucos at se transformar em
caudaloso rio. E isso fez com que crescesse o seu terror. Se ela no resistisse contra o desejo e deixasse que ele a possusse, estaria perdida,
iria deixar uma mancha de sangue no areal, da qual ririam os estivadores na madrugada seguinte. A certeza da sua fraqueza lhe deu novo alento e novas foras. Baixou
a cabea, mordeu a mo de Pedro que segurava seu seio. Pedro deu um grito, retirou a mo, ela se levantou e correu. Mas ele a pegou e agora seu desejo estava misturado
com raiva.
  -- Vamos deixar de chove-no-molha e tentava derrub-la.
  -- Deixa eu ir embora, desgraado. Tu quer fazer minha desgraa, filho da me? Deixa eu ir embora, que no tenho nada com tu.
  Pedro no respondia. Conhecia outras que faziam chiqu. Em geral porque tinham um amante a esper-las. Nem por um momento (p.82)pensou que a negrinha fosse virgem.
Mas ela resistia e o xingava, e mordia, batia suas frgeis mos no peito de Pedro Bala.
  -- Mas que  que tu viu, cabocla? Tu pensa que eu vou te deixar antes de tu me dar? Deixa de orgulho. Teu macho no vai saber, ningum fica sabendo. E tu vai ver
o que  um homem bom...
  E agora fazia por acarici-la, queria dominar sua raiva, fazer com que ela sentisse desejo. Suas mos desciam ao longo do seu corpo, deitou-a com esforo. Ela
agora repetia num refro:
  -- Me deixa, desgraado... Me deixa, desgraado...
  Ele suspendeu as saias pobres de chita, apareceram as duras coxas da negra. Mas estavam uma sobre a outra e Pedro Bala tentou separ-las. A negrinha reagiu de
novo, mas como o menino a estava acariciando e ela sentiu a chegada impetuosa do desejo, no o xingou mais, seno que disse num pedido angustioso:
  -- Me deixa, que eu sou virgem. Tu pode ser bom, no me querer.
  Depois tu encontra outra. Eu sou donzela, tu vai me fazer mal.
  Ele olhou, ela estava chorando de medo e tambm porque sua vontade estava enfraquecendo, seus peitos estavam intumescidos.
  -- Tu  donzela mesmo?
  -- Juro por Deus Nosso Senhor, pela Virgem --beijava os dedos postos em cruz.
  Pedro Bala vacilava. Os seios da negrinha intumescidos sob seus dedos. As coxas duras, a carapinha do sexo.
  -- Tu t falando a verdade? -- e no deixava de acarici-la.
  -- Tou, juro. Deixa eu ir embora, minha me t me esperando.
  Chorava, e Pedro Bala tinha pena, mas o desejo estava solto dentro dele. Ento props ao ouvido da negra (e fazia ccegas a lngua dele):
  -- S boto atrs.
  -- No. No.
  -- Tu fica virgem igual. No tem nada.
  -- No. No, que di.
  Mas ele a acarinhava, uma ccega subiu pelo corpo dela. Comeou a compreender que se no o satisfizesse como ele queria, sua (p. 84)virgindade ficaria ali. E quando
ele prometeu (novamente sua lngua a excitava no ouvido) se doer eu tiro... ela consentiu.
  -- Tu jura que no vai na frente?
  -- Juro.
  Mas depois que tinha se satisfeito pela primeira vez (e ela gritara e mordera as mos), vendo que ela ainda estava possuda pelo desejo, tentou desvirgin-la.
Mas ela sentiu e saltou como uma louca:
  -- Tu no te contenta, desgraado, com o que me fez? Tu quer me desgraar?
  E soluava alto, e levantava os braos, estava como uma louca, toda sua defesa eram seus gritos, suas lgrimas, suas imprecaes
contra o chefe dos Capites da Areia. Mas para Pedro a maior defesa da negrinha eram os olhos cheios de pavor, olhos de animal mais fraco que no tem foras para
se defender. E como seu maior desejo fosse
satisfizera, e como aquela angstia do princpio da noite voltava a domin-lo, ele falou:
  -- Se eu te deixar, tu volta amanh?
  -- Volto, sim.
  -- S fao o que fiz hoje. Te deixo donzela...
  Ela fez que sim com a cabea. Seus olhos estavam iguais aos de um doido e naquele momento s sentia dor e pavor, vontade de fugir. Agora que as mos dele, os lbios
dele, o sexo de Pedro, no tocavam mais nas carnes dela, seu desejo desaparecera e pensava unicamente em defender sua virgindade. Respirou quando ele disse:
  -- Ento tu pode ir. Mas se tu no voltar amanh.. . Quando eu te pegar tu vai ver com quantos paus se faz uma cangalha...
  Ela comeou a andar sem nada responder. Mas o menino a
acompanhou:
  -- Vou te levar para um malandro no lhe pegar.
  Foram os dois e ela chorava. Ele quis pegar na mo dela, ela no deixou e se afastou dele. Ele tentou novamente, novamente ela retirou a mo. Ento ele disse:
  -- Que diabo  isso?
  E foram de mos dadas. Ela chorava e aquele choro foi angustiando Pedro Bala, foi fazendo com que voltasse sua inquietao (p. 85) do comeo da noite, a viso
de seu pai morrendo na luta, a viso de Omolu anunciando vingana. Comeou a maldizer intimamente o encontro da cabrocha e apressou o passo para chegar quanto antes
ao comeo da rua. Ela soluava e ele falou com raiva:
  -- Que foi que tu teve? Tu no teve nada...
  Ela apenas o olhou e seus olhos (apesar de ainda ir com ele e ainda estar apavorada)estavam cheios de dio e desprezo. Pedro baixou a cabea, no sabia o que dizer,
no tinha mais desejo nem raiva, s tristeza no seu corao. Ouviram a msica de um samba que um homem cantava na rua. Ela soluou mais alto, ele foi chutando a
areia. Agora se sentia mais fraco que ela, a mo da negrinha pesava na sua como se fosse chumbo. Largou a mo, ela se afastou dele. Pedro no protestou. Queria no
a ter encontrado, no ter tambm Joo de Ado nem ter ido ao Gantois. Chegaram na rua, ele disse:
  -- Agora tu pode ir, ningum te faz mal.
  Ela olhou novamente com dio deitou a correr. Mas na esquina mais prxima parou, virou para ele (que ainda olhava) e rogou praga com uma voz que o encheu de medo:
  -- Peste, fome e guerra te acompanha, desgraado. Deus te castiga, desgraado. Filho de uma me, desgraado, desgraado - sua voz solitria atravessa a rua, abalava
Pedro Bala.
  Ela, antes de desaparecer na esquina, cuspiu no cho num supremo desprezo e ainda repetiu:
  -- Desgraado... Desgraado
  Primeiro ele ficou parado, depois deitou a correr no areal ia como se os ventos o aoitassem, como se fugisse das pragas da negrinha. E tinha vontade de se jogar
no mar para se lavar de toda aquela inquietao,a vontade de se vingar dos homens que tinham matado seu pai, o dio que sentia contra a cidade rica que se estendia
do outro lado do mar, na Barra, na Vitria, na Graa, o desespero da sua vida de criana abandonada e perseguida, a pena que sentia pela pobre negrinha, uma criana
tambm.
  Uma criana tambm - ouvia na voz do vento, no samba que cantavam, uma voz dizia dentro dele.

  Aventura de Ogum

  Outra noite, uma noite de inverno, na qual os saveiros no se aventuraram no mar, noite da clera de Yemanj e Xang, quando os relmpagos eram o nico brilho
no cu carregado de nuvens negras e pesadas, Pedro Bala, o Sem-Pernas e Joo Grande foram levar a me-de-Santo, Don'Aninha, at sua casa distante. Ela viera ao trapiche
pela tarde, precisava de um favor deles, e enquanto explicava, a noite caiu espantosa e terrvel.
  -- Ogum esta zangado... - explicou a me-de-Santo Don'Aninha.
  Fora este assunto que trouxera ali. Numa batida num candombl (que se bem no fosse o seu, porque nenhum polcia se aventurava a dar batida no candombl de Aninha,
estava sob a sua proteo) a polcia tinha carregado com Ogum, que repousava no seu altar. Don'Aninha tinha usado da sua fora junto a um guarda para conseguir a
volta do santo.fora mesmo  casa de um professor da Faculdade de Medicina, seu amigo, que vinha estudar a religio negra no seu candombl, pedir que ele conseguisse
a restituio do deus. O professor realmente pensava em conseguir que a policia lhe entregasse a imagem. Mas para juntar  sua coleo de dolos negros e no para
reintegr-la no seu altar no candombl distante. Por isso, por estar Ogum numa sala de detidos na polcia, Xang descarrega os raios nessa noite.
  Por ltimo Don'Aninha veio aonde estavam os Capites da Areia, seus amigos de h muito, porque so amigos da grande (p. 87) me-de-santo todos os negros e todos
os pobres da Bahia. Para cada um ela tem uma palavra amiga e maternal Cura doenas, junta amantes, seus feitios matam homens ruins. Explicou que tinha acontecido
a Pedro Bala. O chefe dos Capites da Areia ia pouco aos candombls, como pouco ouvia as lies do padre Jos Pedro. Mas era
amigo tanto do padre como da Me-de-santo, e entre os Capites da Areia quando se  amigo se serve ao amigo.
  Agora levavam Aninha para sua casa. A noite em torno era tormentosa e colrica. A chuva os curvava sob o grande guarda-chuva branco da Me-de-santo. Os candombls
batiam em desagravo a Ogum e talvez num deles ou em muitos deles Omolu anunciasse a vingana do povo pobre. Don'Aninha disse aos meninos com uma voz amarga:
  -- No deixam os pobres viver... No deixam nem o deus dos pobres em paz. Pobre no pode danar, no pode cantar pra seu deus, no pode pedir uma graa a seu deus
sua voz era amarga, uma voz que no parecia da me-de-santo Don'Aninha. -- No se contentam de matar os pobres a fome... Agora tiram os santos dos pobres... -- alava
os punhos.
  Pedro Bala sentiu uma onda dentro de si. Os pobres no tinham nada. O padre Jos Pedro dizia que os pobres um dia iriam para o reino dos cus, onde Deus seria
igual para todos. Mas a razo jovem de Pedro Bala no achava justia naquilo. No reino do cu seriam iguais.
  Mas j tinham sido desiguais na terra, a balana pendia sempre para um lado.
  As imprecaes da me-de-santo enchiam a noite mais que o rudo dos agogs e atabaques que desagravavam Ogum. Don'Aninha era magra e alta, um tipo aristocrtico
de negra, e sabia levar como
nenhuma das negras da cidade suas roupas de baiana. Tinha o rosto alegre, se bem bastasse um olhar seu para inspirar absoluto respeito. Nisso se parecia com o padre
Jos Pedro. Mas agora estava com um ar
terrvel e suas imprecaes contra os ricos e a polcia enchiam a noite da Bahia e o corao de Pedro Bala.
  Quando a deixaram, rodeada das suas filhas-de-santo, que beijavam sua mo, Pedro Bala prometeu:
  -- Deixa estar, me Aninha, que amanh te trago Ogum.

  (p. 88)

  Ela bateu a mo na cabea loira dele, sorriu. Joo Grande e o Sem-Pernas beijaram a mo da negra. Desceram a ladeira. Os agogs e atabaques ressoavam desagravando
Ogum.
  O Sem-Pernas no acreditava em nada, mas devia favores a Don'Aninha. Perguntou:
  -- O que  que a gente vai fazer? O troo est na polcia..
  Joo Grande cuspiu, estava com certo receio.
  -- No chame Ogum de troo, Sem-Pernas. Ele castiga...
  -- T preso, no pode fazer nada -- riu o Sem-Pernas.
  Joo Grande calou a boca, porque sabia que Ogum era grande demais, mesmo na cadeia podia castigar o Sem-Pernas. Pedro Bala coou o queixo, pediu um cigarro:
  -- Deixa eu matutar. A gente tem que dar conta. A gente garantiu a Aninha. Agora tem que fazer.
  Desceram para o trapiche. A chuva entrava pelos buracos do teto, a maior parte dos meninos se amontoavam nos cantos onde ainda havia telhado. O Professor tentara
acender sua vela, mas o vento
parecia brincar com ele, apagava-a de minuto a minuto. Afinal ele desistiu de ler essa noite e ficou peruando um jogo de sete-e-meio que o Gato bancava, ajudado
por Boa-Vida, num canto. Moedas no cho, mas nenhum rumor desviava Pirulito das suas oraes diante da Virgem e de Santo Antnio.
  Nestas noites de chuva eles no podiam dormir. De quando em vez a luz de um relmpago iluminava o trapiche e ento se viam as caras magras e sujas dos Capites
da Areia. Muitos deles eram to crianas
que temiam ainda drages e monstros lendrios: Se chegavam para junto dos mais velhos, que apenas sentiam frio e sono. Outros, os negros, ouviram no trovo a voz
de Xang. Para todos estas noites de
chuva eram terrveis. Mesmo para o Gato, que tinha uma mulher em cujo seio escondia a jovem cabea, as noites de temporal eram noites
ms. Porque nestas noites homens que na cidade no tm onde reclinar a sua cabea amedrontada, que no tm seno uma cama de solteiro e querem esconder num seio
de mulher o seu temor, pagavam (p. 89) para dormir com Dalva e pagavam bem. Assim o Gato ficava no
trapiche, bancando jogos com seu baralho marcado, ajudado na roubalheira pelo Boa-Vida. Ficavam todos juntos, inquietos, mas ss todavia, sentindo que lhes faltava
algo, no apenas uma cama quente num quarto coberto, mas tambm doces palavras de me ou de irm
que fizessem o temor desaparecer. Ficavam todos amontoados e alguns tiritavam de frio, sob as camisas e calas esmolambadas. Outros tinham palets furtados ou apanhados
em lata de lixo, palets que utilizavam como sobretudo. O Professor tinha mesmo um sobretudo, de to grande arrastava no cho.
  Uma vez, e era no vero, um homem parara vestido com um grosso sobretudo para tomar um refresco numa das cantinas da cidade. Parecia um estrangeiro. Era pelo meio
da tarde e o calor doa nas carnes. Mas o homem parecia no senti-lo, vestido com seu sobretudo
novo. O Professor achou o homem engraado e com cara de sujeito de dinheiro e comeou a fazer um desenho dele (com o sobretudo enorme, maior que o homem, era o prprio
homem o sobretudo) a giz no passeio. E ria de satisfao, porque provavelmente o homem lhe daria uma prata de dois mil-ris. O homem voltou-se na sua cadeira e olhou
o desenho quase concludo. O Professor ria, achava o desenho bom, o sobretudo dominando o homem, era mais que o homem. Mas o homem no gostou da coisa, se deixou
possuir por uma grande raiva, levantou-se da cadeira e deu dois pontaps no Professor. Um atingiu o menino nos rins e ele rolou pela calada gemendo. O homem ainda
meteu o p no seu rosto, dizendo congestionado ao se afastar:
  -- Toma, corneta, para aprender a no fazer burla de um homem.
  E saiu batendo moedas na mo, aps meio apagar com o p o desenho. A garonete veio e ajudou o Professor a se levantar. Olhou com piedade o menino, que apalpava
o lugar dos rins doloridos, olhou o desenho, disse:
  -- Que bruto! At que o retrato estava parecido. .. Um estpido!
  Meteu a mo no bolso onde guardava as gorjetas, tirou uma prata de um mil-ris, quis dar ao Professor. Mas ele recusou com a mo, sabia que ia fazer falta a ela.
Olhou o desenho semi-apagado, seguiu seu caminho ainda com as mos nos rins. Ia quase sem pensar, com um n na garganta. Ele quisera agradar o homem, merecer uma
prata dele. Tivera dois pontaps e palavras brutais. No compreendia.(p.89)
  Por que eram odiados assim na cidade? Eram pobres crianas sem pai, sem me. Por que aqueles homens bem vestidos tanto os odiavam? Foi com sua dor. Mas aconteceu
que no caminho para o trapiche, no
deserto do areal sob o sol, encontrou novamente, minutos depois, o homem de sobretudo. Parecia que ia para um dos navios atracados no porto e levava agora o sobretudo
no brao porque o sol estava abrasador. Professor tirou a navalha (poucas vezes a usava) e se
aproximou do homem. O calor tinha alijado do areal todos os homens e o do sobretudo cortava pela areia para fazer o caminho mais curto para o cais. O Professor foi
silenciosamente por detrs do homem
quando chegou perto tomou a frente com a navalha na mo. A vista do homem tinha transformado a confuso de seus sentimentos num nico sentimento: vingana. O homem
o olhou aterrorizado. O Professor crescia em sua frente com a navalha aberta. Murmurou entre dentes:
  -- Sai, moleque.
  O Professor avanou com a navalha, o homem ficou branco.
  -- Que  isso? Que  isso?-- e mirava todos os lados na esperana de ver algum. Mas s ao longe, nas docas, apareciam perfis de homens. Ento o do sobretudo largou
a correr quando o Professor saltou em cima dele e lhe cortou a mo com a navalha. O sobretudo
ficou abandonado no cho e o sangue caa da mo do homem na areia. O Professor tomou pelo outro lado, ficou um instante sem saber que fazer. No tardaria a vir um
guarda, logo muitos, acompanhando o homem em sua perseguio. Se o navio do homem sasse logo, tudo
estava bem, a perseguio pouco demoraria. Mas se tardasse a sair, com certeza o homem o perseguiria at dar com ele e p-lo no xadrez. Ento o Professor lembrou-se
da garonete. Caminhou para a cantina, do jardim que ficava em frente fez sinal para a garonete. Ela veio e logo compreendeu quando o viu com o sobretudo. O Professor
avisou:
  -- Ele t com um talho na mo.
  Ela riu:
  -- Tu te vingou, hein?
  Levou o sobretudo para a cantina, guardou. O Professor sumiu at que o navio saiu barra afora. Mas de onde estava viu a batida dos guardas pelo areal e pelas ruas
adjacentes. Foi assim que o Professor tinha conseguido aquele sobretudo, que nunca quis vender. Adquirira um sobretudo e muito dio. E tempos depois, quando as suas
pinturas murais admiraram todo o pas (eram motivos de vidas de crianas abandonadas, de velhos mendigos, de operrios e doqueiros que
rebentavam cadeias), notaram que nelas os gordos burgueses apareciam sempre vestidos com enormes sobretudos que tinham mais personalidade que eles prprios.
  Pedro Bala, Joo Grande e o Sem-Pernas entraram no trapiche. Foram para o grupo que jogava em torno ao Gato. Quando eles chegaram, o jogo parou um momento, o Gato
ficou espiando os trs:
  -- Quer topar um sete-e-meio?
  -- Tou com cara de besta? respondeu o Sem-Pernas.
  Joo Grande sentou para espiar, Pedro Bala se afastou com o Professor para um canto. Queria combinar uma maneira de roubar a imagem de Ogum da polcia. Discutiram
parte da noite e j eram onze horas quando Pedro Bala, antes de sair, falou para todos os Capites da Areia:
  -- Minha gente, eu vou fazer um troo difcil. Se eu no aparecer at de manh, vocs fica sabendo que eu tou na polcia e no demoro a t no reformatrio, at
fugir. Ou at vocs me tirar de l...
  E saiu. Joo Grande o acompanhou at a porta. O Professor veio para junto do Gato novamente. Os menores olhavam a partida do chefe com certo receio. Tinham uma
grande confiana em Pedro Bala e sem ele muitos no saberiam como se arranjar.
  Pirulito veio do seu canto, deixara uma orao pelo meio:
  -- O que foi?
  -- Pedro foi fazer um troo difcil. Se no voltar de manh,  que t na chave...
  -- A gente tira ele respondeu Pirulito naturalmente, e nem parecia que minutos antes estava ante um quadro da Virgem rezando pela salvao da sua pequena alma
de ladro. E voltou aos seus santos a rezar por Pedro Bala.

  (p. 93)

  O jogo recomeou. Chuva e raios, troves e nuvens no cu. O frio intenso no trapiche. Gotas de gua caam sobre os meninos que jogavam. Mas o jogo agora era sem
ateno, o prprio Gato se esquecia de ganhar, havia como que uma confuso em todo o trapiche. Durou at que Professor disse:
  -- Eu vou ver as coisas...
  Joo Grande e o Gato foram com ele. Nesta noite foi Pirulito que se deitou na porta do trapiche com o punhal sob a cabea. E perto dele Volta Seca espiava a noite
com sua cara sombria. E pensava em que lugar estaria nesta noite de temporal o grupo de Lampio na imensidade das caatingas. Talvez que nessa noite de temporal lutassem
com a polcia como ia fazer agora Pedro Bala. E Volta Seca pensou que quando Pedro Bala fosse grande como um homem seria to corajoso como Lampio. Lampio era o
dono do serto, das caatingas sem fim. Pedro Bala seria dono da cidade, do casario, das ruas, do cais. E Volta Seca, que era do serto, poderia andar nas caatingas
e nas cidades.
  Porque Lampio era seu padrinho e Pedro Bala seu amigo. Imitou o cocoroc de um galo e isso era sinal de que Volta Seca estava alegre.
  Pedro Bala, enquanto subia a ladeira da Montanha, revia mentalmente seu plano. Fora arquitetado com a ajuda do Professor e era a coisa mais arriscada em que se
metera at hoje. Mas Don'Aninha bem que merecia que um corresse risco por ela. Quando tinha um doente ela trazia remdios feitos com folhas, tratava dele, muitas
vezes curava. E quando aparecia um Capito da Areia no seu terreiro ela o
tratava como a um homem, como a um og, dava-lhe do melhor para comer, do melhor para beber. O plano era arriscado, possivelmente no daria certo, Pedro Bala comeria
cadeia uns dias e terminaria remetido para o reformatrio, onde a vida era pior que vida de co.
  Mas havia uma possibilidade de dar certo, e Pedro Bala jogaria tudo nesta possibilidade. Chegou ao largo do Teatro. A chuva caa e os guardas se abrigavam sob
as capas. Comeou a subir a ladeira de So Bento vagarosamente. Tomou por So Pedro, atravessou o largo da Piedade, subiu o Rosrio, agora estava nas Mercs, diante
da Central de Policia, olhando as janelas, o movimento de guardas e secretas que entravam e saam. De minuto em minuto um bonde passava fazendo rudos nos trilhos,
iluminando ainda mais a rua j bastante iluminada. O guarda amigo de Don'Aninha tinha dito que Ogum estava na sala de detidos, jogado sobre um armrio, em meio a
diversos outros objetos apreendidos em batidas vrias em casas de ladres. Naquela
sala colocavam os que eram presos durante a noite antes de serem ouvidos ou pelo delegado ou pelos comissrios de turno e que depois ou eram remetidos para as prises
ou para a rua. Ali, num canto, a
princpio dentro de um armrio que logo se encheu, depois junto ou sobre ele, colocavam objetos sem valor apreendidos nas batidas policiais. O plano de Pedro Bala
era passar a noite ou parte dela na sala
de detidos e levar ao sair (se conseguisse sair) a imagem de Ogum consigo. Tinha uma grande vantagem: no era conhecido entre a polcia. Mesmo s raros guardas o
conheciam como moleque das ruas, se bem todos os guardas e mesmo alguns investigadores desejassem
ardentemente capturar o chefe dos Capites da Areia. Sabiam dele apenas que tinha aquele talho no rosto e Pedro Bala passou a mo no talho. Mas o pensavam maior
do que era em verdade e tambm faziam a idia de que Pedro Bala devia ser mulato e de mais idade. Se
chegassem a descobrir que ele era o chefe dos Capites da Areia talvez nem para o reformatrio o mandassem. Muito provavelmente iria diretamente para a penitenciria.
Porque do reformatrio se consegue
fugir, mas da penitenciria no  fcil Enfim... --e Pedro Bala andou at o Campo Grande. Mas j no ia com aquele seu passo despreocupado de moleque das ruas da
cidade. Ia agora gingando como um filho de martimo, o bon puxado por causa da chuva, a gola do palet (devia ter sido anteriormente de um homem muito grande) levantada.
  O guarda estava debaixo de uma rvore por causa da chuva. Pedro veio chegando assim como quem tem medo. E quando falou ao guarda, sua voz era a de uma criana
que estava temerosa da noite tempestuosa da cidade.
  -- Seu guarda...
  O guarda olhou:
  -- O que , moleque?
  -- Eu no sou daqui. Eu sou de Mar Grande, vim com meu pai hoje.

  (p.94)

  O guarda no deixou que ele continuasse:
  -- E o que tem isso?
  -- Eu no tenho onde dormir. Queria que o senhor deixasse eu dormir na polcia...
  -- A policia no  hotel, malandro. Desaperta, desaperta... - e fez sinal para que Pedro se afastasse.
  Pedro tentou novamente puxar conversa, mas o guarda o ameaou com o cassetete:
  -- Vai dormir num jardim... Vai embora...
  Pedro saiu com cara de choro. O guarda ficou espiando o menino. Pedro parou no ponto de bonde, esperou. Do primeiro carro no desceu ningum, mas do segundo saltou
um casal. Pedro se atirou em cima da mulher, o homem viu que ele queria abafar a carteira dela,
segurou Pedro por um brao. A coisa fora to mal feita que se um dos Capites da Areia passasse ali sem dvida no reconheceria o seu chefe. O guarda, que via a
cena, j estava junto a eles:
  -- Ento era assim que voc no era daqui? Um moleque ladro.
  Se afastou levando Pedro pelo brao. O menino ia com uma cara entre amedrontada e risonha:
  -- S fiz isso pro senhor me pegar mesmo...
  -- Hein?
  -- Tudo que eu disse  verdade. Meu pai  martimo, tem um saveiro em Mar Grande. Hoje me deixou aqui, no voltou com o temporal. Eu no sei onde dormir, pedi
pra dormir na polcia. O senhor no deixou, eu fiz que ia roubar a mulher s pro senhor me pegar... Agora tenho onde dormir.
  -- E por muito tempo foi a nica resposta do guarda.
  Entraram na Central. O guarda atravessou um corredor, largou Pedro Bala na sala dos detidos. Havia uns cinco ou seis homens. O guarda disse troando:
  -- Agora voc pode dormir, filho da me. E depois que o comissrio chegar vamos ver quanto tempo voc vai dormir aqui...
  Pedro ficou calado. Os outros presos nem ligavam para ele, estavam muito interessados em fazer troa com um pederasta que tinha sido preso e se dizia chamar Mariazinha.
A um canto Pedro (p.95) Bala viu o armrio. A imagem de Ogum estava ao lado, junto de
uma cesta para papis inteis. Pedro se adiantou para ali, tirou o palet, ps sobre a imagem. E enquanto os outros conversavam, enrolou Ogum (no era grande, havia
outras imagens muito maiores) no seu palet e deitou-se no cho. Ps a cabea sobre o embrulho e fez que dormia.
  Os presos daquela noite continuavam a rir com o pederasta, exceto um velho que tremia num canto, Pedro no sabia se de frio ou de medo. Mas ouvia a voz de um negro
jovem que dizia a Mariazinha:
  -- Quem tirou teu cabao?
  -- Ora, me deixe... respondeu o pederasta rindo.
  -- No. Conta. Conta! disseram os outros.
  -- Ah! Foi Leopoldo... Ah!
  O velho continuava a tremer. Um malandro de cara chupada pela tsica percebeu o velho no canto:
  -- Tu por que no vai te enrabar com aquele velhote?
  -- perguntou a Mariazinha, que fez bico.
  -- No t vendo logo que no me passo pra velho. Olhe, no quero mais conversa, no...
  Agora um guarda gozava na porta e o de cara chupada se virou para o velho, que se encolheu todo:
  -- Mas tu bem que gostava se ele lhe desse hoje, hein, tio?
  -- Eu sou um velho... Eu no fiz nada... murmurou o velho, mais que falou. -- No fiz nada, minha filha est me esperando...
  Pedro, que estava de olhos fechados, adivinhou que o velho chorava. Mas continuou fingindo que estava dormindo. Ogum doa nos ossos da sua cabea. Os presos continuavam
a pilheriar com o pederasta e o velho, at que chegou outro guarda e falou para o velho:
  -- Voc, velhote. Vamos...
  -- Eu no fiz nada... falou mais uma vez o velho. - Minha filha est me esperando... se dirigia a todos, guardas e presos. E tremia tanto, que todos tiveram pena
e at o malandro de cara chupada baixou a cabea. S o pederasta sorria.
  O velho no voltou. Depois foi o pederasta. Demorou muito. O de cara chupada explicava que Mariazinha era de boa famlia.

  (p. 97)

  Naturalmente estavam telefonando para casa dele, pedindo que o viessem buscar para no terem que o prender de novo naquela noite. De quando em vez, quando tomava
cocana demais, dava escndalos na rua e era trazido por um guarda. Quando Mariazinha
voltou, foi s para pegar o chapu. Ento viu Pedro Bala deitado e disse:
  -- To novinho este. Mas  um amorzinho...
  Pedro cuspiu de olhos fechados:
  -- Sai, xibungo, antes que eu te pranche a cara...
  Os outros riram, e s ento atentaram em Pedro:
  -- Que  que tu t fazendo aqui, rato de igreja?
  -- O que no  da tua conta, macaqueio... -- respondeu Pedro Bala ao de cara chupada.
  At o guarda riu e explicou para os outros a histria de Pedro. Mas o negro jovem foi chamado e eles ficaram silenciosos. Sabiam que o negro tinha esfaqueado um
homem num blefor nesta noite. Quando o preto voltou trazia as mos inchadas dos bolos. Explicou:
  -- Disse que vou ser processado por ferimentos leves. E me dero duas dzia...
  No conversou mais, procurou um canto, se arriou. Os outros tambm ficaram calados. E foram indo um por um para o despacho do comissrio. Uns eram postos em liberdade,
outros iam para o calabouo, outros voltavam apanhados. O temporal cessara e a madrugada chegava. Pedro foi o ltimo a ser chamado. Deixou o palet onde enrolara
Ogum.
  O comissrio era um jovem advogado que reluzia um rubi no dedo e um charuto no queixo. Quando Pedro entrou com o guarda, pedia caf em voz alta. Pedro ficou diante
da escrivaninha, parado. O guarda disse:
  -- Esse  o menino do roubo no Campo Grande.
  O comissrio fez um sinal com a mo:
  -- Veja se esse caf sai ou no sai...
  O guarda retirou-se. O comissrio leu a parte do guarda que prendera Pedro Bala, olhou o menino:

  (p. 98)

  -- O que  que voc tem a dizer? E no venha me mentir, no.
  Pedro contou com uma voz amedrontada uma histria comprida.
  Que seu pai era saveirista em Mar Grande e naquele dia pela manh viera com o saveiro e o trouxera. Mas voltara em seguida para buscar outra carga e o deixara
na cidade passeando, porque o saveiro tornaria
 Bahia ainda  tardinha e ento ele poderia voltar com seu pai. Mas com o temporal seu pai no tinha podido voltar e ele, que no conhecia ningum, ficou na chuva
sem ter onde dormir. Perguntou a um homem na rua onde poderia dormir, o homem respondera que na
polcia. Ento ele pedira ao guarda que o levasse a dormir na policia, o guarda no deixara, ele fizera ento que ia furtar a mulher s para ser levado, para poder
dormir sob um teto.
  -- Tanto que no roubei e nem fugi... -- concluiu.
  O delegado, que sorvia o caf em golinhos, disse de si para si:
  -- No  possvel que uma criana desta idade inventasse essa histria...
  Depois, como tinha veleidades literrias, murmurou:
  -- Eis a um conto formidvel... e sorriu com bom humor.
  -- Como  o nome de teu pai? -- perguntou a Pedro.
  -- Augusto Santos -- respondeu o menino, dando o nome de um saveirista de Mar Grande.
  -- Se o que voc contou for verdade, eu vou lhe soltar. Mas se voc quis me tapear com essa histria, vai ver...
  Tocou a campainha chamando o guarda. Pedro estava com os nervos todos em tenso. O guarda chegou, o comissrio perguntou se na polcia havia um livro de registro
de saveiristas de Mar Grande que ancoravam no cais do Mercado.
  -- Tem, sim senhor.
  -- V ver se tem um tal Augusto Santos e volte para me dizer. E ande depressa, que minha hora est acabando.
  Pedro Bala olhou para o relgio: marcava cinco e meia da manh. O guarda demorou uns minutos, o comissrio no se ocupou mais de Pedro, que estava de p ante sua
secretria. S quando o guarda voltou e disse: Tem, sim senhor... Hoje mesmo teve no cais, mas voltou logo... -- o comissrio fez um gesto com a mo e falou para
o guarda:

  (p. 99)

  -- Ponha esse moleque em liberdade
  Pedro pediu para ir buscar seu palet. Acomodou debaixo do brao, nem parecia trazer a imagem envolvida nele. Atravessaram o corredor novamente, o guarda o deixou
na porta. Pedro tomou para o largo dos Aflitos, rodeou o velho quartel, desabou pela Gamboa de Cima. Agora ia correndo, mas ouviu passos atrs de si. Parecia que
o perseguiam. Olhou. Professor, Joo Grande e o Gato vinham atrs dele. Esperou que eles chegassem e perguntou curioso:
  -- Que  que vocs tava fazendo por estas bandas?
  O Professor coou a cabea:
  -- No v que a gente saiu agora cedo. E veio vindo por aqui, andando sem que fazer, foi quando topou com tu, que vinha desabalado..
  Pedro abriu o palet, mostrou a imagem de Ogum. Joo Grande riu com satisfao:
  -- Como foi que tu tapeou eles?
  Foram descendo a ladeira escorregadia da chuva. E Pedro Bala ia narrando as aventuras da noite. O Gato perguntou:
  -- Tu no teve nem um pingo de medo?
  Primeiro Pedro Bala pensou em dizer que no, depois confessou:
  -- Pra falar verdade, tive um cagao da desgraa...
   E riu da cara gozada que Joo Grande fazia. O cu agora estava azul, sem nuvens, o sol brilhava e da ladeira eles viam os saveiros que partiam do cais do Mercado.

  (p. 100)

  Deus sorri como um negrinho
  O menino era tentao por demais grande.
  Nem parecia um meio-dia de inverno. O sol deixava cair sobre ruas uma claridade macia, que no queimava, mas cujo calor acariciava como a mo de uma mulher. No
jardim prximo as flores desabrochavam em cores. Margaridas e onze-horas, rosas e cravos, dlia e
violetas. Parecia haver na rua um perfume bom, muito sutil, mas que Pirulito sentia entrar nas suas narinas e como que embriag-lo. Tinha comido na porta de uma
casa de portugueses ricos as sobras de almoo que fora quase um banquete. A criada, que lhe trouxera o prato cheio, dissera, mirando as ruas, o sol de inverno, os
homens que passavam sem capa:
  -- T fazendo um dia lindo.
  Essas palavras foram com Pirulito pela rua. Um dia lindo, e o menino ia despreocupado, assoviando um samba que lhe ensinara o Querido-de-Deus, recordando que o
padre Jos Pedro prometera tudo fazer para 1he conseguir um lugar n o seminrio. Padre Jos Pedro lhe dissera que toda aquela beleza que caa envolvendo a terra
e homens era um presente de Deus e que era preciso agradecer a Deus. Pirulito mirou o cu azul onde Deus devia estar e agradeceu num sorriso e pensou que Deus era
realmente bom. E pensando em Deus pensou tambm nos Capites da Areia. Eles furtavam, brigavam nas ruas, xingavam nomes, derrubavam negrinhas no areal, por vezes
feriam com navalhas ou punhal homens e polcias. Mas, no entanto, eram bons, uns eram amigos dos outros. Se faziam tudo aquilo  que no tinham casa, nem pai, nem
me, a vida deles era uma vida sem ter (p. 101) comida certa e dormindo num casaro quase sem teto. Se no fizessem tudo aquilo morreriam de fome, porque eram raras
as casas que davam de comer a um, de vestir a outro. E nem toda a cidade poderia dar a todos. Pirulito pensou que todos estavam condenados ao inferno. Pedro Bala
no acreditava no inferno, Professor tampouco, riam dele.
  Joo Grande acreditava era em Xang, em Omolu, nos deuses dos negros que vieram da frica. O Querido-de-Deus, que era um pescador valente e um capoeirista sem
igual, tambm acreditava neles, misturava-os com os santos dos brancos que tinham vindo da Europa. O padre Jos Pedro dizia que aquilo era superstio, que era coisa
errada, mas que a culpa no era deles. Pirulito se entristeceu na beleza do dia. Estariam todos condenados ao inferno? O inferno era um lugar de fogo eterno, era
um lugar onde os condenados ardiam uma vida que nunca acabava. E no inferno havia martrios desconhecidos mesmo na polcia, mesmo no reformatrio de menores. Pirulito
vira h poucos dias um frade alemo que descrevia o inferno num sermo na Igreja da Piedade. Nos bancos, homens e mulheres recebiam as palavras de fogo do frade
como chicotadas no lombo. O frade era vermelho e de seu rosto pingava o suor. Sua lngua era atrapalhada e dela o inferno saa mais terrvel ainda, as labaredas
lambendo os corpos que foram lindos na terra e se entregaram ao amor, as mos que foram geis e se entregaram ao furto, ao manejo do punhal e da navalha. Deus no
sermo do frade era justiceiro e castigador, no era o Deus dos dias lindos do padre Jos Pedro. Depois explicaram a
  Pirulito que Deus era a suprema bondade, a suprema justia. E Pirulito envolveu seu amor a Deus numa capa de temor a Deus e agora vivia entre os dois sentimentos.
Sua vida era uma vida desgraada de menino abandonado e por isso tinha que ser uma vida de pecado, de furtos quase dirios, de mentiras nas portas das casas ricas.
Por isso na beleza do dia Pirulito mira o cu com os olhos crescidos de medo e
pede perdo a Deus to bom (mas no to justo tambm... ) pelos seus pecados e os dos Capites da Areia. Mesmo porque eles no tinham culpa. A culpa era da vida...
  O padre Jos Pedro dizia que a culpa era da vida e tudo fazia para remediar a vida deles, pois sabia que era a nica maneira de fazer com que eles tivessem uma
existncia limpa. Porm uma tarde em que estava o padre e estava o Joo de Ado, o doqueiro disse que a culpa (p. 102) era da sociedade mal organizada, era dos ricos...
Que enquanto tudo no mudasse, os meninos no poderiam ser homens de bem. E disse que o padre Jos Pedro nunca poderia fazer nada por eles porque ricos no deixariam.
O padre Jos Pedro naquele dia tinha ficado muito triste, e quando Pirulito o foi consolar, explicando que ele no ligasse ao que Joo de Ado dizia, o padre respondeu
balanando a cabea magra.
  -- Tem vezes que eu chego a pensar que ele tem razo, que isso tudo est errado. Mas Deus  bom e saber dar o remdio...
  Padre Jos Pedro achava que Deus perdoaria e queria ajud-los. E como no encontrava meios, e sim uma barreira na sua frente(todos queriam tratar os Capites da
Areia ou como a criminosos ou como crianas iguais quelas que foram criadas com um lar e uma famlia) ficava como que desesperado, por vezes ficava atarantado.
Mas esperava que Deus o inspirasse um dia e at l ia acompanhando meninos, conseguindo por vezes evitar atos de malvadeza das crianas. Fora mesmo ele um dos que
mais concorreram para exterminar
a pederastia no grupo. E isto foi uma das suas grandes experincias no sentido de como agir para tratar com os Capites da Areia. Enquanto ele lhes disse que era necessrio
acabar com o pecado, uma coisa imoral e feia, os meninos riram nas suas costas e continuaram a dormir com os mais novos e bonitos. Mas no dia em que o padre, desta vez ajudado
pelo querido-de-deus, afirmou que aquilo era coisa indigna num homem, fazia um homem igual a uma mulher, pior que uma mulher, Pedro Bala tomou medidas violentas,
expulsou os passivos do grupo. E por mais que o padre fizesse no os quis mais ali.
  -- Se eles voltar, a safadeza volta, padre.
  Por assim dizer, Pedro Bala arrancou a pederastia entre os Capites da Areia como um mdico arranca um apndice doente do corpo de um homem. O difcil para o padre
Jos Pedro era conciliar as coisas. Mas ia tenteando e por vezes sorria satisfeito dos resultados.
  A no ser quando Joo de Ado ria dele e dizia que s a revoluo acertaria tudo aquilo. L em cima, na cidade alta, os homens ricos e as mulheres queriam que
os Capites da Areia fossem para as prises para o reformatrio, que era pior que as prises. L embaixo, nas docas, Joo de Ado queria acabar com os ricos, fazer
tudo igual, dar (p. 103) escola aos meninos. O padre queria dar casa, escola, carinho e conforto aos meninos sem a revoluo, sem acabar com os ricos. Mas de todos
os lados era uma barreira. Ficava como perdido e pedia a Deus que o inspirasse. E com certo pavor via que, quando pensava no problema, dava, sem sequer o sentir,
razo ao doqueiro Joo de Ado. Ento era possudo de temor, porque no fora assim que lhe haviam ensinado, e rezava horas seguidas para que Deus o iluminasse.
  Pirulito fora a grande conquista do padre Jos Pedro entre os Capites da Areia. Tinha fama de ser um dos mais malvados do grupo, contavam dele que uma vez pusera
o punhal na garganta de um menino que no queria lhe emprestar dinheiro e o fora enfiando devagarinho, sem tremer, at que o sangue comeou a correr e o outro lhe
deu tudo que queria. Mas contavam tambm que outra vez cortou de navalha a Chico Banha quando o mulato torturava um gato que se aventurara no trapiche atrs dos
ratos. No dia que o padre Jos Pedro comeou a falar de Deus, do cu, de Cristo, da bondade e da piedade, Pirulito comeou a mudar. Deus o chamava e ele sentia sua
voz poderosa no trapiche. Via Deus nos seus sonhos e ouvia o chamado de
  Deus de que falava o padre Jos Pedro. E se voltou de todo para Deus, ouvia a voz de Deus, rezava ante os quadros que o padre lhe dera. No primeiro dia comearam
a mofar dele no trapiche. Ele espancou um dos menores, os outros se calaram. No outro dia o padre disse que ele fizera mal, que era preciso sofrer por Deus, e Pirulito
ento dera a sua navalha quase nova ao menino a que espancara. E no espancara mais nenhum, evitava as brigas e se no evitava os furtos era que aquilo era o meio
de vida que eles tinham, no tinham mesmo outro. Pirulito sentia o chamado de Deus, que era intenso, e queria sofrer por Deus. Ajoelhava horas e horas no trapiche,
dormia no cho nu, rezava
mesmo quando o sono o queria derrubar, fugia das negrinhas que ofereciam o amor na areia quente do cais. Mas ento amava Deus-pura-bondade e sofria para pagar o
sofrimento que Deus passara na terra. Depois veio aquela revelao de Deus justia (para Pirulito
ficou Deus-vingana) e o temor de Deus invadiu o seu corao e se misturou ao amor de Deus. Suas oraes foram mais longas, o terror do inferno se misturava  beleza
de Deus. Jejuava dias inteiros e sua face ficou macilenta como a de um anacoreta. Tinha olhos de  mstico e pensava ver Deus nas noites de sonho. Por isso conservava
seus olhos (p. 104) afastados das ndegas e seios das negrinhas que andavam como que
danando ante os olhos de todos nas ruas pobres da cidade. Sua esperana era um dia ser sacerdote do seu Deus, viver s para a sua contemplao, viver s para Ele.
A bondade de Deus fazia com que ele esperasse consegu-lo. O temor de Deus vingando-se dos pecados de Pirulito fazia com que ele desesperasse.
  E  esse amor e esse temor que fazem Pirulito indeciso ante a vitrina nesta hora de meio-dia, cheia de beleza. O sol  brando e claro, as flores desabrocham no
jardim, vem uma calma e uma paz de todos os lados. Mas, mais belo que tudo  a imagem da Conceio com o
  Menino, que est na prateleira daquela loja de uma s porta. Na vitrina, quadros de santos, livros de oraes em encadernaes luxuosas, teros de ouro, relicrios
de prata. Mas dentro, bem na ponta da
prateleira que chega at a porta, a imagem da Virgem da Conceio estende o Menino para Pirulito. Pirulito pensa que a Virgem est a lhe entregar Deus, Deus criana
e nu, pobre como Pirulito. O escultor fez o Menino magro e a Virgem triste da magreza do seu Menino, mostr-lo aos homens gordos e ricos. Por isso a imagem est
ali e no se vende. O Menino nas imagens  sempre gordo, um ar de menino rico, um Deus Rico. Ali  um Deus Pobre, um menino pobre, mesmo igual a Pirulito, ainda
mais igual queles mais novos do grupo
exatamente igual a um de colo, de poucos meses de idade, que ficou abandonado na rua no dia que sua me morreu de um ataque, quando levava nos braos, e que Joo
Grande trouxe para o trapiche, onde ficou at o fim da tarde (os meninos vinham e espiavam e riam do
  Professor e do Grande, afobados para arranjar leite e gua para o beb quando a me-de-santo Don'Aninha viera e o levara consigo, recostado ao seu seio. S que
aquele era um menino negro e o Menino branco. No mais a parecena  absoluta. At uma cara de choro tem o Menino, magro e pobre, nos braos da Virgem. E esta o oferece
a Pirulito, aos carinhos de Pirulito, ao amor de Pirulito. L fora o dia  lindo, o sol  brando, as flores desabrocham. S o Menino tem fome e frio neste dia. Pirulito
o levar consigo para o trapiche dos Capites da Areia. Rezar para ele, cuidar dele, o alimentar com seu amor. No vem que, ao contrrio de todas as imagens,
ele no est preso nos braos da Virgem, est solto nas suas mos, ela o est  oferecendo ao carinho de Pirulito? Ele d um passo. Dentro da loja s uma senhorita (p.
105) espera os fregueses, pintando os lbios com uma nova marca de batom.  faclimo levar o Menino. Pirulito estende o p noutro passo, mas o temor de Deus o assalta,
E fica parado, pensando.
  Ele tinha jurado a Deus, no seu temor, que s furtaria para comer ou quando fosse uma coisa ordenada pelas leis do grupo, um assalto para o qual fosse indicado
por Pedro Bala. Porque ele pensava que trair as leis (nunca tinham sido escritas, mas existiam na conscincia de cada um deles) dos Capites da Areia era um pecado
tambm. E agora ia furtar s para ter o Menino consigo, aliment-lo com seu carinho. Era um pecado, no era para comer, para matar o frio, nem para cumprir as leis
do grupo. Deus era justo e o castigaria,lhe daria o fogo do inferno. Suas carnes arderiam, suas mos que levassem o Menino queimariam durante uma vida que nunca
acabava. O Menino era do
dono da loja. Mas o dono da loja tinha tantos Meninos, e todos gordos, e rosados, no iria sentir falta de um s, e de um magro e friorento! Os outros estavam com
o ventre envolto em panos caros, sempre panos azuis, mas de rica fazenda. Este estava totalmente nu, tinha frio no ventre, era magro, nem do escultor tivera carinho.
E a Virgem o oferecia a Pirulito, o Menino estava solto nos braos dela... O dono da loja tinha tantos Meninos, tantos. . . Que falta lhe faria este? Talvez nem
se importasse, talvez at se risse quando soubesse que haviam furtado aquele Menino que nunca tinha conseguido vender, que estava solto nos braos da Virgem, diante
do qual as beatas que vinham comprar diziam horrorizadas:
  -- Este no... Ele  to feio, Deus me perdoe... E ainda por cima solto dos braos de Nossa Senhora. Cai no cho e pronto. Esse no...
  E o Menino ia ficando. A Virgem o oferecia ao carinho dos que passavam, mas ningum o queria. As beatas no queriam lev-lo para seus oratrios, onde havia Meninos
calados de sandlias de ouro, com coroa de ouro na cabea. S Pirulito viu que o Menino tinha fome e sede, tinha frio tambm e quis lev-lo. Mas Pirulito no tinha
dinheiro e tampouco tinha o costume de comprar as coisas. Pirulito podia lev-lo consigo, podia dar ao Menino que comer, que beber, que vestir, tudo tirado do seu
amor a Deus. Mas se o fizesse, Deus o castigaria, o fogo do inferno comeria, durante uma vida que nunca acabava, suas mos que levassem o Menino, sua cabea que
pensava em levar o Menino. Ento Pirulito lembrou-se que s o pensar j era

  (p. 106)

pecado. Que se pecava s de pensar em cometer o pecado. O frade alemo dissera que muitas vezes um estava pecando e nem o sabia porque estava pecando com o pensamento.
Pirulito estava pecando, sentiu que estava pecando, teve medo de Deus e deitou a correr para no continuar a pecar. Mas no correu muito, ficou na esquina, pde
se afastar para longe da imagem. Olhou outras vitrines, assim no pecava. Meteu as mos no bolso (prendia as mos...), desviou pensamento. Mas agora os homens que
volviam ao trabalho aps o almoo passavam na sua frente e um pensamento o assaltou: dentro em pouco os outros empregados da loja voltariam e ento seria impossvel
levar o Menino. Seria impossvel... E Pirulito voltou
 frente da loja de objetos religiosos.
  L estava o Menino, e a Virgem o oferecia a Pirulito. Um relgio deu a primeira hora da tarde. No tardariam a voltar os outros empregados. Quantos seriam? Mesmo
que fosse somente um, a loja era to pequena que ficaria impossvel levar o Menino. Parece que  a Virgem que est lhe dizendo isso. Que  a Virgem a lhe dizer que
se ele no levar o Menino agora no o poder levar mais, parece que est mesmo dizendo isso. E com certeza foi ela, sim, foi ela quem fez com que a senhorita entrasse
pela cortina que tem no fundo da loja e a deixasse sozinha. Sim, foi a Virgem, que agora estende o Menino para Pirulito o quanto podem seus braos e o chama com
sua doce voz:
  -- Leve e cuide dele...
  Cuide bem...
  Pirulito avana. V o inferno, o castigo de Deus, suas mos e cabea a arder uma vida que nunca acaba. Mas sacode o corpo como que jogando longe a viso, recebe
o Menino que a Virgem lhe entrega, o encosta ao peito e desaparece na rua.
  No olha o Menino. Mas sente que agora, encostado ao seu peito, o Menino sorri, no tem mais fome nem sede nem frio. Sorri o Menino como sorria o negrinho de poucos
meses quando se encontrou no trapiche e viu que Joo Grande lhe dava leite s colheradas com suas mos enormes, enquanto o Professor o sustinha encostado ao calor
do seu peito.
  Assim sorri o Menino.

  (p. 107)

  Famlia

  Foi Boa-Vida que contou a Pedro Bala que naquela casa da Graa tinha coisa de ouro de fazer medo. O dono da casa, pelo jeito, parecia colecionador, o Boa-Vida
tinha ouvido um malandro dizer que na casa havia uma sala entupida de objetos de ouro e prata que no emprego haviam de dar uma fortuna.  tarde Pedro Bala foi com
o Boa-Vida ver a casa. Era um prdio moderno e elegante, jardim na frente, garagem ao fundo, espaosa residncia de gente rica. O Boa-Vida cuspiu por entre os dentes,
desenhando uma flor no passeio com o cuspe, e disse:
  -- E dizer que nesse mundo s mora dois velhos, hein?
  -- Toca batuta... -- comentou Pedro Bala.
  Uma empregada abriu a porta da frente, saiu para o jardim. No hall, que ficou  vista, eles perceberam quadros pela parede, estatuetas sobre as mesas. Pedro Bala
riu:
  -- Se o Professor visse isso ficava doidinho... Nunca vi tanto pegadio com livro e pintura.
  -- Ele vai fazer uma pintura como eu, deste tamanho... e Boa-Vida mostrava o tamanho separando as mos uma da outra.
  Pedro Bala olhou mais uma vez a casa, se acercou um pouco do jardim, assoviando. A empregada colhia flores e os seios alvos apareciam sob o decote, pois ela estava
curvada. Pedro Bala espiou. Eram seios alvos terminando em bicos vermelhos. Boa-Vida suspirou ao seu lado.
  -- Que montanha, Bala.
  -- Cala a boca.
  Mas a empregada j os vira e os olhava como a perguntar o que desejavam. Pedro Bala sacou o bon e pediu:
  -- Podia dar uma caneca de gua  gente, por favor? O sol encalistrando... -- e sorria, limpando com o bon a testa, onde o suor corria. Estava muito vermelho
sob o sol, seus cabelos loiros crescidos desabando sobre as orelhas em ondas maltratadas, e a empregada mirou com simpatia. Ao lado Boa-Vida fumava uma ponta de
charuto, com um p em cima da gradezinha do jardim. A criada primeiro falou para Boa-Vida com desprezo:
  -- Tira esta pata da de cima...
  Depois sorriu para Pedro Bala:
  -- Trago a gua j...
  Voltou com dois copos d'gua e eram copos como eles nunca tinham visto de to bonitos. Beberam a gua, Pedro Bala agradeceu
  -- Muito obrigado... e baixinho lindeza.
  A empregada falou tambm baixinho:
  -- Frangote atrevido...
  -- Que hora tu sai daqui?
  -- Te repara. Tenho meu homem. Ele me espera s nove horas da noite naquela esquina...
  -- Pois hoje tou na outra...
  Saram pela rua, Boa-Vida fumando sua ponta de charuto, abanando o rosto com o chapu-coco que usava. Pedro Bala, comentou:
  -- Eu sou  mesmo simptico... Aquela t no papo...
  Boa-Vida cuspiu novamente entre os dentes:
  -- Tambm com essa cabeleira de mulher, toda cheia de
cachos...
  Pedro Bala riu, mostrou o punho fechado ao Boa-Vida:
  -- Deixa de inveja, mulato pachola...
  Boa-Vida desviou a conversa: souber onde fica os troo melhor a gente vem, uns cinco ou seis, tira
  O ourame...
  -- E tu perde a comida?
  -- A criada? Como hoje mesmo... Nove horas tou firme a...
  Voltou-se. Olhou a casa. A criada se debruava na grade, Pedro Bala deu adeus. Ela respondeu, Boa-Vida cuspiu:
  --  peste de sorte, nunca vi...
  No outro dia, por volta de onze e meia da manh, o Sem-Pernas apareceu em frente  casa. Quando ele tocou a campainha a empregada com certeza ainda pensava na
noite que passara com Pedro Bala no seu quarto no Garcia, porque no ouviu o tilintar. O menino tocou de novo e na janela de um quarto do primeiro andar assomou
a cabea grisalha de uma senhora, que mirou com os olhos apertados ao Sem-Pernas:
  -- Que , meu filho?
  -- Dona, eu sou um pobre rfo...
  A senhora fez com a mo sinal que ele esperasse e dentro de poucos minutos estava no porto sem ouvir sequer as desculpas da empregada por no ter atendido  porta:
  -- Pode dizer, meu filho olhava os farrapos do Sem-Pernas.
  -- Dona, eu no tenho pai, faz s poucos dias que minha me foi chamada pro cu -- mostrava um lao preto no brao, lao que tinha sido feito com a fita do chapu
novo do Gato, que se danara. -- No
tenho ningum no mundo, sou aleijado, no posso trabalhar muito, faz dois dias que no vejo de comer e no tenho onde dormir.
Parecia que ia chorar. A senhora olhava muito impressionada:
  -- Voc  aleijado, meu filho?
  O Sem-Pernas mostrou a perna capenga, andou na frente da senhora forando o defeito. Ela o fitava com compaixo:
  -- De que morreu sua me?

  (p. 110)

  -- Mesmo no sei. Deu uma coisa esquisita na pobre, uma febre de mau agouro, ela bateu a caoleta em cinco dias. E me deixou s no mundo... Se eu ainda agentasse
o repuxo do trabalho, ia me arranjando. Mas com esse aleijo s mesmo numa casa de famlia... A senhora no t precisando de um menino pra fazer compra, ajudar no trabalho
da casa? Se t, dona...
  E como o Sem-Pernas pensasse que ela ainda estava indecisa completou com cinismo, uma voz de choro:
  -- Se eu quisesse me metia a com esses meninos ladro. Com os tal de Capites da Areia. Mas eu no sou disso, quero  trabalhar.S que no agento um trabalho
pesado. Sou um pobre rfo, tou com fome...
  Mas a senhora no estava indecisa. Estava era se lembrando seu filho, que tinha morrido com a idade daquele e que ao morrer matara toda a sua alegria e a do marido.
Este ainda tinha as suas colees de obras de arte, mas ela tinha apenas a recordao daquele filho que a deixara to cedo. Por isso olha o Sem-Pernas, esfarrapado,
com um grande carinho e ao lhe falar sua voz tem uma doura diferente da de sempre. H como que um pouco de alegria na doura da sua voz, e isso espanta a criada:
  -- Entre, meu filho. Deixe estar que vou arranjar um trabalho para voc... -- ps a mo fina e aristocrtica, onde brilhava solitrio, na cabea suja do Sem-Pernas
e falou para a criada: -- Maria Jos, prepare o quarto de cima da garagem para este menino.
  Mostre o banheiro a ele, d um roupo de Raul, depois d comida a ele...
  -- Antes de botar o almoo, dona Ester?
  -- Antes, sim. Faz dois dias que ele no come, pobrezinho...
  O Sem-Pernas nada dizia, apenas secava com as costas da mo lgrimas fingidas.
  -- No chore... -- falou a senhora, e acariciou o rosto da criana.
  -- A senhora  to boa. Deus lhe paga...
  Depois perguntou como ele se chamava, e o Sem-Pernas deu o primeiro nome que lhe passou pela cabea:
  -- Augusto... -- e como repetia o nome para si mesmo, para no se esquecer que se chamava Augusto, no viu no primeiro momento a emoo da senhora, que murmurava:
  -- Augusto, o mesmo nome...
  Disse em voz alta, porque agora o Sem-Pernas olhava seu rosto emocionado:
  -- Meu filho tambm se chamava Augusto... Morreu quando tinha assim o seu tamanho... Mas entre, meu filho, v se lavar para comer.
  Dona Ester o acompanhou comovida. Viu que a empregada
mostrava o banheiro ao Sem-Pernas, dava-lhe um roupo e se dirigia para o quarto em cima da garagem para arrum-lo (o chofer tinha se despedido, o quarto estava
vazio). Dona Ester se aproximou, disse ao Sem-Pernas que parara na porta do banheiro:
  -- Pode jogar essas roupas fora. Maria Jos depois vai lhe trazer roupa...
  O Sem-Pernas agora olhava a senhora que desaparecia, e tinha raiva, mas no sabia se era dela ou de si mesmo.
  Dona Ester sentou-se em frente ao seu penteador, ficou com os olhos parados, quem a visse pensaria que ela olhava o cu atravs da janela. Porm, em verdade, ela
nada olhava, nada via. Olhava, sim, para dentro de si, para as suas recordaes de muitos anos, e via um menino da idade do Sem-Pernas, vestido com uma roupa de
marinheiro, correndo no jardim da outra casa, da qual se mudaram depois que ele morreu. Era um menino cheio de vida e de alegria, gostava de rir e de saltar. Quando
se cansava de correr com o gato, de montar na gangorra do jardim, de jogar a bola de borracha no quintal para o co lobo a apanhar, vinha e passava os braos em
torno ao colo de dona Ester, a beijava no rosto e ficava com ela, vendo livros de figuras, aprendendo a ler e a desenhar as letras. Para t-lo junto a si o maior
tempo possvel dona Ester e o marido resolveram ensinar ao filho as primeiras letras mesmo em casa. Um dia (e os olhos de dona Ester se
enchem de lgrimas) veio a febre. Depois o pequeno caixo saiu pela porta (p. 112) e ela o olhava de olhos espantados, no podia compreender que seu filho houvesse morrido.
O retrato dele ampliado num quadro no seu quarto, mas uma cortina o cobre sempre, porque ela no gosta de rever a face do filho para no renovar sua angstia. Tambm
roupas que ele usou esto todas trancadas na sua pequena mala jamais buliram nela. Mas agora dona Ester tira as chaves da sua caixa de jias.
  E, lentamente, muito lentamente, se dirige para onde est a mala. Puxa uma cadeira na qual senta. Abre com mos trmulas a maleta. Mira as calas e blusas, a roupa
de marinheiro, os pequenos pijamas e camisolas com que ele dormia. Aperta a roupa de marinheiro ao peito como se abraasse seu filho. As lgrimas rebentam.
  Agora um menino pobre e rfo viera bater  sua porta. Depois da morte de seu filho ela no quisera ter outro, no gostava mesmo de ver e brincar com crianas
para no avivar a dor das suas recordaes. Mas um, pobre e rfo, aleijado e triste, que se dissera chamar Augusto como seu filho, batera em sua porta pedindo po,
pousada e carinho. Por isso ela tem coragem de abrir a mala onde guarda roupas que seu filho usou. Por isso tira esta roupa azul de marinheiro, a roupa da qual ele
mais gostava. Porque para dona Ester seu filho voltou hoje na figura desta criana andrajosa e aleijada, sem pai, sem me. Seu filho voltou e suas lgrimas no so
apenas de dor. Voltou seu filho macilento e esfomeado, com uma perna aleijada e vestido de farrapos. Mas em breve ser novamente o Augusto alegre e feliz daqueles
anos passados, e novamente vir e passar os braos em torno ao seu pescoo e ler as grandes letras da cartilha.
  Dona Ester se levanta. Leva consigo a roupa azul de marinheiro. E  vestido com ela que o Sem-Pernas come o melhor almoo da sua vida.
  Se a roupa de marinheiro tivesse sido feita de propsito para ele no estaria to bem. Estava perfeita no Sem-Pernas e quando ele se olhou no espelho da sala quase
no se reconheceu. Estava lavado, a empregada tinha posto brilhantina no seu cabelo e perfume no seu rosto. A roupa de marinheiro era um a beleza. O Sem-Pernas se
mirava (p. 113) no espelho. Passou a mo na cabea, depois no peito alisando a roupa, sorriu pensando no Gato. Daria muito para que o Gato o visse to elegante.
Tinha tambm sapatos novos, mas a verdade  que os sapatos o desgostavam um pouco porque tinham um lao de fita,
pareciam um pouco sapatos de mulher. O Sem-Pernas achava esquisito estar vestido de marinheiro com sapatos de mulher. Andou para o jardim, pois queria fumar, nunca
tinha deixado de tragar o seu cigarro aps o almoo. Por vezes no havia almoo, mas havia sempre uma ponta de cigarro ou de charuto. Ali era preciso cuidado, no
podia fumar abertamente. Se o houvessem deixado na cozinha de mistura com a criadagem, como o deixavam nas outras casas onde penetrara para depois roubar, poderia
fumar, conversar na lngua de poucos termos dos Capites da Areia. Mas desta vez o tinham lavado, vestido de novo, posto brilhantina no seu cabelo e perfume no rosto.
Depois
tinham lhe dado comida na sala de jantar. E durante o almoo a senhora conversara com ele como se ele fosse um menino bem criado. Agora mandara que ele brincasse
no jardim, onde o gato amarelo que se chamava Berloque esquentava ao sol. O Sem-Pernas chega para um banco, tira do bolso o mao de cigarros baratos. Quando  mudara
a roupa no se esquecera dos cigarros. Acende um e comea a saborear as tragadas, pensando na sua nova vida. Muitas vezes j fizera aquilo: penetrar em casa de uma
famlia como um menino pobre, rfo e aleijado e neste ttulo passar os dias necessrios para fazer um reconhecimento completo da casa, dos lugares onde guardavam
os objetos de valor, das sadas fceis para uma fuga. Depois os Capites da Areia invadiam a casa numa noite, levavam os objetos valiosos, e no trapiche o Sem-Pernas
gozava invadido por uma grande alegria, alegria da vingana. Porque naquelas casas, se o acolhiam, se lhe davam comida e dormida, era como cumprindo uma obrigao
fastidiosa. Os donos da casa evitavam se aproximar dele, e o deixavam na sua sujeira, nunca tinham uma palavra boa para ele. Olhavam-no sempre como a perguntar quando
ele iria. E muitas vezes a senhora que se comovera com a sua histria, contada na porta em voz soluante, e o acolhera, mostrava evidentes sinais de arrependimento.
  Para o Sem-Pernas elas o acolhiam de remorso. Porque o Sem-Pernas achava que eles eram todos culpados da  situao de todas as crianas pobres. E odiava a todos,
com um dio profundo. Sua grande e quase nica alegria era calcular o desespero das famlias aps o roubo, ao (p. 114) pensar que aquele garoto esfomeado a quem
tinham dado comida quem fizera o reconhecimento da casa e indicara a outras crianas esfomeadas onde estavam os objetos de valor.
  Mas desta vez estava sendo diferente. Desta vez no o deixaram na cozinha com seus molambos, no o puseram a dormir no quintal. Deram-lhe roupa, um quarto, comida
na sala de jantar. Era como hspede, era como um hspede querido. E fumando o seu cigarro escondido(o Sem-Pernas pergunta a si mesmo por que est se escondendo para
fumar), o Sem-Pernas pensa sem compreender. No compreende nada do que se passa. Sua cara est franzida. Lembra os dias da cadeia, a surra que lhe deram, os sonhos
que nunca deixaram de persegui-lo. E, de sbito, tem medo de que nesta casa sejam bons para ele. Sim, um grande medo de que sejam bons para ele. No sabe mesmo por
qu, mas tem medo. E levanta-se, sai do seu esconderijo e vai fumar bem por baixo da janela da senhora. Assim vero que  um menino perdido, que no merece um quarto,
roupa nova, comida na sala de jantar. Assim o mandaro para a cozinha, ele poder levar para diante sua obra de vingana, conservar o dio no seu corao. Porque
se esse dio desaparecer, ele morrer, no ter nenhum motivo para viver. E diante dos seus olhos passa a viso do homem de colete que v os soldados a espancar
o Sem-Pernas e ri numa gargalhada brutal. Isso h de impedir sempre o Sem-Pernas de ver o rosto bondoso de dona Ester, o gesto protetor das mos do padre Jos Pedro,
a solidariedade dos msculos grevistas do estivador Joo de Ado. Ser sozinho e seu dio alcana a todos, brancos e negros, homens e mulheres, ricos e pobres. Por
isso teme que sejam bons para consigo.
  Pela tarde o dono da casa, Raul, chegou do seu escritrio. Era advogado de muito nome, enriquecera na profisso, era catedrtico na Faculdade de Direito, mas antes
de tudo era um colecionador. Tinha uma boa galeria de quadros e tinha moedas antigas, obras raras de arte. O Sem-Pernas viu quando ele entrou. Neste momento o Sem-Pernas
via as gravuras de um livro para crianas e ria sozinho do elefante tolo a quem o macaco enganava. Raul no o viu, subiu as escadas. Mas depois a empregada veio
chamar o Sem-Pernas e o levou ao quarto de (p. 115) dona Ester. Raul ali estava de manga a de camisa, fumando um cigarro e olhou o menino com um sorriso divertido,
j que o Sem-Pernas
mostrava uma cara muito atrapalhada na entrada do quarto:
  -- Passe...
  O Sem-Pernas entrou capengando, no tinha onde botar as mos. Dona Ester falou com bondade:
  -- Sente, meu filho, no tenha medo, no...
  O Sem-Pernas sentou-se na ponta de uma cadeira e ficou
esperando. O advogado o estudava, mirando seu rosto, mas era com simpatia, e o Sem-Pernas preparava as respostas para as inevitveis perguntas. Contou novamente
a histria inventada pela manh, mas quando comeou a chorar abundantes lgrimas o advogado mandou
que ele parasse e se levantou, dirigindo-se  janela. O Sem-Pernas compreendeu que ele estava comovido, e este resultado da sua arte o fez ficar orgulhoso. Sorriu
s para si. Mas agora o advogado se aproximava de dona Ester e a beijava na testa e depois nos lbios. O Sem-Pernas baixou os olhos. Raul andou at ele, botou a
mo no seu ombro e falou:
  -- Deixe estar, que agora voc no passa mais fome. V... V brincar, v ver os livros.  noite ns vamos ao cinema. Voc gosta de cinema?
  -- Gosto, sim senhor.
  O advogado o despedia com um gesto. O Sem-Pernas saiu, mas ainda viu Raul se aproximar de dona Ester e dizer:
  -- s uma santa. Vamos fazer dele um homem...
  Era a hora do crepsculo, as luzes se acendiam e o Sem-Pernas pensou que nesta hora os Capites da Areia percorriam a cidade procurando o que comer.
  Pena que no cinema no pudesse gritar quando o mocinho
surrava o vilo, como fazia nas vezes que conseguira penetrar no galinheiro do Olmpia ou do cinema de Itapagipe. Ali, no Guarani, luxuoso e de cmodas cadeiras,
tinha que ouvir o filme em silncio e num momento que no se conteve e soltou um assovio, Raul o olhou. (p. 116)  verdade que sorria, mas tambm  certo que fez
um gesto para que Sem-Pernas no assoviasse mais.
  Depois o levaram a tomar sorvete no bar que havia em frente ao cinema. O Sem-Pernas, enquanto tomava seu gelado, pensava em que ia cometendo uma irremedivel tolice
quando o advogado perguntara o que ele queria. Estivera para pedir uma cerveja bem geladinha. Mas se contivera em tempo e pedira o sorvete.
  No automvel o advogado
foi na frente guiando e o Sem-Pernas foi atrs com dona Ester, que conversava com ele. A conversa era difcil para o Sem-Pernas, que tinha que controlar sua terminologia
que era escassa e repleta de palavres. Dona Ester perguntava coisas de sua me, o Sem-Pernas respondia como podia, fazendo grande esforo para reter os detalhes
que inventava para posteriormente no cair em contradio. Por fim chegaram na casa da Graa e dona Ester conduziu o Sem-Pernas para o quarto em cima da garagem:
  -- No tem medo de dormir a sozinho?
  -- No, senhora...
  -- Isso  por poucos dias. Depois lhe porei l em cima, no quarto que foi de Augusto...
  -- No precisa, dona Ester, aqui t muito bom.
  Ela se acercou dele e o beijou na face:
  -- Boa noite, meu filho.
  Saiu, cerrando a porta. O Sem-Pernas ficou parado, sem um gesto, sem responder sequer o boa noite, a mo no rosto, no lugar em que dona Ester o beijara. No pensava,
no via nada. S a suave carcia do beijo, uma carcia como nunca tivera, uma carcia de me. S a suave carcia no seu rosto. Era como se o mundo houvesse parado
naquele momento do beijo e tudo houvesse mudado. S havia no universo inteiro a sensao suave daquele beijo maternal na face do Sem-Pernas.
  Depois foi o horror dos sonhos da cadeia, o homem de colete que ria brutalmente, os soldados que surravam o Sem-Pernas, que corria com a perna aleijada em volta
da saleta. Mas de repente chegou dona Ester e o homem de colete e os soldados morreram entre infinitas torturas, porque agora o Sem-Pernas estava vestido com uma
roupa de marinheiro e tinha um chicote na mo como o mocinho do cinema.
  Oito dias se passaram. Pedro Bala por vrias vezes j andara em frente da casa para saber notcias do Sem-Pernas, que tardava a voltar ao trapiche. J havia tempo
mais que suficiente para que o Sem-Pernas
soubesse onde se quedavam todos os objetos facilmente transportveis da casa e as sadas que podiam auxiliar a fuga. Mas em vez de ver o Sem-Pernas, Pedro Bala via
era a empregada, que pensava que ele vinha por ela. Certo dia em que conversava com a empregada, Pedro
  Bala tocou com muito jeito no assunto do Sem-Pernas:
  -- A moa da tem um filho, no tem?
  --  um menino que ela t criando. Muito bonzinho.
  Pedro Bala sorriu, porque sabia que o Sem-Pernas, quando queria, se fazia passar pelo melhor menino do mundo. A empregada continuou:
  --  um pouco mais moo que voc, mas  mesmo um menino.
  No  assim um perdido como voc, que at j dorme com mulher... --e ria para Pedro Bala.
  -- Foi tu que tirou meu cabao...
  -- No diga coisa feia. Demais  mesmo mentira.
  -- Juro.
  Ela gostaria que fosse, e se bem desconfiasse muito que no, gostava que ele lhe dissesse aquilo. Se  sentia no s como amante do menino, mas um pouco como me
tambm.
  -- Vem hoje, que eu te ensino um modo gostoso...
  -- De noite, na esquina... Mas diz um troo: tu no trepa com esse menino daqui?
  -- Esse nem sabe que  isso...  um tolinho. Menino mimado.
  Tu t feito bobo. No v que eu no me passo...
  De outra vez Pedro Bala conseguiu ver o Sem-Pernas. Este estava estirado no jardim (o gato roncava ao seu lado), espiando um livro de figuras, e Pedro Bala ficou
espantadssimo quando o viu vestido com uma cala de casimira cinza e uma blusa de seda. At o cabelo do Sem-Pernas estava penteado, e Pedro Bala quedou um (p. 118)
momento boquiaberto, sem sequer assoviar para o Sem-Pernas. Afinal voltou a si e assoviou. O Sem-Pernas se ps logo de p, viu o Bala do outro lado da rua. Fez um
sinal para que ele o esperasse, saiu pelo porto, aps ver que ningum da casa estava prximo.
  Pedro Bala andava para a esquina, e Sem-Pernas o acompanhou. Quando chegou perto, ainda mais se espantou Pedro Bala:
  -- Peste! Tu t at cheirando, Sem-Pernas.
  O Sem-Pernas fez uma cara de aborrecimento, mas Bala continuou:
  -- Tu t dez vez mais elegante que o Gato. Puxa! Se tu aparecer assim na toca assim tratavam o trapiche os outros vai dar em cima de tu. Tu t mesmo uma tetia...
  -- No chateia... Tou vendo as coisas. No demora dou o fora, tu pode vim com os outros.
  -- Desta vez tu t demorando...
  --  que os troo melhor to trancado mentiu o Sem-Pernas
  -- V se tu te arranja.
  Depois lembrou-se:
  -- O Gringo andou ruim. Quase bate o trinta e sete. Andou por pouco. Se no fosse Don'Aninha, que deu beberagem a ele que botou ele em p, tu no via mais ele.
T mais magro que um espeto...
  E com essa notcia se despediu, dando mais uma vez pressa ao Sem-Pernas.
  O Sem-Pernas voltou a se estender no jardim. Mas agora no via as figuras do livro. Via era o Gringo. O Gringo fora um dos mais perseguidos pelo Sem-Pernas no
grupo. Filho de rabes, falava com uma pronncia esquisita, e isso dava lugar a piadas consecutivas do
  Sem-Pernas. O Gringo no era forte e nunca conseguira ser importante entre os Capites da Areia, se bem que Pedro Bala e Professor procurassem dar lugar a isso. Gostavam
de ter entre eles um estrangeiro ou quase estrangeiro. Mas o Gringo se contentava com pequenos furtos, evitava os assaltos arriscados e ideava um ba cheio de bugigangas
para vender nas ruas s criadas das casas ricas. O Sem Pernas o maltratava sem piedade, burlando dele, do seu falar arrevesado, da sua falta de coragem. Mas agora,
deitado sobre a grama macia (p. 119) do jardim rico, vestido com boa roupa, penteado e com perfume, um livro de figuras ao lado, o Sem-Pernas pensava no Gringo quase
morrendo, enquanto ele comia bem e vestia bem. No s o Gringo estivera quase morrendo. Durante aqueles oito dias os Capites da Areia continuaram mal vestidos,
mal alimentados, dormindo sob a chuva no trapiche ou embaixo das pontes. Enquanto isso, o Sem-Pernas dormia em boa cama, comia boa comida, tinha at uma senhora
que o beijava e o chamava de filho. Se sentiu como um traidor do grupo. Era igual quele doqueiro do qual fala Joo de Ado cuspindo no cho e passando o p em cima
com desprezo. Aquele doqueiro que na greve grande se passara para o outro lado, para o lado dos ricos, furara a greve, fora contratar homens de fora para trabalhar
nas docas. Nunca mais um homem do cais apertou sua mo, nunca mais um o tratou como amigo. E se para algum o Sem-Pernas abria exceo no seu dio, que abrangia
o mundo todo, era para as crianas que formavam os Capites da Areia. Estes eram seus companheiros, eram iguais a ele, eram as vtimas de todos os demais, pensava
o Sem-Pernas. E agora sentia que os estava abandonando, que estava passando para o outro lado. Com este pensamento se sobressaltou, sentou-se. No, ele no os trairia.
Antes de tudo estava a lei do grupo, a lei dos Capites da Areia. Os que a traam eram expulsos e nada de bom os esperava no mundo. E nunca nenhum a havia trado
do modo como
o Sem-Pernas a ia trair. Para virar menino mimado, para virar uma daquelas crianas que eram eterno motivo de galhofa para eles. No, no os trairia. Teriam bastado
trs dias para ele localizar os objetos de valor da casa. Mas a comida, a roupa, o quarto, e mais que a comida, a roupa e o quarto, o carinho de dona Ester tinham
feito que ele passasse j oito dias. Tinha sido comprado por este carinho como o estivador fora comprado por dinheiro. No, no trairia. Mas a pensou se no ia
trair dona Ester. Ela confiara nele. Ela tambm na sua casa tinha uma lei como os Capites da Areia: s castigava quando havia erro, pagava o bem com o bem. O Sem-Pernas
ia trair essa lei, ia pagar o bem com o mal. Lembrou-se que das outras vezes, quando dava o fora de uma casa para ela ser assaltada, era uma grande alegria que o
invadia. Desta vez no tinha alegria nenhuma. Seu dio para todos no desaparecera,  verdade. Mas abrira uma exceo para a gente daquela casa, porque dona Ester
o chamava de filho e o beijava
na face. O Sem-Pernas luta consigo mesmo. Gostaria de continuar (p. 120) naquela vida. Mas que adiantaria isso para os Capites da Areia? E ele era um deles, nunca
poderia deixar de ser um deles porque uma vez os
soldados o prenderam e o surraram enquanto um homem de colete ria brutalmente. E o Sem-Pernas se decidiu. Mas olhou com carinho as janelas do quarto de dona Ester
e ela, que o espiava, notou que ele chorava:
  -- Est chorando, meu filho? -- e desapareceu da janela para vir para junto dele.
  S ento o Sem-Pernas viu que estava mesmo chorando, limpou as lgrimas, mordeu a mo. Dona Ester chegava para junto dele:
  -- Est chorando, Augusto? Aconteceu alguma coisa?
  -- No, senhora. No estou chorando, no...
  -- No minta, meu filho. Bem que eu vejo... O que passou? Est se lembrando da sua me?
  E o trouxe para junto de si, sentou-se no banco, encostou a cabea do Sem-Pernas no seu seio maternal.
  -- No chore por sua me. Agora voc tem outra mezinha que lhe quer bem e far tudo para substituir a que voc perdeu...(... e ele faria tudo para substituir
o filho que ela perdera, ouviu o Sem-Pernas dentro de si).
  Dona Ester o beijou na face onde as lgrimas corriam:
  -- No chore, que sua mezinha fica triste.
  Ento os lbios do Sem-Pernas se descerraram e ele soluou, chorou muito encostado ao peito de sua me. E enquanto a abraava e se deixava beijar, soluava porque
a ia abandonar e, mais que isso, a ia roubar. E ela talvez nunca soubesse que o Sem-Pernas sentia que ia roubar a si prprio tambm. Como no sabia que o choro dele,
que os soluos dele eram um pedido de perdo.
  Os acontecimentos se precipitaram, porque Raul teve que fazer uma viagem ao Rio de Janeiro, a negcios importantes de advocacia. E o Sem-Pernas achou que no havia
melhor ocasio para o assalto.

  (p. 121)

  Na tarde em que se foi, mirou a casa toda, acariciou o gato Berloque, conversou com a criada, olhou os livros de gravura. Depois foi ao quarto de dona Ester, disse
que ia at o Campo Grande passear.
  Ela ento lhe contou que Raul traria uma bicicleta do Rio para ele e ento todas as tardes ele andaria nela pelo Campo Grande, em vez de passear a p. O Sem-Pernas
baixou os olhos, mas antes de sair veio at dona Ester e a beijou. Era a primeira vez que a beijava, e ela ficou muito alegre. Ele disse baixinho, arrancando as
palavras de dentro de si:
  -- A senhora  muito boa. Eu nunca vou esquecer...
  Saiu e no voltou. Essa noite dormiu no seu canto no trapiche. Pedro Bala tinha ido com um grupo para a casa. Os outros tinham rodeado o Sem-Pernas, admirando
suas roupas, seu cabelo assentado, o perfume que evolava do seu corpo. Mas o Sem-Pernas meteu o brao
em um, foi resmungando para seu canto. E ali ficou mordendo as unhas, sem dormir, angustiado, at que Pedro Bala voltou com os outros, trazendo os resultados do
assalto. Comunicou ao Sem-Pernas
que fora a coisa mais canja do mundo, que ningum dera f na casa, que todos tinham continuado dormindo. Talvez que nem no dia seguinte descobrissem o roubo. E mostrava
os objetos de ouro e de prata:
  -- Amanh Gonzales d uma dinheirama por isso...
  O Sem-Pernas fechava os olhos para no ver. Depois que todos foram dormir, ele se aproximou do Gato:
  -- Tu quer fazer um negcio comigo?
  -- Que ?
  -- Eu dou essa roupa, tu me d a sua...
  O Gato olhou cheio de espanto. A sua roupa era a melhor do grupo, sem dvida. Mas era roupa velha, estava muito longe de valer a boa roupa de casimira que o Sem-Pernas
vestia. T doido, pensou o Gato enquanto respondia:
  -- Se topo? Nem se pergunta.
  Trocaram a roupa. O Sem-Pernas voltou ao seu canto, procurou dormir.
  Na rua vinha doutor Raul com dois guardas. Eram os mesmos soldados que o haviam espancado na cadeia. O Sem-Pernas corria,(p. 122) mas doutor Raul o apontava e
os soldados o levavam para a mesma sala. A cena era a mesma de sempre: os soldados que se divertiam a
faz-lo correr com sua perna capengando e o espancavam e o homem de colete que ria. S que na sala estava tambm dona Ester, que o olhava com os olhos tristes e
dizia que ele no era mais seu filho, era um ladro. E os olhos de dona Ester o faziam sofrer mais que as pancadas dos soldados, mais que o riso brutal do homem.
  Acordou molhado de suor, fugiu da noite do trapiche, a madrugada o encontrou vagando no areal
  No outro dia,  noite, Pedro Bala viera trazer o dinheiro da sua parte no furto. Mas o Sem-Pernas o recusou sem dar explicaes.
  Depois Volta Seca chegou com um jornal que trazia notcias de Lampio. Professor leu a notcia para Volta Seca e ficou vendo as outras coisas que o jornal trazia.
Ento chamou:
  -- Sem-Pernas! Sem-Pernas!
  O Sem-Pernas veio. Outros vieram com ele e formaram um
crculo. Professor disse:
  -- Isso aqui  com tu, Sem-Pernas...
  E leu uma notcia no jornal:
  Ontem desapareceu da casa nmero... da rua ..., Graa, um filho dos donos da casa, chamado Augusto. Deve ter se perdido na cidade que pouco conhecia.  coxo de
uma
perna, tem treze anos de idade,  muito tmido, veste roupa de casimira cinza. A polcia o procura para o entregar aos seus pais aflitos, mas at agora no o encontrou.
A famlia gratificar bem quem der noticias do pequeno Augusto e o conduza a sua casa.
  O Sem-Pernas ficou calado. Mordia o lbio. Professor disse:
  -- Ainda no descobriram o furto...
  Sem-Pernas fez que sim com a cabea. Quando descobrissem o furto no o procurariam mais como a um filho desaparecido. Barando fez uma cara de riso e gritou:
  -- Tua famlia t te procurando, Sem-Pernas. Tua mame t te procurando pra dar de mamar a tu...
  Mas no disse mais nada, porque o Sem-Pernas j estava em cima dele e levantava o punhal. E esfaquearia sem dvida o negrinho se Joo Grande e Volta Seca no o
tirassem de cima dele. Barando saiu amedrontado. O Sem-Pernas foi indo para o seu canto, um olhar de
dio para todos. Pedro Bala foi atrs dele, botou a mo em seu ombro:
  -- So capazes de no descobrir nunca o roubo, Sem-Pernas. Nunca saber de voc... No se importe, no.
  -- Quando doutor Raul chegar vo saber...
  E rebentou em soluos, que deixaram os Capites da Areia estupefatos. S Pedro Bala e o Professor compreendiam, e este abanava as mos porque no podia fazer nada.
Pedro Bala puxava uma conversa comprida sobre um assunto muito diferente. L fora o vento corria sobre a areia e seu rudo era como uma queixa.
  Manh como um quadro  Pedro Bala, enquanto sobe a ladeira da montanha, vai pensando que no existe nada melhor no mundo que andar assim, ao azar, nas ruas da Bahia.
Algumas destas ruas so asfaltadas, mas a grande, a imensa maioria  calada de pedras negras. Moas se debruam nas janelas dos casares antigos e ningum pode
saber se  uma costureira que romanticamente espera casar com noivo rico ou se  uma prostituta que o mira de um balco velhssimo, enfeitado apenas de flores. Entram
mulheres de negros vus nas igrejas. O sol bate nas pedras ou no asfalto do calamento, ilumina os  telhados das casas. Na sacada de um sobrado, flores medram em
pobres latas. So de diversas cores e o sol lhes d seu dirio alimento de luz. Os sinos da igreja da Conceio da Praia chamam as mulheres de vu que passam apressadas.
No meio da ladeira um preto e um mulato esto curvados sobre uns dados que o preto acabou de jogar. Pedro Bala, ao passar, cumprimenta o negro:
  -- Como vai, Coruja Branca?
  -- E tu, Bala? Como vai essa prosopopia?
  Mas o mulato j atirou os dados e o negro se volta todo para o jogo. Pedro Bala continua seu caminho. O Professor vai com ele. Sua figura magra se atira para
frente como se lhe fosse difcil vencer a ladeira.
  Mas sorri da festa do dia. Pedro Bala vira-se para ele e surpreende seu sorriso. A cidade est alegre, cheia de sol. Os dias da Bahia parecem dias de festa, pensa
Pedro Bala, que se sente invadido tambm pela alegria.
  Assovia com fora, bate risonhamente no ombro de Professor. E os dois riem, e logo a risada se transforma em gargalhada. No entanto, no tm mais que uns poucos
nqueis no bolso, vo vestidos de farrapos, no sabem o que comero. Mas esto cheios da beleza do dia e da liberdade de andar pelas ruas da cidade. E vo rindo
sem ter do que, Pedro Bala com o brao passado no ombro de Professor. De onde esto podem ver o Mercado e o cais dos saveiros e mesmo o velho trapiche onde dormem.
Pedro Bala se recosta no muro da ladeira e diz a Professor:
  -- Tu devia fazer uma pintura disto...  porreta.
  A fisionomia do Professor se fecha:
  -- Eu sei que nunca h de ser...
  -- Que?
  -- Tem vez que me topo pensando... e Professor mira o cais l embaixo, os saveiros parecendo brinquedos, os homens midos carregando sacos nas costas.
  Continua com a voz spera como se algum o tivesse batido:
  -- Eu penso fazer um dia um bocado de pintura daqui...

  (p. 125)

  -- Tu tem jeito. Se tu tivesse andado pela escola...
  --... mas nunca pode ser um troo alegre, no... (Professor parece no ter ouvido a interrupo de Pedro Bala. Agora est com os olhos longe e parece ainda mais
fraco.)
  -- Por qu? - Pedro Bala est espantado.
  -- Tu no v que tudo  mesmo uma beleza? Tudo alegre...
  Pedro Bala apontou os telhados da cidade baixa:
  -- Tem mais cores que o arco-ris...
  --  mesmo... Mas tu espia os homem, t tudo triste. No tou falando dos rico. Tu sabe. Falo dos outros, dos das docas, do mercado.
  Tu sabe... Tudo com cara de fome, eu nem sei dizer.  um troo que sinto...
  Pedro Bala no estava mais espantado:
  -- Por isso Joo de Ado j fez um bocado de greve nas docas. Ele diz que um dia as coisas vira, tudo vai ser de vice-versa...
  -- Tambm j li um livro... Um livro de Joo de Ado. Se eu tivesse tado numa escola como tu diz, tinha sido bom. Eu um dia ia fazer muito quadro bonito. Um dia
bonito, gente alegre andando, rindo, namorando assim como aquela gente de Nazar, sabe? Mas cad escola? Eu quero fazer um desenho alegre, sai o dia bonito, tudo
bonito, mas os homens sai triste, no sei no... Eu queria fazer uma coisa alegre.
  -- Quem sabe se no  melhor mesmo fazer uma coisa como tu faz? Pode at d mais bonito, mais vistoso.
  -- Que  que tu sabe? Que  que eu sei? A gente nunca andou em escola... Eu tenho vontade de fazer a cara dos homens, a figura das ruas, mas nunca tive na escola,
tem um bocado de coisa que eu no
sei...
  Fez uma pausa, olhou Pedro Bala que o escutava, continuou:
  -- Tu j deu uma espiada na Escola de Belas-Artes?  um belezame, rapaz. Um dia andei de penetra, me meti numa sala. Tava tudo vestido de camiso, nem me viram.
E tavam pintando uma mulher nua... Se um dia eu pudesse...
  Pedro Bala ficou pensativo. Olhava Professor como que pensando. Logo falou com um ar muito srio:

  (p. 126)

  -- Tu sabe o preo?
  -- Que preo?
  -- De pagar na escola? O professor?
  -- Que histria  essa?
  -- A gente se reunia, pagava pra tu...
  Professor riu:
  -- Tu nem sabe... Tem tanta complicao... No pode no, deixa de tolice.
  -- Joo de Ado disse que um dia a gente pode ter escola...
  Saram andando. Professor parecia ter perdido a alegria do dia. Como que ela se afastara para longe dele. Ento Pedro Bala deu-lhe um soco de leve:
  -- Um dia tu ainda bota um bocado de pintura numa sala da rua Chile, mano. Sem escola sem nada. Nenhum destes bananas da escola faz uma rara como tu... Tu tem
 jeito...
  Professor riu. Pedro Bala riu tambm:
  -- E tu faz meu retrato, hein. Bota o nome embaixo, no bota?
  Capito Pedro Bala, macho valente.
  Tomou uma atitude de lutador, um brao estirado. Professor riu, Bala tambm riu, logo o riso se transformou em gargalhada. E s pararam de gargalhar para aderir
a um grupo de desocupados que se reunira em torno a um tocador de violo. O homem tocava e cantava uma moda da cidade da Bahia:
  Quando ela disse adeus...
meu peito em cruz transformou...
  Eles aderiram. Pouco depois cantavam junto ao homem. E com eles cantavam todos e eram saveiristas, malandros, doqueiros, at uma prostituta cantava. O homem do
violo estava todo entregue a sua msica, no via mesmo ningum.
  Se o homem no se levantasse para ir embora, ainda tocando seu violo e cantando, eles teriam se esquecido de continuar a caminhada (p. 127) para a cidade alta.
Mas o homem foi embora levando a alegria da sua msica. O grupo se dispersou, um vendedor de jornais passou apregoando os dirios da manh. Professor e Pedro Bala
continuaram a subir a ladeira. Do largo do Teatro subiram para a rua Chile. Professor
tirou o giz do bolso, sentou-se no passeio. Pedro Bala ficou a seu lado. Quando viram vir o casal, Professor comeou a desenhar. Fez um desenho o mais rpido que
pde. O casal estava muito perto j, Professor agora fazia as caras. A moa sorria, sem dvida seriam
noivos. Mas iam to entretidos na sua conversa que nem notaram o desenho. Foi preciso que Pedro Bala se adiantasse at eles:
  -- No pise na cara da moa, senhor...
  O homem olhou para Pedro Bala e j ia dizer um desaforo quando a moa viu o desenho do Professor e chamou sua ateno:
  -- Que bom... e batia as mos como uma menina a quem
tivessem dado uma boneca de presente.
  O rapaz espiou e sorriu. Voltou-se para Pedro Bala:
  -- Foi voc quem desenhou, garoto?
  -- Foi aqui o meu companheiro, o pintor Professor...
  Professor dava os ltimos retoques no bigode elegantssimo do homem. Depois passou a aperfeioar a figura da moa. Ela ento ficou no jeito de quem estava posando.
Riam os dois, ela se dependurava no
brao do amado. O homem puxou a carteira de nqueis, atirou uma prata de dois mil-ris, que Pedro Bala apanhou no ar. Seguiram. O desenho ficou no meio do passeio.
Umas senhoritas que vinham das compras o viram de longe e uma disse:
  -- Vamos depressa, que aquilo parece que  um anncio do novo filme de Barrymore... Dizem que  um amor... E ele  to forte...
  Pedro Bala e Professor ouviram e abriram na gargalhada. E abraados seguiram juntos na liberdade das ruas.
  Quase junto do palcio do governo pararam novamente. Professor ficou de giz na mo esperando que sasse do ponto do bonde um pato. Pedro Bala assoviava ao seu
lado. Breve teriam o dinheiro para (p. 128)um bom almoo e ainda para levar um presente para Clara, a amante do Querido-de-Deus, que fazia anos naquele dia.
  Uma velhota deu dez tostes por seu desenho. A velhota era feia e Professor tinha conservado sua feira no desenho. Pedro Bala notou:
  -- Se tu tivesse feito ela mais bonita e mocinha, ela te dava mais.
  Professor riu. Assim passaram a manh, Professor fazendo a cara dos que vinham pela rua, Pedro Bala recolhendo as pratas ou os nqueis que jogavam. Quase meio-dia
veio um homem que fumava numa piteira que parecia cara. Pedro Bala correu para avisar ao
  Professor:
  -- Faz deste que parece que  um pato cheio da nota...
  Professor comeou a desenhar a figura magra do homem. A piteira longa, os cabelos encaracolados que apareciam sob o chapu. O homem trazia tambm um livro na mo
e Professor teve um desejo irresistvel de fazer o desenho do homem lendo o livro. O homem ia
  passando, Pedro Bala chamou sua ateno:
  -- Olhe seu retrato, senhor.
  O homem tirou a longa piteira da boca, perguntou a Bala:
  -- O que, meu filho?
  Pedro Bala apontou o desenho em que o Professor trabalhava. O homem aparecia sentado (se bem no houvesse cadeira nem nada estava sentado no ar), fumando sua piteira
e lendo seu livro. O cabelo
encaracolado voava sob o chapu. O homem examinou o desenho atentamente, foi espi-lo em diversos ngulos, nada dizia. Quando o Professor deu o trabalho por concludo,
ele perguntou:
  -- Onde voc aprendeu desenho, meu caro?
  -- Em lugar nenhum...
  -- Em lugar nenhum? Como?
  -- , sim senhor...
  -- E como desenha?
  -- Me d vontade, pego, desenho.
  O homem estava um pouco incrdulo, mas sem dvida recordou outros exemplos no fundo da sua memria:
  -- Quer dizer que voc nunca estudou desenho?

  (p. 130)

  -- Nunca, no senhor.
  -- Posso garantir falou Pedro Bala. -- Ns mora junto, eu sei.
  -- Ento  uma verdadeira vocao... -- murmurou o homem.
  Voltou ao examinar o desenho. Tirou uma longa fumaada da sua piteira. Os dois meninos olhavam para a piteira encantados. O homem perguntou ao Professor:
  -- Por que voc me retratou sentado e lendo o livro?
  Professor coou a cabea como se fosse uma coisa difcil de responder. Pedro Bala quis falar, mas nada disse, estava atarantado. Por fim Professor explicou:
  -- Pensei que sentava melhor pro senhor... -- coou de novo a cabea. - No sei mesmo...
  --  uma verdadeira vocao... -- murmurou o homem em voz mais baixa, assim com o jeito de quem havia feito uma descoberta.
  Pedro Bala esperava o nquel, mesmo porque o guarda j os olhava desconfiado da esquina. Professor espiava a piteira do homem longa, desenhada a fogo, uma maravilha.
Mas o homem continuou:
  -- Onde voc mora?
  Pedro Bala no deu tempo a que Professor respondesse. Foi ele quem falou:
  -- A gente mora na Cidade de Palha...
  O homem meteu a mo no bolso e tirou um carto:
  -- Voc sabe ler?
  -- A gente sabe, sim senhor respondeu Professor.
  -- A est meu endereo. Eu quero que voc me procure. Talvez possa fazer alguma coisa por voc.
  Professor tomou o carto. O guarda se encaminhava para ele Pedro Bala se despediu:
  -- At logo, doutor.
  O homem ia puxando a carteira de nqueis, mas viu o olhar do Professor na sua piteira. Jogou o cigarro fora, entregou a piteira ao menino.
  -- Isso  pelo meu retrato. V a minha casa...

  (p. 131)

  Mas os dois desabaram pela rua Chile, porque o guarda j estava quase junto a eles. O homem olhava meio sem compreender quando ouviu a voz do guarda:
  -- Lhe roubaram alguma coisa, senhor?
  -- No. Por qu?
  -- Porque como aqueles malandrins estavam aqui junto ao senhor...
  -- Eram duas crianas... Por sinal que uma com maravilhosa inclinao para a pintura.
  -- So ladres -- retrucou o guarda. -- So dos Capites da Areia.
  -- Capites da Areia? -- fez o homem se recordando. --J li algo... No so crianas abandonadas?
  -- Ladronas, isso so... Tenha cuidado, senhor, quando eles se aproximarem do senhor. Veja se no lhe falta nada...
  O homem fez que no com a cabea e olhou a rua. Mas no havia nem rastro dos dois meninos. O homem agradeceu ao guarda, afirmando mais uma vez que no tinha sido
furtado, e desceu a rua, murmurando:
  -- Assim que se perdem os grandes artistas. Que pintor no seria!
  O guarda o espiava. Depois comentou para os botes da farda:
  -- Bem dizem que estes poetas so doidos...
  Professor exibia a piteira. Estava agora nos fundos de um arranha-cu, onde existia um restaurante chique. Pedro Bala sabia como conseguir do cozinheiro os restos
do menu. Esperavam o almoo na rua deserta. Depois que comeram, Pedro Bala ofereceu cigarros e o Professor se disps a fumar na piteira que o homem lhe
dera. Procurou limp-la:
  -- O bicho era magro como um espeto.  capaz de ser tutu...
  Como no achou coisa melhor com que limpar, fez do carto do homem um palito e o enfiou na piteira. Quando terminou, jogou o carto na rua. Pedro Bala perguntou:
  -- Por que tu no guarda?
  -- Pra que quero? e o Professor riu, Pedro Bala riu tambm e por um momento as suas gargalhadas encheram a rua. Riam assim sem motivo, pelo prazer de rir.
  Mas Pedro Bala se fez srio:
  -- O homem parece que era bem capaz de ajudar a tu ser um pintor... -- apanhou o carto e leu o nome do homem. -- Tu devia guardar. Quem sabe?
  Professor baixou a cabea:
  -- Deixa de ser besta, Bala. Tu bem sabe que do meio da gente s pode sair ladro... Quem  que quer saber da gente? Quem? S ladro, s ladro... -- e sua voz
se elevava, agora gritava com dio.
  Pedro Bala fez que sim com a cabea, sua mo soltou o carto, que caiu na sarjeta. Agora no riam mais e estavam tristes na alegria da manh cheia de sol, da manh
igual a um quadro de um pintor das Belas-Artes.
  Operrios passavam para o trabalho, aps o almoo pobre, e era tudo que eles viam, que eles conseguiam ver na manh.

  Alastrim

  Omolu mandou a bexiga negra para a cidade. Mas l em cima os homens ricos se vacinaram, e Omolu era um deus das florestas da frica, no sabia destas coisas de
vacina. E a varola desceu para a cidade dos pobres e botou gente doente, botou negro cheio de chaga em cima da cama. Ento vinham os homens da Sade Pblica,(p.
133) metiam os doentes num saco, leva para o lazareto distante. As mulheres ficavam chorando, porque sabiam que eles nunca mais voltariam.
  Omolu tinha mandado a bexiga negra para a cidade alta, para a cidade dos ricos. Omolu no sabia da vacina, Omolu era um deus das florestas da frica, que podia
saber de vacinas e coisas cientficas? Mas como a bexiga j estava solta (e era a terrvel bexiga negra), Omolu teve que deixar que ela descesse para a cidade dos
pobres. J que a soltara, tinha que deixar que ela realizasse sua obra. Mas como Omolu tinha pena dos seus filhinhos pobres, tirou a fora da bexiga  negra, virou
em alastrim, que  uma bexiga branca e tola, quase um sarampo. Apesar disto, os homens da Sade Pblica vinham e levavam os doentes para o lazareto. Ali as famlias
no podiam ir visit-los, eles no tinham ningum, s a visita do mdico. Morriam sem ningum saber e quando um conseguia voltar era mirado como um cadver que houvesse
ressuscitado. Os jornais falavam da epidemia de varola e da
necessidade da vacina. Os candombls batiam noite e dia, em honra a Omolu, para aplacar a fria de Omolu. O pai-de-santo Paim, do Alto do Abacaxi, preferido de Omolu,
bordou uma toalha branca de seda, com lantejoulas, para oferecer a Omolu e aplacar sua raiva. Mas Omolu no quis, Omolu lutava contra a vacina.
  Nas casas pobres as mulheres choravam. De medo do alastrim, de medo do lazareto.
  Almiro foi o primeiro dos Capites da Areia que caiu com alastrim. Uma noite, quando o negrinho Barando o procurou no seu canto para fazer o amor (aquele amor
que Pedro Bala proibira no trapiche), Almiro lhe disse:
  -- Tou com uma coceira danada.
  Mostrou os braos j cheios de bolhas a Barando:
  -- Parece que tambm tou queimando de febre.
  Barando era um negrinho corajoso, todo o grupo sabia disto. Mas da bexiga, da molstia de Omolu, Barando tinha um medo doido, um medo que muitas raas africanas
tinham acumulado dentro dele. E sem se preocupar que descobrissem suas relaes sexuais com
  Almiro saiu gritando entre os grupos:
  -- Almiro t com bexiga... Gentes, Almiro t com bexiga.
  Os meninos foram se levantando aos poucos e se afastando receosos do lugar onde estava Almiro. Este comeou a soluar. Pedro Bala no tinha chegado ainda. Professor,
o Gato e Joo Grande tambm andavam por fora. Da ter sido o Sem-Pernas quem dominou a situao. O Sem-Pernas nestes ltimos tempos andava cada vez mais arredio,
quase no falava com ningum. Fazia espantosas burlas de todo mundo, por tudo puxava uma briga, s respeitava mesmo Pedro Bala. Pirulito rezava por ele mais que
por nenhum, e por vezes pensava que Satans tinha se metido no corpo do Sem-Pernas. O padre Jos Pedro era paciente com ele, mas tambm do padre o Sem-Pernas se
afastara. No queria saber de ningum, conversa em que ele se metia era conversa que terminava em briga.
  Quando o Sem-Pernas passou entre os grupos, todos se afastaram. Quase o temiam tanto quanto  bexiga. O Sem-Pernas tinha arranjado por aqueles dias um cachorro
ao qual se dedicava inteiramente. A princpio, quando o co aparecera no trapiche, esfomeado, Sem-Pernas o maltratou quanto pde. Mas terminou por acarinh-lo e
tomar para si. Agora como que vivia inteiramente para o cachorro. E por isso voltou s para levar o co, que o acompanhara, para longe de Almiro. Depois andou novamente
para onde estavam os meninos. Estes cercavam Almiro de longe. Apontavam as bolhas que apareciam no peito do menino. Antes de tudo, Sem-Pernas falou com sua voz fanhosa
para Barando:
  -- Agora tu vai ter bexiga na piroca, negro burro.
  Barando o olhou assustado. Depois, Sem-Pernas falou para todos, apontando Almiro com o dedo:
  -- Ningum aqui vai ficar bexiguento s por causa deste freso.
  Todos o olhavam, esperando o que ele diria. Almiro soluava, as mos no rosto, encolhido na parede. Sem-Pernas falava:
  -- Ele vai sair daqui agorinha mesmo. Vai se meter em qualquer canto da rua at que os mata-cachorro da sade pegue ele e leve pro lazareto.
  -- No. No rugiu Almiro.

  (p. 135)

  -- Vai, sim fez
  Sem-Pernas. - A gente no vai chamar os mata-cachorro aqui pra toda policia saber onde a gente se acoita. Tu vai por bem ou por mal e leva teus trapos. Vai pro
inferno, que a gente
no vai ficar com bexiga por voc. Por amor de voc, xibungo...
  Almiro fazia que no, que no, e seus soluos enchiam o trapiche. 0 negrinho Barando tremia, Pirulito clamava que era castigo de Deus por causa dos pecados deles,
os outros no sabiam que fazer. Sem-Pernas se preparava para forar sua idia. Pirulito se abraou com um quadro de Nossa Senhora e disse:
  -- Vamos rezar todo mundo, que isto  um castigo de Deus pros pecados da gente. A gente peca muito, Deus t castigando. Vamos pedir perdo... e sua voz era como
um clamor, soava anunciando vinganas.
  Alguns juntaram as mos e Pirulito chegou a iniciar um padre-nosso. Mas Sem-Pernas o afastou com uma das mos:
  -- Sai, sacrista...
  Pirulito ficou rezando em voz baixa ainda atracado com o santo. Parecia um quadro estranho. Ao fundo, Almiro soluava e dizia que no. Pirulito rezava, os outros
estavam indecisos, no sabiam o que fazer. Barando tremia de medo, pensando que estava contagiado. Sem-Pernas voltou a falar:
  -- Gente, se ele no quiser sair, a gente bota ele pra fora debaixo de porrada. Seno, tudo vai morrer de bexiga, tudo... Vocs no v, desgraados? A gente bota
ele pra fora at uma rua onde levem ele pro lazareto.
  -- No. No fazia Almiro. -- Pelo amor de Deus.
  -- Isso  castigo... -- fez Pirulito.
  -- Cala a boca, filho de padre o Sem-Pernas continuava. -- Vamos levar ele, gente, j que ele no quer ir por bem.
  Como via que os outros ainda estavam irresolutos, marchou para o lado de Almiro e estendeu o p para lhe dar uma pancada:
  -- Assim tu vai embora, bexiguento.
  Almiro se encolheu mais:
  -- No. Tu no pode fazer isso. Eu sou um do grupo. Espera Bala chegar.

  (p. 136)

  --  castigo...  castigo... -- a voz de Pirulito ainda irritou mais o Sem-Pernas, que descarregou um pontap em Almiro.
  -- D o fora, bexiguento. D o fora, fresco.
  Mas neste instante uma mo o pegou e o sacudiu longe. Volta Seca se plantou entre Almiro e o Sem-Pernas. O mulato levava um revlver na mo e os seus olhos fuzilavam:
  -- Juro que tem bala e que como um que toque em Almiro -- olhou para todos com sua cara sombria.
  -- Que  que tu tem que fazer aqui, cangaceiro? -- Sem-Pernas queria recuperar o domnio da situao.
  -- Ele no  um soldado de policia pra gente tratar ele assim.  um do grupo, ele falou direito. Vamos esperar Pedro Bala chegar. Ele resolve. E se algum tocar
nele eu queimo igual que fosse um macaco da polcia -- e segurava o revlver.
  Os outros se afastaram aos poucos. Sem-Pernas cuspiu:
  -- Tudo  uns covarde... -- e seguiu para onde o cachorro o esperava. Se deitou ao seu lado e os que ficaram mais perto dele a ouviam murmurar: covardes, covardes.
  Volta Seca ficou diante de Almiro com o revlver na mo. Almiro soluava, e mais alto gritava quando olhava as bolhas que se estendiam pelo seu corpo. Pirulito
rezava, pedia a Deus que voltasse a ser suprema bondade, no fosse suprema justia.
  Depois Pirulito se lembrou de chamar o padre Jos Pedro. Escapuliu pela porta do trapiche, se dirigiu  casa do padre. Mas pelo caminho ainda ia rezando, os olhos
dilatados cheios do temor de Deus.
  Pedro Bala chegou acompanhado do Professor e de Joo Grande. Voltavam de um negcio que tinham resolvido bem e comentavam o sucesso entre gargalhadas. O Gato tinha
ido com eles, mas no (p. 137) voltara. Ficara em casa de Dalva. Os trs entraram no trapiche e a primeira coisa que enxergaram foi Volta Seca com o revlver na
mo.
  -- Que  isso? -- perguntou Pedro Bala.
  Sem-Pernas se levantou do seu canto, o cachorro o acompanhou:
  -- Este besta metido a cangaceiro no quer deixar que a gente faa o que resolveu e apontava Almiro. - Aquele fresco t com a bexiga...
  Joo Grande se encolheu. Pedro Bala olhou Almiro, o Professor andou para onde esta Volta Seca. O mulato no largava o revlver. Pedro perguntou ento:
  -- Como foi, Volta Seca?
  -- Este t com a maldita... -- mostrou o menino que soluava. -- E aquele macaco mesmo que um soldado quis botar ele no meio da rua pra assistncia levar ele pro
lazareto. Eu no tava me metendo. Mas ele no quis ir. A eles todos juntos-cuspiu-quis dar nele pra obrigar ele ir. Foi quando ele falou que era do grupo, que eles
esperasse que tu chegasse. Eu achei que ele falou direito, fiquei do lado dele... Ele no  um soldado de polcia pra tratar ele assim...
  -- Tu fez direito, Volta Seca -- Pedro Bala bateu no ombro do mulato. Depois olhou Almiro: - Tu t mesmo com ela?
  O menino inclinou a cabea e rebentou em soluos. Sem-Pernas gritou:
  -- S tem mesmo que fazer o que eu disse. No pode chamar a assistncia aqui que todo mundo fica sabendo onde a gente se acoita. S tem mesmo que deixar ele numa
rua onde passe gente. Vamos fazer, tu queira ou no...
  Pedro Bala gritou:
  -- Quem  o chefe daqui,  tu ou eu? Tu quer que eu te rebente?
  Sem-Pernas saiu murmurando. O cachorro veio lamber seus ps, mas ele deu-lhe um pontap. Logo depois se arrependeu, porm, e comeou a acarinhar o co, enquanto
espiava os outros.
  Pedro Bala andou at Almiro. Joo Grande queria vencer o medo e ir para junto de Almiro tambm. Mas o medo da bexiga era uma coisa enorme nele, era quase maior
que sua bondade. S Professor estava junto de Pedro Bala. Este disse a Almiro:
  Almiro mostrou os braos cheios de bolhas. Professor disse:

  (p. 138)

  -- Deixa eu ver...
  Almiro mostrou os braos cheios de bolhas. Professor disse:
  --  alastrim. Bexiga negra fica logo preta...
  Pedro Bala ficou pensando. Ia um silncio pelo trapiche. Joo Grande conseguiu vencer o medo e se aproximou. Mas ia com passo arrastados. Parecia violentar sua
prpria vontade para chegar at junto
  de Almiro. Foi quando entrou Pirulito acompanhado do padre Jos Pedro. O padre deu boas noites e perguntou quem era o doente Pirulito apontou Almiro, o padre se
dirigiu para ele, chegou perto, pegou no brao, examinou. Depois disse a Pedro Bala:
  --  preciso levar para a assistncia...
  -- Pro lazareto?
  -- Sim.
  -- No, no vai, no fez Pedro Bala.
  O Sem-Pernas se levantou outra vez, veio para junto de1es:
  -- Tou dizendo isso h muito tempo. Tem que ir pro lazareto
  -- No vai repetiu Pedro Bala.
  -- Por que, meu filho? perguntou o padre Jos Pedro.
  -- Tu sabe, padre, que ningum volta do lazareto. Ningum volta. E ele  um da gente. um do grupo. A gente no pode fazer isso...
  -- Mas  a lei, filho.
  -- Morrer?
  O padre mirou Pedro Bala com os olhos abertos. Aquele
meninos viviam a lhe dar surpresas, sempre mais adiantados em inteligncia do que ele pensava. E, no fundo, o padre sabia que eles tinham razo.
  -- No vai, no, padre... -- afirmou Pedro Bala.
  -- Ento que  que voc vai fazer, meu filho?
  -- Tratar dele aqui...
  -- Mas como?
  -- Chamo Don'Aninha...
  -- Mas ela no sabe tratar de ningum.
  Pedro Bala ficou confuso. Passado um momento, disse:

  (p. 139)

  --  melhor que morra aqui que no lazareto.
  Sem-Pernas se meteu de novo:
  -- Vai pegar bexiga em todo mundo... -- se dirigia aos outros.
  -- Vai pegar em todo mundo. A gente no pode deixar.
  -- Cala a boca, desgraado, seno eu te arrombo disse Pedro.
  Mas o padre interveio:
  -- Ele tem razo, Bala.
  -- No vai pro lazareto, padre. O senhor  bom, bem sabe que ele no pode ir. L  uma misria, tudo morre.
  O padre bem sabia que era verdade, calou. Foi quando Joo
  Grande falou:
  -- Mas ele no tem casa?
  -- Quem?
  -- Almiro. Tem sim.
  -- No quero ir para l... -- soluou Almiro. -- Eu tinha fugido.
  Pedro Bala se aproximou dele e falou com voz muito mansa:
  -- Deixa estar, Almiro. Primeiro eu vou l, falo com tua me. Depois a gente leva voc. Tu l fica bem, no tem que ir pro lazareto. E o padre arranja um mdico
pra cuidar de tu, no arranja, padre?
   -- Levo, sim prometeu o padre Jos Pedro.
  Havia uma lei que obrigava os cidados a denunciarem  Sade Pblica os casos de varola que conhecessem, para o imediato recolhimento dos variolosos aos lazaretos.
O padre Jos Pedro conhecia a lei, mas, mais uma vez, ficou com os Capites da Areia contra a lei.
  Pedro Bala foi  casa de Almiro, a me do menino ficou feito louca, era uma lavadeira amigada com um pequeno lavrador alm da Cidade de Palha. Foram buscar Almiro
e o padre o visitou e depois levou um mdico. Mas acontece que o mdico estava cavando um lugar na Sade Pblica e denunciou o caso de varola. Almiro foi mesmo
levado para o lazareto e o padre ficou em maus lenis, pois o mdico (que se dizia livre-pensador, mas em verdade era esprita) denunciou o padre tambm como encobridor
do caso. As autoridades(p. 140)no agiram contra o padre, mas se queixaram ao arcebispado. E o padre Jos Pedro foi chamado  presena do Cnego Secretrio do Arcebispado.
Ficou amedrontado.
  Pesadas cortinas, cadeiras de alto espaldar, um retrato de Santo Incio numa parede. Na outra, um crucifixo. Uma grande mesa, custosos tapetes. O padre Jos Pedro
entrou na sala com o corao batendo muito. No tinha absoluta certeza do motivo por que recebera aquela comunicao do Cnego Secretrio do Arcebispado para comparecer
ao Palcio Episcopal. No primeiro momento lembrou-se da parquia que esperava inutilmente havia dois anos. Seria sua parquia? Sorriu com alegria. Ento, sim, iria
ser um verdadeiro sacerdote, iria ter almas entregues a si,  sua guia. Serviria a Deus. Mas certa tristeza o invadiu: e suas crianas, as crianas abandonadas das
ruas da Bahia, principalmente os Capites da Areia, como ficariam?
  Ele era um dos seus poucos amigos. Nunca um outro padre se voltara para aqueles meninos. Se contentavam em ir celebrar de quando em vez uma missa no reformatrio,
o que os tornava mais antipticos aos meninos porque atrasava o magro caf. O padre Jos Pedro, enquanto esperava sua parquia, se dedicara aos meninos abandonados.
No podia dizer que os resultados tivessem sido grandes. Mas era preciso compreender que ele estava fazendo uma experincia, que muitas vezes tinha que voltar atrs.
Fazia pouco tempo que o padre captara de todo a confiana dos meninos. Estes j o tratavam como amigo, mesmo quando no o levavam a srio como sacerdote. O padre
tivera de passar por cima de muita coisa para conseguir a confiana de Capites da Areia. Mas Jos Pedro pensava que s Pirulito e a sua vocao pagavam a pena. O
padre tivera que fazer muita coisa contra o que lhe haviam ensinado. Pactuara mesmo com coisa que a Igreja condenaria. Mas era o nico jeito... A o padre lembrou-se
que bem podia ser por causa daquilo que o haviam chamado. Devia ter sido por aquilo. Muitas beatas j murmuravam por causa das suas relaes com as crianas que
viviam do furto. E havia aquele caso de Almiro. Devia ser por aquilo. O primeiro sentimento do padre Jos Pedro quando descobriu o motivo da comunicao foi um grande
temor. (p. 141)Ia ser castigado com certeza, perderia toda esperana de uma parquia. E o padre Jos Pedro necessitava de uma parquia. Sustentava uma me
velha, uma irm na Escola Normal. Logo depois pensou que muito possivelmente tudo o que fizera fora errado, seus superiores no aprovariam. E, no Seminrio, lhe
tinham ensinado a obedecer. Mas pensou nos meninos. Na sua memria passaram as figuras de Pirulito, Pedro Bala, Professor, Sem-Pernas, Boa-Vida, o Gato. Era preciso
salvar aqueles pequeninos... As crianas eram a maior ambio de Cristo. Devia se fazer tudo para salvar aquelas crianas. No era culpa deles se estavam perdidos...
  O Cnego entrou. Nos seus pensamentos o padre nem vira que muitos minutos de espera tinham se passado. No viu tampouco quando o Cnego entrou com um passo manso.
Era alto e muito magro, anguloso, com a batina muito limpa, os raros cabelos que lhe restavam muito  bem penteados. Os lbios tinham uma linha dura.
  Um rosrio descia-lhe em torno ao pescoo. Se bem sua figura desse uma impresso de pureza, essa impresso no fazia seus traos mais doces. No havia nenhuma
simpatia humana na sua figura, nos seus traos duros. Como que a pureza era uma couraa que o afastava do
mundo. Diziam que era inteligentssimo, grande orador sacro, clebre pela rigidez dos seus costumes. Ali estava parado diante do padre Jos Pedro, olhando com olhos
observadores a figura baixa do padre, a sua batina suja e remendada em dois lugares, o seu ar de medo, a falta de inteligncia que de mistura com a bondade se refletia
na cara do padre. Estudou o padre uns poucos minutos. O bastante para penetrar a fundo na alma sem complicaes de Jos Pedro. Tossiu. O padre o viu, levantou-se,
beijou humildemente sua mo:
  -- Cnego...
  -- Sente-se, padre. Temos que conversar.
  Olhava com os olhos sem expresso o padre. Sentou-se, cruzou as mos com grande cuidado, afastou sua reluzente batina da batina suja do padre Jos Pedro. Sua voz
contrastava com sua pessoa.
  Podia-se dizer que era uma voz doce, quase feminina, se no fosse um acento de deciso que a cada passo surgia nela. O padre Jos Pedro baixou a cabea e esperou
que o Cnego falasse. Este comeou:
  -- Este arcebispado tem graves queixas contra o senhor, padre.

  (p. 142)

  Padre Jos Pedro quis figurar uma cara de quem no entendia. Mas a malcia era superior  sua inteligncia e naquele momento ele pensava nos Capites da Areia.
O Cnego sorriu ligeiramente.
  -- Creio que o senhor j sabe do que se trata...
  O padre olhou com uns olhos abertos, mas logo baixou a cabea:
  -- S se  as crianas...
  -- O pecador no pode esconder seu pecado, ele est visvel na sua conscincia... -- e a voz do Cnego tinha perdido aquela nota de doura.
  O padre Jos Pedro ouviu com pavor. Era o que ele temia. Os seus superiores, aqueles que tinham inteligncia para compreender os desejos de Deus, no estavam de
acordo com os mtodos que ele empregara junto aos Capites da Areia. Vinha um temor de dentro dele, no propriamente um temor do Cnego, do arcebispo mas um temor
de ter ofendido a Deus. E at suas mos tremiam ligeiramente.
  A voz do Cnego retomou sua doura. Era como uma voz de mulher, doce e suave, mas que negava a um homem suas carcias:
  -- Tm-nos chegado bastantes queixas, padre Jos Pedro. O arcebispado tem fechado os olhos na esperana de que o senhor conhecesse seuerro e se emendasse...
  Olhou o padre com olhos duros. Jos Pedro baixou a cabea.
  -- No faz muito tempo a viva Santos queixou-se. O senhor ajudou uma corja de moleques, numa praa, avai-la. Melhor, incitou os moleques a que a vaiassem...
Que tem a dizer, padre?
  -- No  verdade, Cnego.
  -- O senhor quer dizer que a viva mentiu?
  Fuzilou o padre com os olhos. Mas desta vez Jos Pedro no baixou a cabea, apenas repetiu:
  -- O que ela disse no  verdade...
  -- O senhor sabe que a viva Santos  uma das melhores
protetoras da religio na Bahia? No sabe dos donativos...
  -- Eu posso lhe narrar o fato...

  (p. 143)

   -- No me interrompa. .. No Seminrio no lhe ensinaram a ser humilde e respeitoso com seus superiores? Se bem o senhor no tivesse sido um aluno dos mais brilhantes...
  O padre Jos Pedro sabia daquilo. No era preciso que lhe repetissem que fora um dos piores alunos do Seminrio em matria de estudos. Por isso mesmo tinha tanto
medo de ter errado, de ter ofendido a Deus. O Cnego devia ter razo, era muito mais inteligente, estava muito mais prximo de Deus, que  a suprema inteligncia.
  O Cnego fez um gesto com a mo, como quem relegava para longe aquele incidente da viva, e a sua voz se fez doce novamente:
  -- Porm agora h coisa muito mais grave. Por sua causa, padre, este arcebispado foi procurado pelas autoridades. O senhor sabe o que fez? Sabe?
  O padre no tentou negar:
  -- Foi o caso do menino com alastrim?
  -- Um menino com varola, sim senhor. E o senhor escondeu o caso das autoridades sanitrias...
  O padre Jos Pedro tinha confiana na bondade de Deus. Muitas vezes pensara que Deus aprovava o que ele estava fazendo. Agora pensava isto tambm. Aquele pensamento
tinha enchido seu corao de repente. Levantou o busto, fixou a vista no Cnego:
  -- O senhor sabe o que  o leprosrio?
  O Cnego no respondeu.
  -- Pois  raro o homem que volta de l. Quanto mais uma criana... Mandar uma criana para l  cometer um assassinato...
  -- Isso no  conosco -- respondeu o Cnego com voz inexpressiva mas cheia de deciso. - Isto  com a Sade Pblica. Mas o nosso papel  respeitar as leis.
  -- Mesmo quando atentam contra a lei da bondade de Deus?
  -- Que sabe o senhor da bondade de Deus? Que grande inteligncia tem para saber dos desgnios de Deus? O demnio da vaidade o dominou?
  O padre Jos Pedro tentou explicar:
  -- Eu sei que sou um padre ignorante e indigno de servir ao Senhor. Mas estas crianas nunca tinham tido ningum que olhasse por elas. Eu tive a inteno...
  -- A boa inteno no desculpa os maus atos... --cortou o Cnego com voz muito doce ao enunciar a sentena.
  O padre Jos Pedro se sentiu novamente em dvida. Mas elevou o pensamento a Deus, voltou parte da sua confiana:
  -- Teriam sido maus? Eram uns meninos que nunca tinham ouvido falar seriamente de Deus. Misturam Deus com os santos dos negros, no tm nenhuma idia de religio.
Eu quis ver se salvava aquelas almas...
  -- J lhe disse que suas intenes foram boas, mas suas aes no corresponderam s intenes...
  --  que o senhor no conhece estes meninos... -- o Cnego lhe deitou um olhar duro. -- So meninos iguais a homens. Vivem como homens, conhecem a vida toda, -tudo...
E preciso tratar com jeito, fazer concesses.
  -- Por isso o senhor faz o que eles querem...
  -- s vezes tenho que fazer para conseguir um bom resultado...
  -- Compactua com os roubos, com os crimes destes perversos...
  -- Que culpa eles tm? -- o padre se lembrava de Joo de Ado. -- Quem cuida deles? Quem os ensina? Quem os ajuda? Que carinho eles tm? -- estava exaltado e o
Cnego se afastou mais dele, enquanto o fitava com os olhinhos duros. -- Roubam para comer porque todos
estes ricos que tm para botar fora, para dar para as igrejas, no se lembram que existem crianas com fome... Que culpa...
  -- Cale-se -- a voz do Cnego era cheia de autoridade. -- Quem, o visse falar diria que  um comunista que est falando. E no  difcil. No meio dessa gentalha
o senhor deve ter aprendido as teorias deles...
  O senhor  um comunista, um inimigo da Igreja...
  O padre o olhou horrorizado. O Cnego levantou-se, estendeu a mo para o padre:
  -- Que Deus seja suficientemente bom para perdoar seus atos e suas palavras. O senhor tem ofendido a Deus e  Igreja. Tem desonrado as vestes sacerdotais que leva.
Violou as leis da Igreja e do (p. 145) Estado. Tem agido como um comunista. Por isso nos vemos obrigados a no lhe dar to cedo a parquia que o senhor pediu. V
(agora sua voz voltava a ser doce, mas de uma doura cheia de resoluo, uma doura que no admitia rplicas), penitencie-se dos seus pecados, dedique-se aos fiis
da igreja em que trabalha e esquea essas idias comunistas, seno, teremos que tomar medidas mais srias. O senhor pensa que Deus aprova o que est fazendo? Lembre-se
que a sua inteligncia  muito pequena, o senhor no pode penetrar nos desgnios de Deus...
  Virou as costas ao padre e foi saindo. O padre Jos Pedro deu dois passos at ele, falou com voz estrangulada:
  -- Se tem um at que quer ser padre...
  O Cnego voltou-se:
  -- A entrevista est terminada, padre Jos Pedro. Pode se retirar e que Deus o ajude a pensar melhor...
  Mas o padre ainda ficou parado uns minutos, querendo dizer alguma coisa. Mas no dizia nada, estava como que apatetado, olhando a porta por onde o Cnego tinha
sado. Naquele momento no podia pensar em nada. Estava cmico com a mo ainda estendida, o corpo meio cado para um lado, a batina suja e remendada, os olhos abertos,
apavorados, os lbios tremendo como que querendo falar. As pesadas cortinas impediam que a luz entrasse na sala. O padre ainda se demorou na obscuridade.
  Um comunista... Uma orquestra vagabunda, porm afinada, tocava uma velha valsa na rua:
  Fiquei sem alegria, senhor meu Deus...
  O padre Jos Pedro ia encostado  parede. O Cnego dissera que ele no podia compreender os desgnios de Deus. No tinha inteligncia, estava falando igual a um
comunista. Era aquela palavra que mais perseguia o padre. De todos os plpitos todos os padres tinham falado contra aquela palavra. E agora ele... O Cnego era muito
inteligente, estava prximo de Deus pela inteligncia, era-lhe fcil ouvir a voz de Deus. Ele estava errado, perdera aqueles dois anos de (p. 146) tanto trabalho.
Pensara levar tantas crianas a Deus... Crianas extraviadas... Ser que elas tinham culpa? Deixai vir a mim as criancinhas... Cristo... Era uma figura radiosa e
moa. Os sacerdotes tambm disseram que ele era um revolucionrio. Ele queria
as crianas... Ai de quem faa mal a uma criana... A viva Santos era uma protetora da Igreja... Ser que ela tambm ouvia a voz de Deus? Dois anos perdidos...
Fazia concesses, sim, fazia. Seno, como tratar com os Capites da Areia? No eram crianas iguais s outras... Sabiam tudo, at os segredos do sexo. Eram como
homens, se bem fossem crianas... No era possvel trat-los como aos meninos que vo ao colgio dos jesutas fazer a primeira comunho. Aqueles tm  me, pai, irms,
padres confessores e roupas e comida, tm tudo.. Mas no seria ele quem podia dar lies ao Cnego... O Cnego sabia de tudo, era muito inteligente. Podia ouvir
a voz de Deus... Estava prximo de Deus... No foi dos alunos mais brilhantes... Tinha sido dos piores... Deus no ia falar a um padre ignorante... Ouvia Joo de
Ado. Um comunista como Joo de Ado... Mas os comunistas so maus, querem acabar tudo... Joo de Ado era um homem bom... Um comunista... E Cristo? No, no podia
pensar que Cristo fosse um comunista... O Cnego devia entender melhor que um pobre padre de batina suja... O Cnego era inteligente e Deus  a suprema inteligncia...
Pirulito queria ser padre. Queria ser padre, sim, a sua vocao era verdadeira. Mas pecava todos os dias, roubava, assaltava. No era culpa deles... Est falando
como um comunista... Por que este vai num automvel, fuma um charuto? Falando como um comunista... O Cnego disse, ser que Deus o perdoa?
  O padre Jos Pedro vai encostado  parede. As ltimas notas da orquestra distante chegam aos seus ouvidos. Os olhos do padre esto esbugalhados.
  Sim, padre Jos Pedro, Deus s vezes fala aos mais ignorantes... Aos mais ignorantes... Ele era ignorante... Mas, Deus, ouvi... So uns pobres meninos... Que sabem
eles do bem e do mal? Se ningum nunca lhes ensinou nada? Nunca uma mo de me nas suas cabeas. Uma palavra boa de um pai. Senhor, eles no sabem o que fazem...
Por isso estive com eles, fiz como eles queriam muitas vezes...
  O padre aperta as mos, as eleva para o cu.

  (p. 147)

  Ser que um comunista age assim? Dar um pouco de conforto quelas pequenas almas. Salv-las, melhorar seus destinos... Antes dali s saam ladres, batedores de
carteira, vigaristas, os melhores eram os malandros... A profisso mais digna... Queria que agora sassem homens para o trabalho, honestos, dignos... Tinha que ir
aos poucos... Do reformatrio saam piores... No  com castigo brutal, Deus, ouvi... L o castigo  brutal... S com pacincia, com bondade... Cristo tambm pensava
assim... Por que como um comunista?... Deus pode falar a um ignorante... Abandonar as crianas? A parquia est perdida... Me velha que soluar... E a carreira
da irm na Escola Normal? Tambm ela quer ensinar a crianas... Mas sero outras crianas, crianas com livros, com pai, com me... No sero iguais a estas abandonadas
na rua, dormindo sob a lua, nas pontes, nos trapiches... No pode abandon-las. Com quem estar Deus? Com o Cnego ou com o pobre padre? A viva... No, Deus est
com o padre... Est com o padre. . . Sou muito ignorante para ouvir a voz de Deus... (Se esconde na porta de uma igreja.) Mas por vezes Deus fala aos ignorantes...
(Sai da porta da igreja, continua a caminhada encostado na parede.) Continuar, sim. Se estiver errado, Deus o perdoar... As boas intenes no desculpam os maus
atos. Mas Deus  a suprema bondade... Continuar... Os Capites da Areia talvez no dem s ladres... E no seria uma grande alegria para Cristo?. . . Sim, Cristo
sorri.  uma figura radiosa. Sorri o padre Jos Pedro. Obrigado, meu Deus, obrigado.
  O padre ajoelha na rua, levanta as mos para o cu. Mas olha a gente que sorri. Se pe de p espantado, salta num bonde cheio de vergonha.
  Um homem comenta:
  -- Olha um padre bbado. Que descarado...
  Todos riem no ponto de bondes.
  Boa-Vida meteu a unha negra, rasgou a bolha. Depois espiou o brao: estava cheio. Por isso sentia tanto calor, um amolecimento no corpo. Era a febre da bexiga.
A cidade pobre estava assolada de bexiga.
  Os mdicos diziam que a epidemia j estava declinando, mas ainda (p. 148) assim eram muitos os casos, todos os dias ia gente para o lazareto. Gente que no voltava,
pensou Boa-Vida. At Almiro, por cuja causa se armara to grande barulho no trapiche, fora para o lazareto. E no voltara... Era um menino bonito. Havia quem dissesse
que ele e Barando... Mas no era ruim, no aborrecia ningum. Sem-Perna armara um escndalo. Depois que soubera que ele morrera ficara ainda mais retrado, parecia
o culpado da morte de Almiro. No conversava com ningum. S com o cachorro que arranjara.
  -- Acaba doido... -- pensou Boa-Vida.
  Acendeu um cigarro. Andou para o trapiche. S o Professor estava. quelas horas da tarde era difcil que estivesse algum no trapiche. Professor viu quando ele
entrou:
  -- Passa um cigarro, Boa-Vida.
  Boa-Vida jogou um. Chegou no seu canto, fez uma trouxa com seus trapos. Professor ficou espiando aquele movimento:
  -- Tu vai embora?
  Boa-Vida andou at ele com a trouxa debaixo do brao:
  -- Tu no diz a ningum... S a Bala...
  -- Pra onde tu vai?
  O mulato riu:
  -- Pro lazareto...
  Professor olhou os braos cheios de bolhas, o peito.
  -- Tu no vai, Boa-Vida...
  -- Por que, mano?
  -- Tu sabe...  buraco na certa...
  -- Tu pensa que eu vou ficar aqui pra pegar nos outros?
  -- A gente trata de tu...
  -- Morria tudo. Almiro tinha casa, t certo. Eu no tenho ningum.
  Professor calou-se. Queria dizer muita coisa. O mulato estava na sua frente, a trouxa debaixo do brao cheio de bolha de bexiga. Boa Vida falou:
  -- Tu diz a Pedro Bala. Os outros no precisa.
  Professor s soube dizer:
  -- Tu vai mesmo?
  Boa-Vida fez que sim, saram do trapiche. Boa-Vida olhou a cidade, fez um gesto com a mo. Era como um adeus. Boa-Vida era malandro e ningum ama sua cidade como
os malandros. Olhou o Professor:
  -- Quando tu fizer meu retrato... Tu ainda vai fazer?
  -- Vou, Boa-Vida... (Vontade de dizer palavras carinhosas como a um irmo.)
  -- No me faz cheio de bexiga, no...
  Seu vulto desapareceu no areal. Professor ficou com as palavras presas, um n na garganta. Mas tambm achava bonito Boa-Vida andar assim para a morte para no
contaminar os outros. Os homens assim so os que tm uma estrela no lugar do corao. E quando morrem o corao fica no cu, diz o Querido-de-Deus. Boa-Vida era
um menino, no era um homem. Mas j tinha uma estrela no lugar do corao. J desapareceu o seu vulto. E ento a certeza de que no mais ver seu amigo encheu o
corao do Professor. A certeza de que o outro ia para a morte.
  Nas macumbas em honra de Omolu, o povo negro, castigado com a bexiga, cantava:
  Cabono,
  aziela engoma!
  Quero v couro zoa!
  Omolu vai pro serto
  Bexiga vai espalha.
  Omolu espalhara a bexiga na cidade. Era uma vingana contra a cidade dos ricos. Mas os ricos tinham a vacina, que sabia Omolu de vacinas? Era um pobre deus das
florestas d'frica. Um deus dos negros pobres. Que podia saber de vacinas? Ento a bexiga desceu e assolou o povo de Omolu. Tudo que Omolu pde fazer foi
transformar a bexiga de negra em alastrim, bexiga branca e tola. Assim mesmo morrera negro, morrera pobre. Mas Omolu dizia que no fora o alastrim que matara. Fora
o lazareto. Omolu s (p. 150) queria com o alastrim marcar seus filhinhos negros. O lazareto  que os matava. Mas as macumbas pediam que ele levasse a bexiga da
cidade, levasse para os ricos latifundirios do serto. Eles tinham dinheiro, lguas e lguas de terra, mas no sabiam tampouco da vacina. O Omolu diz que vai pro
serto. E os negros, os ogs, as filhas e pais-de-santo cantam:
  Ele  mesmo nosso pai
e  quem pode nos ajudar...
  Omolu promete ir. Mas para que seus filhos negros no esqueam avisa no seu cntico de despedida:
  Ora, adeus,  meus filhinhos,
  Qu'u vou e torno a vort...
  E numa noite que os atabaques batiam nas macumbas, numa noite de mistrio da Bahia, Omolu pulou na mquina da Leste Brasileira e foi para o serto de Juazeiro.
A bexiga foi com ele.
  Boa-Vida voltou magro, a roupa danando no seu corpo. A cara agora estava toda picada. Os outros o olharam ainda com receio quando naquela noite ele entrou no
trapiche. Mas Professor andou logo para ele:
  -- Ficou bom, mulato?
  Boa-Vida sorriu. Vinham apertar a mo dele, Pedro Bala lhe deu um abrao:
  -- Mulato bom. Mulato batuta.
  At Sem-Pernas veio, Joo Grande ficou junto de Boa-Vida. O mulato olhou os amigos. Pediu um cigarro. Sua mo estava descarnada, o rosto ossudo. Ficou calado,
olhando com amor o velho trapiche, os meninos, o cachorro que estava deitado no colo do Sem-Pernas.
  Ento Joo Grande perguntou:
  -- Como era o lazareto?
  Boa-Vida se voltou rpido. Seu rosto tomou uma expresso amarga de desgosto. Demorou um pouco a responder. Depois as palavras saram com dificuldade:
  -- Ningum sabe dizer, no.  uma coisa por demais... Uma nojeira. A gente quando entra  igual um que entra no caixo...
  Olhou os outros, que estavam suspensos das suas palavras. Sua voz era amarga
  -- Igual que entrasse pro caixo pra ir pro cemitrio... Igual...
  No achou mais que dizer. Sem-Pernas perguntou entre dentes:
  -- Que mais?
  -- Nada. Nada. No sei, no... Por Deus, no pergunte... -- baixou a cabea, que balanava para todos os lados. Sua voz saiu muito baixa, como que ainda amedrontada:
--  mesmo que ir pro cemitrio.       Tudo j est morto.
  Olhou como se pedisse que no lhe perguntassem mais nada. Joo Grande disse para os outros:
  -- A gente no devia perguntar nada...
  Boa-Vida apoiou com um gesto da mo. Disse baixinho:
  -- Nada...  ruim demais...
  Professor olhou o peito de Boa-Vida. Estava todo picado da varola. Mas no lugar do corao Professor viu uma estrela.
  Uma estrela no lugar do corao.
  Destino
  Ocuparam a mesa do canto. O gato puxou o barulho. Mas nem Pedro Bala, nem Joo Grande, nem Professor, tampouco Boa-Vida se interessaram. Esperavam o Querido-de-Deus
na Porta do Mar. As mesas estavam cheias. Muito tempo a Porta do Mar andara sem fregueses. A varola no deixava. Agora que ela tinha ido embora, os homens comentavam
as mortes. Algum falou no lazareto.  uma desgraa ser pobre, disse um martimo.
  Numa mesa pediram cachaa. Houve um movimento de copo no balco. Um velho ento disse:
  -- Ningum pode mudar o destino.  coisa feita l em cima -- apontava o cu.
  Mas Joo de Ado falou de outra mesa:
  -- Um dia a gente muda o destino dos pobres...
  Pedro Bala levantou a cabea, Professor ouviu sorridente. Mas Joo Grande e Boa-Vida pareciam apoiar as palavras do velho, que repetiu:
  -- Ningum pode mudar, no. Est escrito l em cima.
  -- Um dia a gente muda... -- disse Pedro Bala, e todos olharam para o menino.
  -- Que  que tu sabe, frangote? -- perguntou o velho.
  --  filho do Loiro, fala a voz do pai respondeu Joo
  Ado olhando com respeito. -- O pai morreu pra mudar o destino da gente.
  Olhou para todos. O velho calou e tambm olhava com respeito.
  A confiana foi de novo chegando para todos. L fora um violo comeou a tocar.

  Noite da grande paz, da
grande paz dos teus olhos

  (p. 157)

  Filha de Bexiguento

  A msica j recomeara no morro. Os malandros voltavam a tocar violo, a cantar modinhas, a inventar sambas que depois vendiam aos sambistas clebres da cidade.
Na venda de Deoclcio novamente ficava um grupo todas as tardes. Durante algum tempo tudo cessara no morro para dar lugar ao choro e lamentaes das mulheres e crianas.
Os homens passavam de cabea baixa para as suas casas ou para o trabalho. E os caixes negros de adultos, os caixes brancos de virgens, os pequenos caixes de crianas
desciam as speras ladeiras do morro para o cemitrio distante. Isso quando no eram sacos que desciam com os variolosos ainda vivos que eram levados para o lazareto.
A famlia chorava como choraria a um morto, pela certeza de que eles no voltariam jamais. Nem a msica de um violo. Nem a voz cheia de um negro cortava ento a
tristeza do morro. S a reza das sentinelas, o choro convulsivo das mulheres.
  Assim estava o morro quando Estvo foi levado para o lazareto. No voltou, certa tarde Margarida soube que ele morrera por l. Nesta tarde ela j estava com febre.
Mas o alastrim parecia ser dos mais mansos no corpo da lavadeira e ela escondeu de todos a notcia,
  conseguiu no ser metida num saco. Aos poucos foi melhorando. Os dois filhos andavam pela casa, fazendo o que ela mandava. Z Fuinha era um bocado intil, ainda
no sabia fazer nada, com seus seis anos.
  Mas Dora tinha treze para quatorze anos, os seios j haviam comeado a surgir sob o vestido, parecia uma mulherzinha, muito sria, a buscar os remdios para a
me, a tratar dela. Margarida melhorou quando j os violes recomeavam a tocar no morro, porque a epidemia de (p. 158) varola tinha se acabado. A msica voltou
a dominar as noites do morro e Margarida, se bem ainda no estivesse completamente boa, foi  casa de algumas de suas freguesas em busca de roupa. Voltou com a trouxa
nas costas, se atirou para a fonte. Trabalhou o dia todo, sob o sol e a chuva que caiu pela tarde. No outro dia no voltou ao trabalho porque recaiu do alastrim
e a recada  sempre terrvel. Dois dias depois descia do morro o ltimo caixo feito pela varola. Dora no soluava. Corriam as lgrimas pelo seu rosto, mas enquanto
o caixo descia ela pensava era em Z Fuinha, que pedia o que comer. O irmozinho chorava de dor e de fome. Era muito menino para compreender que tinha ficado sem
ningum na imensido da cidade.
  Os vizinhos deram jantar aos rfos nesta tarde. No outro dia pela manh o rabe que era dono dos barraces do morro mandou derramar lcool no de Margarida para
desinfetar. E logo o alugou, pois era um barraco bem situado, bem no alto da ladeira. E enquanto os vizinhos discutiam o problema dos rfos, Dora tomou o irmo
pela mo e desceu para a cidade. No se despediu de ningum, era como uma fuga. Z Fuinha ia sem saber para onde, arrastado pela irm. Dora marchava tranqila. Na
cidade havia de encontrar quem lhes desse de comer, quem pelo menos tomasse conta de seu irmo. Ela arranjaria um emprego de copeira numa casa. Ainda era uma menina,
mas havia muitas casas que preferiam mesmo uma menina porque o ordenado era menor. Sua me certa vez falara em a empregar de copeira na casa de uma freguesa. Dora
sabia onde era e se dirigiu para l. O morro, a msica dos violes, o samba que um negro cantava ficaram para trs. Os ps descalos de Dora se queimam no asfalto
ardente. Z Fuinha vai alegre, vendo a cidade para ele desconhecida, os bondes que passam repleto, as marinetes que buzinam, a multido que corta as ruas. Dora fora
com Margarida certa vez  casa desta freguesa.  na Barra, elas tinham ido num bonde bagageiro, levando a trouxa de roupa lavada. A dona da casa fizera festa a Dora,
perguntara se ela queria vir trabalhar ali. Margarida ficara de traz-la quando ela estivesse mais crescida. Era para l que Dora pensava ir. E perguntando a um
e a outro tomou o caminho da Barra. A caminhada era grande, o sol no asfalto queimava seus ps (p. 159) sem sapato. Z Fuinha comeou a pedir de comer e a se queixar
do cansao. Dora o acalentou com promessas e seguiram. Mas no
  Campo Grande Z Fuinha no pde mais. A caminhada era demasiada para ele, para os seus seis anos. Ento Dora entrou numa padaria, trocou os nicos quinhentos ris
que possua, comprou dois pes dormidos, deixou Z Fuinha sentado num banco com os pes:
  -- Tu come e me espera, t ouvindo? Eu vou ali, volto j. Mas no v sair daqui, seno voc se perde...
  Z Fuinha prometeu com uma cara muito sria, dando dentadas nos pes duros. Ela o beijou e seguiu.
  O guarda que a informou olhou para os seus seios que nasciam. O cabelo loiro dela, maltratado, voava com o vento. Sentia queimaduras nas solas dos ps e um cansao
no corpo todo. Mas seguiu. O nmero era 611. Quando chegou ao 53 parou um pouco para descansar e pensar o que diria  dona da casa. Depois retomou a caminhada. Agora
a fome ajudava a magoar seu corpo, a fome terrvel das crianas de 13 anos, uma fome que exige comida imediatamente. Dora tinha vontade de chorar, de se deixar cair
na rua, sob o sol, e no fazer movimentos. Uma saudade dos pais mortos a invadiu. Mas reagiu contra tudo e continuou.
  O 611 era uma casa grande, quase um palacete, com rvores na frente. Numa mangueira, um balano onde uma menina da idade de Dora se divertia. Um rapazote dos seus
17 anos a balanava e riam os dois. Eram os filhos do dono da casa. Dora ficou a olh-los com inveja uns minutos. Depois tocou a campainha. O rapaz olhou, mas continuou
a balanar a irm. Dora tocou novamente, a empregada veio. Ela explicou que queria falar com dona Laura, a patroa. A empregada a olhou com desconfiana. Mas o rapazola
deixou de balanar a irm e andou at o porto. Espiava os seios mal nascidos de Dora, os pedaos de coxas que apareciam sob o vestido. Perguntou:
  -- O que  que voc quer?
  -- Eu queria falar com dona Laura. Sou filha de Margarida, que foi lavadeira dela... No v que ela morreu...
  O rapaz no despregava os olhos dos seios de Dora. Era bonita a menina, de olhos grandes, cabelo muito loiro, neta de italiano com(p. 161)  uma mulata. Margarida
dizia que ela puxara ao av, que tambm tinha cabelos muito loiros e um bigodo bem tratado. Dora baixou os olhos porque o rapaz no tirava os dele dos seus peitos.
Ele tambm se desconcertou, falou para a empregada:
  -- V chamar mame...
  -- Sim, senhor.
  O rapaz puxou um cigarro, acendeu. Jogou a fumaa para cima estendendo o beio, deu mais uma espiada para os peitos de Dora:
  -- Voc est procurando emprego?
  -- Tou, sim senhor.
  O vento levantou um pouco o vestido dela. Ele teve pensamento canalhas ao ver o pedao de coxa. J se sonhava na cama, Dora trazendo o caf pela manh, a safadeza
que se seguiria.
  -- Vou ver se mame arranja um lugar pra voc...
  Ela agradeceu. Mas estava um pouco assustada, se bem lhe escapasse muito da malcia dos olhares dele. Dona Laura chegou, os cabelos grisalhos, a filha atrs dela,
espiando Dora com olhos compridos. Era sardenta, mas tinha certa graa.
  Dora contou que a me tinha morrido:
  -- A senhora tinha me prometido um emprego...
  -- De que foi que Margarida morreu?
  -- De bexiga, sim senhora.
  Dora no sabia que dizendo aquilo tinha perdido a possibilidade do emprego.
  -- De varola?
  A mocinha se afastou receosa. At o rapaz se desviou um pouco, pensou nos seios pequenos de Dora marcados de varola. Cuspiu com nojo. Dona Laura tomou um tom
triste:
  --  que j tomei outra empregada. Agora no tenho necessidade...
  Dora pensou em Z Fuinha:
  -- A senhora no tem preciso de um menino pequeno pra faz compra, recados, estas coisas?  meu irmo...
  -- No, minha filha, no tenho. (p. 161)
  -- No sabe de ningum?
  -- No. Se soubesse recomendaria voc...
  Queria acabar a conversa. Voltou-se para o filho:
  -- Voc tem dois mil-ris a, Emanuel?
  -- Pra que, mame?
  -- Me d.
  O rapaz deu, ela ps em cima da grade. Tinha medo de tocar em
  Dora, queria que fosse dali, antes de contagiar a casa.
  -- Leve isso para voc. Que Deus lhe ajude...
  Dora voltou a descer a rua. O rapaz ainda espiou as ndegas que apareciam redondas sob o vestido apertado. Mas a voz de dona Laura o interrompeu. Ela falava para
a empregada:
  -- Dos Reis, passe um pano com lcool no porto, onde esta menina pegou. No  bom brincar com varola...
  O rapaz voltou a balanar a irm sob as mangueiras. Mas de vez em quando suspirava para si mesmo: tinha uns peitos muito bons...
  Z Fuinha no estava no banco. Dora levou um susto. Era capaz que o irmo tivesse sado andando pela cidade e se perdesse. E como ela o iria encontrar, ela que
to pouco conhecia a cidade? Demais um grande cansao a invadia, um desnimo, saudade da me morta, vontade de chorar. Os ps doam e ela tinha fome. Pensou em comprar
po (agora possua dois mil e quatrocentos), mas em vez disto saiu em busca do irmo. Foi encontr-lo embaixo das rvores do jardim
  comendo ameixas verdes. Dora deu-lhe uma pancada na mo:
  -- Tu no sabe que isso faz dor de barriga?
  -- Tou com fome...
  Ela comprou po, comeram. A tarde toda foi uma caminhada de um lado para outro  procura de emprego. Em todas as casas diziam que no, o medo da varola era maior
que qualquer bondade. No comeo da noite Z Fuinha no se agentava mais de cansado. Dora estava triste e pensava em voltar ao morro. Ia ser uma carga para os vizinhos
pobres. No queria voltar. Do morro sua me tinha sado num caixo, seu pai metido num saco. Mais uma vez deixou Z Fuinha sozinho num jardim para ir comprar o que
comer numa padaria, antes que fechasse. Gastou os ltimos nqueis. As luzes se (p. 162) acenderam e ela achou a princpio muito bonito. Mas logo depois sentiu que
a cidade era sua inimiga, que apenas queimara os seus ps e a cansara. Aquelas casas bonitas no a quiseram. Voltou curvada, afastando com as costas das mos as
lgrimas. E novamente no encontrou Z Fuinha. Depois de andar em volta do jardim foi dar com o irmo, que espiava um jogo de gude entre dois garotos: um negro forte
e um magrelo branco. Dora sentou num banco, chamou o irmo.
  Os garotos que jogavam se levantaram tambm. Ela desembrulhou os pes, deu um a Z Fuinha. Os garotos a olhavam. O preto estava com fome, ela bem viu. Ofereceu
do po a eles. Ficaram os quatro comendo o po dormido (era mais barato) em silncio. Quando terminaram, o preto bateu as mos uma na outra, falou:
  -- Teu irmo disse que a me de voc morreu de bexiga...
  -- Papai tambm...
  -- L tambm morreu um...
  -- Teu pai?
  -- No. Foi Almiro, um do grupo.
  O branco magrelo, que tinha estado calado, perguntou:
  -- Voc arranjou onde trabalhar?
  -- Ningum quer filha de bexiguento...
  Agora chorava. Z Fuinha brincava no cho com as bolas que os outros tinham deixado perto das rvores. O preto coava a cabea. O magrelo olhou para ele, depois
para Dora:
  -- Tu tem onde dormir?
  -- No.
  O magrelo falou para o negro:
  -- A gente leva ela pro trapiche...
  -- Uma menina... O que  que Bala vai dizer?
  -- T chorando disse o magrelo em voz muito baixa.
  O negro olhou. Evidentemente estava atarantado. O branco coou o pescoo, espantando uma mosca. Botou a mo no ombro de Dora muito devagarinho, como se tivesse
medo de a tocar:
  -- Vem com a gente. A gente dorme num trapiche...
  O preto fez esforo para sorrir: (p. 163)
  -- No  um palacete, mas  melhor que a rua...
  Andaram. Joo Grande e Professor iam na frente. Ambos tinham vontade de conversar com Dora, mas nenhum sabia o que dizer, no tinham se visto ainda num apuro assim.
A luz das lmpadas batia nos cabelos loiros dela. O preto disse:
  --  uma lindeza.
  -- Batuta fez Professor.
  Mas no olhavam nem os seios, nem as coxas. Olhavam o cabelo loiro batido pela luz das lmpadas eltricas.
  No areal Z Fuinha no pde mais ir andando. O negro Joo Grande pegou a criana (apesar de ser tambm criana...) e a botou nas costas. Professor ia junto de
Dora, mas estavam calados na noite.
  Entraram no trapiche meio desconfiados. Joo Grande arriou Z Fuinha no cho, ficou parado, esperando que o Professor e Dora entrassem. Foram todos para o canto
do Professor, que acendeu a vela. Os outros espiavam para o canto com surpresa. O cachorro do Sem-Pernas latiu.
  -- Gente nova... -- murmurou o Gato, que ia sair.
  Gato andou at onde eles estavam:
  -- Quem , Professor?
  -- A me e o pai morreu de bexiga. Tavam na rua, sem ter onde dormir. Gato olhou para Dora ensaiando seu melhor sorriso. Fez uma espcie de saudao (tinha visto
num cinema um gal fazendo) com o corpo, ensaiou uma frase que tinha ouvido certa vez:
  -- Boas-vindas, madame...
  No se lembrou do resto, ficou meio encabulado, foi embora ver Dalva. Mas os demais j se aproximavam. Sem-Pernas e Boa-Vida vinham na frente. Dora olhava assustada.
Z Fuinha dormia de cansao. Joo Grande se ps na frente de Dora. A luz da vela iluminava o cabelo loiro da menina, de quando em vez pousava nos seios. (p. 164)
Professor se levantou, encostou-se na parede. Agora a lua aparecia pelos buracos do teto.
  Boa-Vida estava diante deles. Sem-Pernas vinha coxeando, e os outros logo atrs, os olhos estirados para Dora. Boa-Vida falou:
  -- Quem  essa lasca?
  Professor se adiantou:
  -- Tava com fome. Ela e o irmo. A bexiga matou o pai e a me.
  Boa-Vida riu um riso largo. Empinou o corpo:
  --  um peixo...
  Sem-Pernas riu seu riso burlo, apontou os outros:
  -- T tudo como urubu em cima da carnia...
  Dora se chegou para junto de Z Fuinha, que acordara e tremia de medo. Uma voz disse entre os meninos:
  -- Professor, tu t pensando que a comida  s pra tu e pra Joo Grande? Deixa pra ns tambm...
  Outro gritou:
  -- J tou com o ferro em brasa...
  Muitos riram. Um se adiantou, mostrou o sexo a Joo Grande
  -- V como a bichinha est, Grande. Doidinha...
  Joo Grande e se ps na frente de Dora. No dizia nada, mas puxou o punhal. O Sem-Pernas gritou:
  -- Tu assim no arranja nada. Ela tem que ser pra todos.
  Professor replicou:
  -- No to vendo que  uma menina...
  -- J tem peito! -- gritou uma voz.
  Volta Seca saiu de entre o grupo. Trazia os olhos muito excitado um riso no rosto sombrio:
  -- Lampio tambm no respeita cara. D ela pra gente
  Grande...
  Sabiam que Professor era fraco, no agentava pancada. Estava doidamente excitados, mas ainda temiam Joo Grande, que segurava o punhal. Volta Seca se via como
no meio do grupo de Lampio, pronto para deflorar junto com todos uma filha de fazendeiro. A vela
iluminava os cabelos loiros de Dora. Ia um pavor pelo rosto dela.
  Joo Grande no dizia nada, mas segurava o punhal na mo. Professor abriu a navalha, ficou junto dele. Ento Volta Seca tambm puxou do punhal, comeou a avanar.
Os outros vinham por detrs dele, o cachorro latia. Boa-Vida falou mais uma vez:
  -- Desaparta, Grande.  melhor...
  Professor pensava que se o Gato estivesse ali, estaria do lado deles, porque o Gato j, tinha mulher. Mas o Gato j tinha sado.
  Dora via o grupo avanar. O medo foi vencendo o desnimo e o cansao em que estava. Z Fuinha chorava. Dora no tirava os olhos de Volta Seca. A cara sombria do
mulato estava aberta em desejo, um riso nervoso a sacudia. Viu tambm os sinais da varola no rosto de
  Boa-Vida quando este passou em frente da vela, e ento se lembrou da me morta. Um soluo a sacudiu e deteve um momento os meninos. Professor disse:
  -- No v que ela t chorando.
  Eles pararam um momento. Mas Volta Seca falou:
  -- E ns com isso? A babaca  a mesma...
  Continuaram avanando. Iam vagarosamente, os olhos fixos ora em Dora, ora no punhal que Joo Grande tinha na mo. De repente se apressaram, chegaram muito mais
perto. Joo Grande falou pela primeira vez:
  -- Furo o primeiro...
  Boa-Vida riu, Volta Seca manejou o punhal. Z Fuinha chorava, Dora o olhou com os olhos apavorados. Se abraou nele, viu Joo Grande derrubar Boa-Vida. A voz de
Pedro Bala, que entrava, fez com que parassem:
  -- Que diabo  isso?
  Professor levantou-se. Volta Seca o soltou, j o havia cortado no brao. Boa-Vida ficou deitado como estava, um talho no rosto. Joo Grande continuou em guarda
na frente de Dora. Pedro Bala se adiantou:
  -- Que  isso?
  Boa-Vida falou do cho mesmo:

  (p. 166)

  -- Estes frescos arranjaram uma comida e quer que seja para ele s. A gente tambm tem direito...
  -- Tambm. Eu pelo menos quero trepar hoje... --esganiou Sem-Pernas.
  Pedro Bala olhou para Dora. Viu os peitos, o cabelo loiro.
  -- To com o direito... -- falou. -- Arreda, Joo Grande.
  O negro olhou Pedro Bala espantado. O grupo avanava novamente, agora chefiado por Pedro Bala. Joo Grande estendeu os braos, gritou:
  -- Bala, eu como o primeiro que chegar aqui.
  Pedro Bala adiantou mais um passo:
  -- Sai, Grande.
  -- Tu no t vendo que  uma menina? Tu no t vendo?
  Pedro Bala parou, o grupo parou atrs dele. Agora Pedro Bala olhava Dora com outros olhos. Via o terror no rosto dela, as lgrimas que caam dos olhos. Ouviu o
choro de Z Fuinha. Joo Grande falava:
  -- Eu sempre tive contigo, Bala. Sou teu amigo, mas ela  uma menina, fui eu e Professor que trouxe ela. Eu sou teu amigo, mas se tu vier eu te mato.  uma menina,
ningum faz mal a ela...
  -- A gente te derruba e depois... -- disse Volta Seca.
  -- Cala a boca gritou Pedro Bala.
  Joo Grande continuou:
  -- O pai dela, a me dela morreu de bexiga. A gente encontrou ela, no tinha onde dormir, a gente trouxe ela. No  uma puta,  uma menina, no v que  uma menina?
Ningum toca nela, Bala.
  Pedro Bala disse baixinho:
  --  uma menina...
  Pulou para o lado de Joo Grande e de Professor.
  -- Tu  um negro bom. Tu t com o direito... -- voltou-se para os outros. -- Quem quiser vir, venha...
  -- Tu no pode fazer isso, Bala... -- e Boa-Vida passava a mo no talho. -- Tu agora quer comer ela s com o Grande e Professor...

  (p. 167)

  -- Juro que no quem comer ela, nem eles quer.  uma menina. Mas ningum toca nela. Quem quiser que venha...
  Os menores e mais medrosos foram se afastando. Boa-Vida se levantou, foi para seu canto, limpando o sangue. Volta Seca falou para Pedro Bala devagar:
  -- Eu no vou no  de
medo.  que tu disse que  uma menina.
  Pedro Bala se aproximou de Dora:
  -- Tem medo, no. Ningum toca em voc.
 Ela saiu do seu canto, arrancou um pedao da fralda, comeou a ver a ferida do Professor. Depois marchou para onde estava Boa-Vida (que se encolheu todo), molhou
a ferida do malandro, botou um pano em cima. Todo o temor, todo o cansao tinham desaparecido. Porque confiava em Pedro Bala. Depois perguntou a Volta-Seca:
  -- Tambm t ferido?
  -- No... -- fez o mulato sem compreender. E fugiu para seu canto. Parecia ter medo de Dora.
  Sem-Pernas espiava. O cachorro saiu do colo dele, veio lamber os ps de Dora. Ela o acarinhou, perguntou ao Sem-Pernas:
  --  teu?
  -- , sim. Mas pode ficar com ele.
  Ela sorriu. Pedro Bala andou ao lu no trapiche. Depois disse para todos:
  -- Amanh ela vai embora. No quero menina aqui.
  -- No -- disse Dora. -Eu fico, ajudo vocs. Eu sei cozinhar, coser, lavar roupa.
  -- Por mim pode ficar falou Volta Seca.
  Dora olhou Pedro Bala:
  -- Tu disse que ningum me fazia mal?...
  Pedro Bala olhou os cabelos loiros. A lua entrava pelo trapiche.

  (p. 168)

   Dora, Me

  O gato veio gingando o corpo naquele seu caminhar caracterstico. Andara procurando enfiar a linha na agulha uma imensidade de tempo. Dora fizera Z Fuinha dormir,
agora se preparava para ouvir Professor ler aquela histria to bonita que estava no livro de capa azul. O Gato veio gingando o corpo, se aproximou devagar:
  -- Dora...
  -- Que , Gato?
  -- Tu quer fazer uma coisa?
  Mirava a agulha e a linha que tinha na mo. Parecia estar diante de um problema grave. No sabia como se arranjar. Professor parou a leitura, Gato mudou de conversa:
  -- Tu ainda fica cego de tanto l, Professor... Se ainda fosse luz eltrica... -- olhou Dora sem se resolver.
  -- Que , Gato?
  -- Esse diabo desta linha... Nunca vi coisa mais difcil. Meter isso no rabo desta agulha...
  -- D c...
  Enfiou a linha, deu um n numa das pontas. Gato disse para Professor:
  -- S mulher  que sabe fazer esse troo...
  Estendeu a mo para receber a agulha, mas Dora no entregou.
  Perguntou o que  que Gato tinha que coser. Gato mostrou o palet (p. 169) roto no bolso. Era aquela roupa de casimira que fora do Sem-Pernas quando ele andara
feito menino rico numa casa da Graa:
  --  uma roupa porreta! -- fez o Gato.
  -- Boa mesmo apoiou Dora. -- Tira o casaco.
  Professor e Gato ficaram vendo ela coser. Em verdade no era uma maravilha de costura, mas eles nunca tinham tido ningum que remendasse suas roupas. E somente
Gato e Pirulito tinham costume de remendar eles mesmos as suas. Gato porque era metido a elegante e tinha uma amante, Pirulito porque gostava de andar limpo. Os
outros deixavam que os farrapos que arranjavam se esfarrapassem ainda mais, at se tornarem trapos inteis. Ento mendigavam ou furtavam outra cala e outro palet.
Dora acabou o servio:
  -- Tem mais?
  Gato alisou o cabelo cheio de brilhantina:
  -- As costas da camisa...
  Virou-se. A camisa estava rasgada de cima a baixo. Dora mandou que ele sentasse, comeou a coser no corpo dele mesmo. Quando os dedos dela tocaram pela primeira
vez nas costas de Gato, ele sentiu um arrepio. Como quando Dalva passava as unhas crescidas e tratadas, arranhando suas costas e dizendo:
  -- A gatinha arranha o gatinho...
  Mas Dalva no cosia suas roupas, talvez nem soubesse enfiar uma linha no fundo de uma agulha. Gostava era de se bater com ele na cama, arranhar suas costas, mas
de propsito, pra o arrepiar e o excitar, para que o amor se fizesse ainda melhor. E Dora, no. No era de propsito. A mo dela (unhas maltratadas e sujas, rodas
a dente) no queria excitar, nem arrepiar. Passava como a mo de uma me que remendava camisas do filho. A me do Gato morrera cedo. Era uma mulher frgil e bonita.
Tambm tinha as mos maltratadas, que esposa de operrio no tem manicura. E era dela tambm aquele gesto de remendar as camisas de Gato, mesmo nas costas de Gato.
A mo de Dora o toca de novo. Agora a sensao  diferente. No  mais um arrepio de desejo.  aquela sensao de carinho bom, de segurana que          lhe davam
as mos de sua me. Dora est por detrs dele, ele no v. Imagina ento que  sua me que voltou. Gato est pequenino de novo, vestido com um camisolo de bulgariana
e nas brincadeiras (p. 170) pelas ladeiras do morro o rompe todo. E sua me vem, faz com que ele se sente na sua frente e suas mos geis manejam a agulha, de quando
em vez o tocam e lhe do aquela sensao de felicidade absoluta. Nenhum desejo. Somente felicidade. Ela voltou, remenda as camisa do Gato. Uma vontade de deitar
no colo de Dora e deixar que ela cante para ele dormir, como quando era pequenino. Se recorda que ainda uma criana. Mas s na idade, porque no mais  igual a um
homem furtando para viver, dormindo todas as noites com uma mulher da vida, tomando dinheiro dela. Mas nesta noite  totalmente criana esquece Dalva, suas mos
que o arranham,lbios que prendem os seu em beijos longos, sexo que o absorve. Esquece sua vida de pequeno batedor de carteiras, de dono de um baralho marcado, jogado
desonesto. Esquece tudo,  apenas um menino de quatorze anos com uma mezinha que remenda suas camisas. Vontade de que ela cante para ele dormir... Uma daquelas
cantigas de ninar que falam em bicho-papo. Dora morde a linha, se inclina para ele. Os cabelos loiro dela tocam no ombro do Gato. Mas ele no tem outro desejo seno
que ela continue a ser sua mezinha. Sua felicidade naquele momento  quase absurda.  como se no houvesse existido toda a sua vida depois da morte da sua me.
 como se tivesse se conservado uma criana igual a todas. Porque nesta noite sua me voltou. Por isso a inconsciente carcia dos cabelos loiros de Dora no excita
seu desejo.
  Mas aumenta sua felicidade. E a voz dela que diz: t pronto, Gato, soa aos seus ouvidos direitinho a voz doce e musical de sua me que cantava, a cabea do Gato
recostada no seu colo, cantigas de ninar.
  Levanta, olha Dora com olhos agradecidos:
  -- Voc  a mezinha da gente, agora... -- mas fica encabulada do que diz, pensa que Dora no compreender mesmo porque ela esta rindo com seu rosto srio de quase
mulherzinha. Mas Professor compreende, e Gato, na frente de Dora, falando numa voz feliz, mas sem desejo, chamando-a de me, e ela sorrindo com seu ar maternal de
quase mulherzinha, fica gravado na cabea de Professor como um quadro.
  Gato joga o palet nas costas e sai com seu passo gingado. Sente que h qualquer coisa de novo no trapiche: eles encontraram me, carinho e cuidados de me. Dalva
o estranha nesta noite:
  -- Que foi que Gatinho teve? Que foi?

  (p. 171)

  Mas ele guarda seu segredo.  uma coisa to grande demais encontrar na terra uma me que j morreu. Dalva no o entenderia.
  Quando Professor estava comeando a histria, Joo Grande chegou e sentou-se ao lado deles. A noite era chuvosa. Na histria que Professor lia, a noite era chuvosa
tambm e o navio estava em grande perigo. Os marinheiros apanhavam de chicote, o capito era um malvado. O barco a vela parecia soobrar a cada momento, o chicote
dos oficiais caa sobre as costas nuas dos marinheiros. Joo Grande tinha uma expresso de dor no rosto. Volta Seca chegou com um jornal, mas no interrompeu a histria,
ficou ouvindo. Agora o marinheiro John apanhava chibatadas porque escorregara e cara no meio do temporal. Volta Seca interrompeu:
  -- Se Lampio tivesse a, j tinha comido esse capito no fuzil...
  Foi o que fez o marinheiro James, um homenzarro. Se atirou em cima do capito, a revolta estalou no buque. L fora chovia. Chovia na histria tambm, era a histria
de um temporal e de uma revolta. Um dos oficiais ficou do lado dos marinheiros.
  --  do balacobaco... -- disse Joo Grande.
  Amavam o herosmo. Volta Seca espiou Dora. Os olhos dela brilhavam, ela amava o herosmo tambm. Isso agradou ao sertanejo. Depois o marinheiro James sustentou
uma luta feroz. Volta Seca assoviou como um passarinho de tanto contentamento. Dora riu tambm, satisfeita. Riram os dois juntos, logo foi uma gargalhada dos quatro,
como era costume dos Capites da Areia. Gargalharam alguns minutos, outros se aproximaram, a tempo de ouvir o resto da histria.
  Olhavam o rosto srio de Dora, rosto de uma quase mulherzinha que os fitava com carinho de me. Sorriam e, quando o marinheiro James jogou o capito do navio num
barco salva-vidas e o chamou de cobra sem veneno, eles todos gargalharam junto com Dora, e a olharam com amor. Como crianas olham a me muito amada. Quando a histria
acabou, eles voltaram para os seus cantos entre comentrios:
  -- Porreta...
  -- Macho bamba...

  (p. 172)

  -- Tambm era um prensa...
  -- O capito fez uma cara, hein?
  Volta Seca espichou o jornal para Professor Dora olhou o mulato, ele sorriu meio confuso.
  --  que traz notcias de Lampio... -- seu rosto sombrio clareava. -- Tu sabe que Lampio  meu padrinho?
  -- Padrinho?
  -- Pois ... Foi minha me que tomou, porque Lampio  um macho de verdade, no respeita cara... Minha me era uma mulher valente, uma mulher capaz de agentar
um fuzil. Um dia fez correr dois soldados que se fizeram de besta. Era um mulhero... Valia um homem.
  Dora ouvia encantada. Seu rosto srio fitava com a maior simpatia o rosto sombrio do mulato. Volta Seca ficou calado, mas num jeito de quem queria dizer alguma
coisa. Por fim falou.
  -- Tu tambm  valente... Sabe? Minha me era um mulhero destas grandes. Era mulata, no tinha cabelo loiro, tinha uma carapinha danada... No era mais menina
tambm, podia ser tua av... Mas tu parece com ela...
  Olhou Dora, mas baixou a cabea:
  -- Parece mentira, mas tu me lembra ela. Parece mentira, mas tu parece com ela...
  Professor olhou com seus olhos de mope. Volta Seca quase gritava, seu rosto sombrio tinha a alegria de uma descoberta. Tambm e1e descobriu sua me, pensou Professor.
Dora estava sria, mas sei olhar era carinhoso. Volta Seca riu, ela riu, virou logo gargalhada. Mas Professor no os acompanhou na gargalhada. Comeou a ler muito
rpido o relato do jornal.
  Lampio fora pegado de surpresa ao entrar numa vila. O chofer de um caminho que o vira na estrada com o grupo tocara para a vila e avisara. Dera tempo de pedirem
reforos de vilas prximas e a coluna volante tambm veio. Quando Lampio entrou na vila encontrou foi bala muita pela frente, bala que ele no esperava. O tiroteio
foi grande, Lampio s pde mesmo abrir para a caatinga, que  sua casa. Um dos homens do grupo ficou estirado com um balao no peito. Cortaram

  (p. 173)

a cabea dele, que foi enviada para a Bahia em triunfo. Vinha a fotografia no jornal. A boca aberta, os olhos furados, um homem segurando pela carapinha rala. Tinham
cortado o pescoo a faco.
  Dora comentou:
  -- Coitado dele... Que judiaria!
  Volta Seca olhou agradecido. Seus olhos estavam injetados, seu rosto todavia mais sombrio. Dolorosamente sombrio.
  -- Filho de uma gua... -- disse baixo. -- Filho de uma gua de chofer... Se um dia eu te pegar...
  A  notcia adiantava que Lampio devia ter outros homens feridos, pois a retirada do grupo fora por demais rpida. Volta Seca falou em surdina. Era como se falasse
para si mesmo...
  -- J t em tempo d'eu ir...
  -- Pra onde? -- perguntou Dora.
  -- Pra junto de meu padrim. Ele t precisando de mim...
  Ela o olhou com tristeza:
  -- Tu vai mesmo, Volta Seca?
  -- Vou, sim.
  -- E se a polcia te matar, cortar tua cabea?
  -- Juro que eu eles no topa vivo. Vou com um, mas eu eles no topa vivo... No tem medo, no...
  Afirmava  sua me, forte e valente mulata sertaneja, capaz de brigar com soldados, comadre de Lampio, amsia de cangaceiro, que podia confiar nele, que no o
pegariam vivo, que lutaria at morrer... Dora ouvia com orgulho.
  Professor apertou os olhos e viu tambm, em lugar de Dora, uma sertaneja forte, defendendo seu pedao de terra contra os coronis, com a ajuda amiga dos cangaceiros.
Viu a me de Volta Seca. E era o que o mulato via. Os cabelos loiros eram carapinha rala, os olhos doces eram os olhos achinesados da sertaneja, o rosto grave era
o rosto sombrio da camponesa explorada. E o sorriso era o mesmo sorriso de orgulho de me para filho.

  (p. 174)

   Pirulito a viu chegar com desconfiana. Para ele Dora era o pecado. Havia bastante tempo que ele desistira das negrinhas do areal e da quentura dos corpos se
embolando no areal. Se despia aos poucos
dos seus pecados para aparecer puro aos olhos de Deus e poder merecer a graa de se vestir com as vestes dos sacerdotes. Pensava mesmo em arranjar um lugar de vendedor
de jornais para fugir do pecado dirio do furto.
  Olhava Dora com receio: a mulher era o pecado. Em verdade ela era apenas uma criana, uma criana abandonada como eles. No ria como as negrinhas do areal um riso
insolente de convite, um riso de dentes apertados pelo desejo. Seu rosto era srio, parecia o rosto de uma mulherzinha muito digna. Mas os pequenos seios que nasciam
se empinavam no vestido, o pedao de coxa que aparecia era branco e redondo. Pirulito tinha medo. No tanto da tentao de Dora. Ela no parecia das que tentavam,
era uma criana, era muito cedo para isto. Mas tinha medo da tentao que vinha dentro dele, que o demnio punha dentro dele. E procurava rezar em voz baixa enquanto
ela se aproximava.
  Dora ficou olhando os quadros de santo. Professor parou atrs dela, olhava tambm. Havia flores sob a imagem do Menino Deus que Pirulito furtara um dia. Dora chegou
mais perto:
  --  uma beleza...
  O medo comeou a desaparecer do corao do Pirulito. Ela se interessava pelos seus santos, santos para os quais ningum ligava no trapiche. Dora perguntou:
  --  tudo teu?
  Pirulito fez que sim com a cabea e sorriu. Se adiantou, mostrou tudo que possua. Os quadros, o catecismo, o tero, tudo. Ela olhava com satisfao. Sorria tambm
enquanto Professor a espiava com os olhos mopes. Pirulito contava a histria de Santo Antnio, que tinha estado em dois lugares ao mesmo tempo. Isso para salvar
seu pai da forca, para a qual fora condenado injustamente. Contava do mesmo
modo como Professor lia histrias hericas de  marinheiros corajoso e revoltosos. Dora escutava com a mesma ateno e a mesma simpatia. Conversavam os dois, Professor
calado, ouvindo. Pirulito contou (p. 175) coisas da sua religio, milagres de santos, a bondade do padre Jos Pedro:
  -- Quando tu conhecer ele, vai gostar...
  Ela disse que com certeza. Ele j havia esquecido que ela podia trazer a tentao nos seios de menina, nas coxas gordas, na cabeleira loira, agora falava como
a uma mulher mais velha que o ouvia com carinho. Como a uma me. S ento compreendeu. Porque naquele momento lhe veio uma vontade de contar a ela que queria ser
sacerdote, que queria seguir aquela vocao, que sentia o chamado de Deus. S  sua me teria coragem de contar isso. E ela est na sua frente. Ele fala:
  -- Tu sabe que eu quero ser padre?
  -- Que bom... -- fez ela.
  O rosto de Pirulito se iluminou. Olhou para Dora, falou com a voz exaltada:
  -- Tu pensa que eu mereo? Deus  bom, mas tambm sabe castigar...
  -- Por qu? - havia espanto na pergunta de Dora.
  -- Tu no v que a vida da gente  cheia de pecado?... Todo dia...
  -- A culpa no  da gente... -- esclareceu Dora. -- A gente no tem ningum.
  Mas agora Pirulito tinha a ela. A sua me. Riu satisfeito:
  -- Padre Jos Pedro tambm j disse isso.  capaz...
  Riu mais, ela sorriu tambm animando.
  -- ...  capaz de que um dia eu seja padre.
  -- Tu vai ser, sim.
  -- Tu quer esse Deus Menino pra tu? -- perguntou ele de repente.
  Era como um filho que levasse parte da sua guloseima para sua me, que lhe dera o nquel para que comprasse.
  E Dora aceitou, como uma me aceita parte da guloseima do filho querido para que este fique satisfeito.

  (p. 176)

  Professor via a me de Pirulito, que no sabia como era, como fora. Mas a via ali no lugar de Dora. Sentiu inveja da felicidade de Pirulito.
  Encontraram Pedro Bala estendido na areia. O chefe dos Capites da Areia no entrara para o trapiche nesta noite. Ficara espiando a lua, deitado na quentura boa
da areia. A chuva tinha cessado e vento que corria agora era morno. Professor deitou tambm, Dora sentou entre os dois. Pedro Bala a espiou pelo canto dos olhos,
puxou o bon mais para a cara. Dora disse voltada para ele:
  -- Tu ontem foi bom comigo e meu irmo...
  -- Tu devia ir embora... -- respondeu Bala.
  Ela no disse nada, mas ficou triste. Professor ento falou.
  -- No, Bala.  como uma me... Como uma me, sim. Pra todos...
  Repetia:
  --  como uma me... Como uma me...
  Pedro Bala olhou os dois. Suspendeu o bon, sentou na areia. Mas Dora o olhava com carinho. Para ele... Para ele era tudo: esposa, irm e me. Sorriu confuso para
Dora:
  -- Pensei que fosse ser uma tentao pra todos...
  Ela fez que no, ele continuou:
  -- Depois podiam aproveitar uma hora que a gente no estava...
  Riram. Professor repetiu mais uma vez:
  -- No.  como uma mezinha...
  -- Tu pode ficar-disse Pedro Bala, e Dora sorriu para ele, era o seu heri, uma figura que ela nunca tinha imaginado, mas que um dia haveria de imaginar. Amava-o
como a um filho sem carinho, um irmo corajoso, um amado to belo como no havia outro.
  Mas Professor viu os sorrisos dos dois. E disse ainda uma vez com voz sombria:
  --  como me!

  (p. 177)

  Dora, Irm e Noiva

  Como o vestido dificultava seus movimentos e como ela queria ser totalmente um dos Capites da Areia, o trocou por umas calas que deram a Brando numa casa da
cidade alta. As calas tinham ficado enormes para o negrinho, ele ento as ofereceu a Dora. Tambm estavam grandes para ela, teve que as cortar nas pernas para que
dessem. Amarrou com cordo, seguindo o exemplo de todos, o vestido servia de blusa. Se no fosse a cabeleira loira e os seios nascentes, todos a poderiam tomar como
um menino, um dos Capites da Areia.
   No dia em que, vestida como um garoto, ela apareceu na frente de Pedro Bala, o menino comeou a rir. Chegou a se enrolar no cho de tanto rir. Por fim conseguiu
dizer:
  -- Tu t gozada...
  Ela ficou triste, Pedro Bala parou de rir.
  -- No t direito que vocs me d de comer todo dia. Agora eu tomo parte no que vocs fizer.
  O assombro dele no teve limites:
  -- Tu quer dizer...
  Ela o olhava calma, esperando que ele conclusse a frase.
  -- ... que vai andar com a gente pela rua, batendo coisas...
  -- Isso mesmo -- sua voz estava cheia de resoluo.
  -- Tu endoidou...
  Dizia com voz soturna, porque, para ele, ela tambm no era me. Tambm para o Professor ela era a Amada.

  (p. 178)

  -- No sei por qu.
  -- Tu no t vendo que tu no pode? Que isso no  coisa pra menina. Isso  coisa pra homem.
  -- Como se vocs fosse tudo uns homo.  tudo uns menino.
  Pedro Bala procurou o que responder:
  -- Mas a gente veste cala, no  saia.
  -- Eu tambm e mostrava as calas.
  De momento ele no encontrou nada que dizer. Olhou para ela e pensativo, j no tinha vontade de rir. Depois de algum tempo falou:
  -- Se a polcia pegar a gente no tem nada. Mas se pegar tu?
  --  igual.
  -- Te metem no orfanato. Tu nem sabe o que ...
  -- Tem nada, no. Eu agora vou com vocs.
  Ele encolheu os ombros num gesto de quem no tinha nada com aquilo. Havia avisado. Mas ela bem sabia que ele estava preocupado.
  Por isso ainda disse:
  -- Tu vai ver como eu vou ser igual a qualquer um...
  -- Tu j viu uma mulher fazer o que um homem faz? Tu no agenta um empurro...
  -- Posso fazer outras coisa.
  Pedro Bala se conformou. No fundo gostava da atitude dela, se bem tivesse medo dos resultados.
  Andava com eles pelas ruas, igual a um dos Capites da Areia. J no achava a cidade inimiga. Agora a amava tambm, aprendi a andar nos becos, nas ladeiras, a
pongar nos bondes, nos automveis em disparada. Era gil como o mais gil. Andava sempre com Pedro Bala, Joo Grande e Professor. Joo Grande no a largava, era
como uma sombra de Dora, e se babava de satisfao quando ela o chamava com sua voz amiga de meu irmo. O negro a seguia como um cachorro e se dedicara totalmente
a ela. Vivia num assombro das qualidades de Dora. Quase a achava to valente como Pedro Bala. Dizia o Professor num espanto:

  (p. 179)

  --  valente como um homem...
  Professor preferia que no fosse assim. Sonhava com um olhar de carinho dos olhos da Dora. Mas no daquele carinho maternal que ela tinha para os menores e para
os mais tristes, Volta Seca, Pirulito. Tampouco um olhar fraternal, como os que ela lanava a Joo Grande, a Sem-Pernas, a Gato, a ele mesmo. Queria um daqueles
olhares plenos de amor que ela lanava a Pedro Bala quando o via na carreira, fugindo da polcia ou de um homem que dizia na porta de uma loja:
  -- Ladro! Ladro! Me furtaram...
  Daqueles olhares ela s
tinha para Pedro Bala, e este nem reparava. Professor ouve os elogios de Joo Grande mas no sorri. Pedro Bala naquela noite chegou no trapiche com um olho inchado
e o lbio roxo, sangrando. Topara com Ezequiel, chefe de outro grupo de meninos mendigos e ladres, grupo muito menor que o dos Capites da Areia e muito mais sem
ordem. Ezequiel vinha com uns trs do grupo, inclusive um que fora expulso dos Capites da Areia por ter sido pegado furtando um companheiro. Pedro Bala tinha ido
deixar Dora e Z Fuinha no p da ladeira do Taboo para que eles fossem para o trapiche. Joo Grande tinha um servio a fazer e no pudera ir com Dora. Pedro Bala
pensou em ir com ela, em no deix-la sozinha no areal. Mas como ainda no cara a noite, no havia perigo de um negro dar em cima dela. Demais ele tinha que ir
receber uns cobres da mo de Gonzales do 14, dinheiro que era devido a uma batida que o grupo fizera nuns objetos de ouro de um rabe rico.
  E nquanto andava para o 14, Pedro Bala pensava em Dora. No cabelo loiro que caa no pescoo, nos olhares dela. Era bonita, era igual a uma noiva. Noiva... Nem
podia pensar nisso. No queria que os outros do grupo se sentissem com direito de pensar em safadezas com ela. E se ele dissesse a Dora que ela era como uma noiva
para ele, outro poderia se julgar no direito de tambm dizer. E ento no haveria mais lei nem direito entre os Capites da Areia. Pedro Bala se recorda de que 
o chefe...
  Vai to distrado que quase esbarra com Ezequiel. Esto os quatro parados diante dele. Ezequiel  um mulato alto, fuma uma (p. 180) ponta de charuto. Pedro Bala
fica parado tambm, esperando.
  Ezequiel cospe:
  -- No v onde pisa?... Agora anda cego?
  -- O que  que tu quer?
  O  menino que fora dos Capites da Areia pergunta:
  -- Como vo aqueles frescos?
  -- Tu ainda se lembra da surra que apanhou l? Tu ainda deve guardar a marca.
  O menino range os dentes, quer avanar. Mas Ezequiel faz um gesto com a mo e avisa a Pedro Bala:
  -- Um dia destes vou fazer uma visita a vocs.
  -- Uma visita? -- pergunta Bala desconfiado.
  -- Diz-que agora vocs tem uma putinha l pra todo mundo...
  -- Dobre a lngua, filho da me.
  Com o soco Ezequiel rolou. Mas os outros trs j estavam em cima de Pedro Bala. Ezequiel meteu o p na cara de Bala. O que for, dos Capites da Areia gritou:
  -- Segura ele bem e meteu um soco na boca de Pedro.
  Ezequiel deu dois pontaps na cara de Bala:
  -- Fique sabendo que sou teu patro.
  -- Quatro... -- comeou a xingar Pedro Bala, mas um soco o calou.
  O guarda vinha marchando para eles, debandaram. Pedro Bala apanhou o bon, as lgrimas de raiva desciam junto com sangue. Estendeu a mo fechada para o lado por
onde Ezequiel e os seus haviam desaparecido. O guarda falou:
  -- Desaperta, corneta. D o fora antes que lhe leve pro xilindr.

  Pedro Bala cuspiu puro sangue. Desceu a ladeira devagar, nem pensou em ir buscar o dinheiro de Gonzales. Descia resmungando consigo mesmo: S so homem quatro
contra um. E pensava vinganas.
  Entrou no trapiche, Dora estava sozinha com o irmo, que dormia. Os ltimos raios do sol entravam pelo teto, dando uma estranha claridade ao casaro. Dora o viu
entrar e andou para ele:
  -- Segurou os cobres?...

  (p. 182)

  Mas enxergou o olho inchado de Pedro, o beio partido:
  -- Que foi, meu irmo?
  -- Ezequiel mais trs. S so homem de quatro pra cima...
  -- Fez isso em tu?
  -- Foi quatro. Assim mesmo porque me pegaram desprevenido.
  Eu ca na besteira de pensar que Ezequiel vinha s. Era quatro.
  Ela o sentou, foi ao canto de Pirulito, trouxe gua. Com um pedao de pano limpou as feridas dele. Pedro arquitetava plano de vingana. Ela apoiou:
  -- A gente acaba com eles desta vez.
  Pedro riu:
  -- Tu vai tambm?
  -- Se vou...
  Agora limpava os lbios dele, estava curvada na sua frente, seu rosto bem prximo do de Bala, os cabelos loiros misturados com os dele.
  -- Por que foi a briga?
  -- Por nada.
  -- Diga...
  -- Ele disse umas coisas...
  -- Foi por causa de mim, no foi?
  Ele abanou a cabea afirmando. Ento ela chegou os lbios para junto dos de Pedro Bala, os beijou e depois fugiu. Ele saiu correndo atrs dela, mas ela se escondia,
no se deixava pegar. Aos poucos foram chegando os outros. Ela de longe sorria para Pedro Bala. No havia nenhuma malcia no seu sorriso. Mas seu olhar era diferente
do olhar de irm que lanava aos outros. Era um doce olhar de noiva, de noiva ingnua e tmida. Talvez mesmo no soubessem que era amor. Apesar de no ser noite
de lua, havia um romntico romance no casaro colonial. Ela sorria e baixava os olhos, por vezes piscava com um olho porque pensava que isto era namorar. E seu corao
batia rpido quando olhava. No sabia que isso era amor. Por fim a lua veio estendeu sua luz amarela no trapiche. Pedro Bala se deitou na areia e (p. 183) mesmo
de olhos fechados via Dora. Sentiu quando ela chegou e deitou a seu lado. Disse:
  -- Tu agora  minha noiva. Um dia a gente se casa.
  Continuou de olhos fechados. Ela disse baixinho:
  -- Tu  meu noivo.
  Mesmo no sabendo que era amor, sentiam que era bom.
  Quando Sem-Pernas e Joo Grande chegaram, Pedro Bala se levantou da areia e reuniu os chefes. Foram para junto da vela do Professor. Dora veio tambm e sentou
entre Joo Grande e Boa-Vida.
  O malandro acendeu um cigarro, falou para Dora:
  -- Tou aprendendo tocar uma samba porreta. E tou cavando um violo, irm.
  -- Tu t tocando batuta mesmo, mano.
  --  um tal de sucesso nas festa...
  Pedro Bala interrompeu a conversa. Olhavam para o lbio dele, o olho inchado. Ele narrou o caso:
  -- Quatro contra um...
  -- Precisa duma lio -- falou Sem-Pernas rindo. -- Eu no vou com aquele cara.
  Formaram um plano de batalha. E pelo meio da noite saram uns trinta. O grupo de Ezequiel dormia para as bandas do Porto da Lenha, nuns barcos virados e na ponte.
Dora foi junto a Pedro Bala e levava uma navalha tambm. Sem-Pernas disse:
  -- At parece Rosa Palmeiro.
  Nunca houvera mulher to valente como Rosa Palmeiro. Dera em seis soldados de uma vez. Todo martimo sabe o seu ABC no cais da Bahia. Por isso Dora gosta da comparao
e sorri:
  -- Obrigado, mano.
  Irmo...  uma palavra boa
e amiga. Se acostumaram a
cham-la de irm. Ela tambm os trata de mano, de irmo. Para os menores  como uma mezinha, igual a uma mezinha. Cuida deles. Para os mais velhos  como uma irm
que diz palavras boas (p. 184) e brinca inocentemente com eles e com eles passa os perigos da vida aventurosa que levam. Mas nenhum sabe que para Pedro Bala ela
 a noiva. Nem mesmo o Professor sabe. E dentro do seu corao Professor tambm a chama de noiva.
  O cachorro que o Sem-Pernas arranjou vai latindo. Volta Seca imita o latir de um cachorro, todos riem. Joo Grande assovia um samba. Boa-Vida comea a cant-lo
em voz alta:
  A mulata me abandonou...
  Vo alegres. Levam navalhas e punhais nas calas. Mas s o sacaro se os outros puxarem. Porque os meninos abandonado tambm tm uma lei e uma moral, um sentido
de dignidade humana.
  De repente Joo Grande grita:
  --  ali.
  Com a algazarra que fazem, Ezequiel sai de sob um barco:
  -- Quem vem l?
  -- Os Capites da Areia, que no engole desaforo... respondeu Pedro Bala.
  E arrancaram para cima dos outros.
  A volta foi um triunfo. Apesar do Sem-Pernas ter um talho e Barando vir quase nos braos de tanta pancada (um grando do grupo de Ezequiel o surrara at que Volta
Seca o rebentou), voltavam todo alegres, comentando a vitria. Os que tinham ficado no trapiche deram vivas. Ainda demoraram muito conversando, comentando. Falavam
na coragem de Dora, que brigara igual a um menino. Igual a um homem, dizia Joo Grande. Era como uma irm, exatamente igual a uma irm...
  Igual a uma noiva, exatamente igual a uma noiva, pensava Pedro Bala, estendido na areia. A lua amarelava o areal, as estrelas se refletiam no mar azul da Bahia.
Ela veio, deitou ao lado dele. E comearam a falar de coisas tolas. Igual a uma noiva. No se beijaram, no se abraaram, o sexo no os chamava naquele momento.
S de leve o loiro cabelo dela tocava em Pedro Bala.
  -- Tu tem um cabelo bonito... -- disse ele.
  Ela riu, olhou o cabelo dele:
  -- O teu tambm.
  Riram os dois e logo foi uma gargalhada. Era um hbito dos Capites da Areia. Ela comeou a contar coisas do morro, histrias dos vizinhos, ele relembrava fatos
da vida agitada do grupo:
  -- Vim pra rua com cinco anos. Menor que teu irmo...
  Riam inocentemente, felizes de estarem um ao lado do outro. Depois o sono veio. Estavam separados, Pedro tomou a mo dela, segurou. Dormiram como dois irmos.

  Reformatrio

  O jornal da tarde trouxe a notcia em grandes ttulos.
  Uma manchete ia de lado a lado na primeira pgina:
preso O CHEFE DOS "Capites da Areia"
  Depois vinham os ttulos que estavam em cima de um clich, onde se viam Pedro Bala, Dora, Joo Grande, Sem-Pernas e Gato cercados de guardas e investigadores:
  Uma menina no grupo -- a sua histria
  -- recolhida a um orfanato -- o chefe
dos "capites da areia"  filho de um
grevista - os outros conseguem fugir
  -- "o reformatrio o endireitar",
nos afirma o diretor.
  Sob o clich vinha esta legenda: Aps ser batida esta chapa o chefe dos peraltas armou uma discusso e um barulho que deu lugar a que os demais moleques presos
pudessem fugir. O chefe  o que est marcado contra cruz e ao seu lado v-se Dora, a nova gigolete dos moleques baianos.
  Vinha a notcia:
  Ontem a polcia baiana.lavrou um tento.
  Conseguiu prender o chefe do grupo de menores delinqentes conhecidos pelo nome de "Capites da Areia". Por mais de uma vez este jornal tratou do problema dos
menores que viviam nas ruas e da cidade dedicados ao furto.
  Por vrias vezes tambm noticiamos os assaltos levados a efeito por este mesmo grupo. Realmente a cidade vivia sob o temor constante destes meninos, que ningum
sabia onde moravam, cujo chefe ningum conhecia. H alguns meses tivemos ocasio de publicar cartas do dr. Chefe de Polcia, do dr. Juiz de Menores e do Diretor
do Reformatrio Baiano sobre este problema. Todos eles prometiam incentivar a campanha contra os menores delinqentes e em particular contra os "Capites da Areia".
  Esta campanha to meritria deu os seus primeiros frutos ontem com a priso do chefe desta malta e de vrios do grupo, inclusive uma menina. Infelizmente, devido
a uma sagaz burla de Pedro Bala, o chefe, os demais conseguiram escapar de entre as mos dos guardas. Em todo caso, a polcia j conseguiu muito prendendo o chefe
e a romntica inspiradora dos roubos: Dora, uma figura interessantssima de menor delinqente. Feitos estes comentrios, narremos os fatos:

  A tentativa de furto

  Ontem, s ltimas horas da tarde, cinco meninos e uma menina penetraram no palacete do dr. Alcebades Menezes, na ladeira de So Bento. Foram porm  pressentidos
pelo filho do dono da casa, estudante de medicina, que deixou que eles penetrassem num quarto, onde os trancou. Chamou ento os guardas e investigadores, a quem
os entregou.
  A reportagem do "Jornal da Tarde", informada do fato, partiu para a casa do dr. Alcebades. L chegando, encontrou os menores que eram levados  Chefia de Polcia.
Pedimos ento para tirar um retrato do grupo A polcia muito gentilmente consentiu. Pois no momento em que o fotgrafo acabava de fazer funcionar o magnsio e bater
a chapa, Pedro Bala, o temvel chefe dos "Capites da Areia", facilitou a

  Evaso

  Pondo em prtica uma agilidade incomum Pedro Bala se livrou dos braos do investigador que o segurava e com um golpe de capoeira o derrubou. No entanto no fugiu.
 claro que os demais guardas e investigadores se precipitaram em cima dele para impedir a sua fuga. S ento foi possvel compreender o plano do chefe dos "Capites
da Areia" pois este gritou para os companheiros presos.
  -- Arriba, pessoal.
  Um nico guarda ficara a tomar conta dos outros, e um deles, muito gil, o derrubou (p. 188) tambm com um golpe de capoeira. E desabaram para a ladeira da Montanha.

  Na polcia

  Na Chefia de Polcia quisemos ouvir Pedro Bala. Mas ele nada nos disse, como tampouco quis declarar s autoridades o lugar onde dormiam e guardavam seus furtos
os "Capites da Areia". S declarou seu nome, disse que era filho de um antigo grevista que foi morto num "meeting" na clebre greve das docas de 191..., que no
tinha ningum no mundo. Quanto a Dora,  filha de uma lavadeira que morreu de varola quando da epidemia que alastrou a cidade. No faz seno quatro meses que est
entre os "Capites da Areia", mas j tomou parte em muitos assaltos. E parece ter uma grande honra nisso.

  Noivos

  Dora declarou  nossa reportagem que era noiva de Pedro Bala e que iam se casar.  uma menina ainda ingnua, mais digna de piedade que de castigo. Fala no seu
noivado com maior das ingenuidades. No tem mais de quatorze anos, enquanto Pedro Bala anda pelos seus dezesseis. Dora foi leva da ao Orfanato Nossa Senhora da Piedade.
Neste santo ambiente no tardar a  esquecer Pedro Bala, o romntico noivo-bandido, e a sua vida criminosa entre os "Capites da Areia".
  Quanto a Pedro Bala, ser recolhido ao Reformatrio de Menores logo que a polcia consiga que ele declare qual o local onde se esconde o grupo. A polcia tem grandes
esperanas de consegui-lo ainda hoje.

  Ouvindo o Diretor no
Reformatrio

  O diretor do Reformatrio Baiano de
  Menores Abandonados e Delinqentes  um

  (p. 189)

 velho amigo do "Jornal da Tarde". Certa vez uma reportagem nossa desfez um crculo de calnias  jogada contra aquele estabelecimento de educao e seu diretor.
Hoje ele se achava na polcia esperando poder levar consigo o menor Pedro Bala. A uma pergunta nossa, respondeu.
  -- Ele se regenerar. Veja o ttulo da casa que dirijo: "Reformatrio". Ele se reformar.
  E a outra pergunta nossa, sorriu:
  -- Fugir? No  fcil fugir do Reformatrio. Posso lhe garantir que no o far.
  Professor,  noite, leu a notcia para todos. Sem-Pernas disse.
  -- Ele j t no reformatrio. Eu vi quando saiu da polcia.
  -- E ela no orfanato... -- completou Joo Grande.
  -- A gente livra eles -- afirmou Professor. Depois virou-se para o Sem-Pernas. - At Pedro Bala chegar tu fica como chefe, Sem-Pernas.
  Joo Grande estendeu os braos para os outros, falou:
  -- Gentes, at Bala voltar Sem-Pernas  o chefe...
  Sem-Pernas disse:
  -- Ele ficou pra livrar a gente.  preciso que a gente livre ele. No direito?
  Todos estavam decididos.
  Quando o levaram para aquela sala Pedro Bala calculava o que o esperava. No veio nenhum guarda. Vieram dois soldados de polcia, um investigador, o diretor do
reformatrio. Fecharam a sala. O investigador disse numa voz risonha:

  (p. 190)

  -- Agora os jornalistas j foram, moleque. Tu agora vai dizer que sabe queira ou no queira.
  O diretor do reformatrio riu:
  -- Ora, se diz...
  O investigador perguntou:
  -- Onde  que vocs dormem?
  Pedro Bala o olhou com dio:
  -- Se t pensando que eu vou dizer...
  -- Se vai...
  -- Pode esperar deitado.
  Virou as costas. O investigador fez um sinal para os soldados. Pedro Bala sentiu duas chicotadas de uma vez. E o p do investigador na sua cara. Rolou no cho,
xingando.
  -- Ainda no vai dizer? -- perguntou o diretor do reformatrio. -- Isso  s o comeo.
  -- No foi tudo o que Pedro Bala disse.
  Agora davam-lhe de todos os lados. Chibatadas, socos pontaps. O diretor do reformatrio levantou-se, sentou-lhe o p Pedro Bala caiu do outro lado da sala. Nem
se levantou. Os soldados vibraram os chicotes. Ele via Joo Grande, Professor, Volta Seca, Sem-Pernas, o Gato. Todos dependiam dele. A segurana de todos dependia
da coragem dele. Ele era o chefe, no podia trair. Lembrou-se da cena da tarde. Conseguira dar fuga aos outros, apesar de estar preso tambm. O orgulho encheu seu
peito. No falaria, fugiria do reformatrio, libertaria Dora. E se vingaria... Se vingaria...
  Grita de dor. Mas no sai uma palavra dos seus lbios. Vai te fazendo noite para ele. Agora j no sente dores,j no sente nada. No entanto, os soldados ainda
o surram, o investigador o soqueia. Mas e no sente mais nada.
  -- Desmaiou -- diz o investigador.
  -- Deixe ele por minha conta -- explica o diretor do reformatrio. -- Eu levo ele pro reformatrio, l ele abre a boca. Garanto. E eu dou o aviso a vocs.
  O investigador assentiu. Com a promessa de no dia seguinte mandar buscar Pedro Bala, o diretor retirou-se.
  Na madrugada, quando Pedro acordou, os presos cantavam. Era uma moda triste. Falava do sol que havia nas ruas, em quanto  grande e bela a liberdade.
  O bedel Ranulfo, que o tinha ido buscar na polcia, o levou  presena do diretor. Pedro Bala sentia o corpo todo doer das pancadas do dia anterior. Mas ia satisfeito,
porque nada tinha dito, porque no revelara o lugar onde os Capites da Areia viviam. Lembram-se da cano que os presos cantavam na madrugada que nascia. Dizia
que a liberdade  o bem maior do mundo. Que nas ruas havia sol e luz e nas clas havia uma eterna escurido porque ali a liberdade era desconhecida. Liberdade.
Joo de Ado, que estava nas ruas, sob o sol, falava nela tambm. Dizia que no era s por salrios que fizera aquelas greves nas docas e faria outras. Era pela
liberdade que os doqueiros tinham pouca. Pela liberdade o pai de Pedro Bala morrera.n Pela liberdade -- pensava Pedro -- dos seus amigos, ele apanhara uma surra
na polcia. Agora seu corpo estava mole e dolorido, seus ouvidos cheios da moda que os presos cantavam. L fora, dizia a velha cano,  o sol, a liberdade e a vida.
Pela janela Pedro Bala via o sol. A estrada passa adiante do grande porto do reformatrio. Aqui dentro  como se fosse uma eterna escurido. L fora  a liberdade
e a vida. E a vingana, pensa Pedro Bala.
  O diretor entra. O bedel Ranulfo o cumprimenta e mostra Bala. O diretor sorri, esfrega as mos uma na outra, senta ante uma alta secretria. Olha Pedro Bala uns
minutos:
  -- Afinal... Faz bastante tempo que espero este pssaro, Ranulfo.
  O bedel sorri aprovando as palavras do diretor.
  --  o chefe dos tais de Capites da Areia. Veja... O tipo do criminoso nato.  verdade que voc no leu Lombroso... Mas se lesse, conheceria. Traz todos os estigmas
do crime na face. Com esta idade j tem uma cicatriz. Espie os olhos... No pode ser tratado como um qualquer. Vamos lhe dar honras especiais...

  (p. 192)

  Pedro Bala o espia com os olhos injetados. Sente cansao, uma vontade doida de dormir. Bedel Ranulfo aventura uma pergunta:
  -- Levo pra junto dos outros?
  -- O qu? No. Para comear, meta-o na cafua. Vamos ver se ele sai um pouco mais regenerado de l...
  O bedel cumprimenta e vai saindo com Pedro Bala. O diretor ainda recomenda:
  -- Regime nmero 3.
  -- gua e feijo... -- murmura Ranulfo. D uma espiada em Pedro Bala, balana a cabea. -- Vai sair bem mais magro.
  L fora  a liberdade e o sol. A cadeia, os presos na cadeia, a surra ensinaram a Pedro Bala que a liberdade  o bem maior do mundo.
  Agora sabe que no foi apenas para que sua histria fosse contada no cais, no Mercado, na Porta do Mar, que seu pai morrera pela liberdade. A liberdade  como
o sol.  o bem maior do mundo.
 Ouviu o bedel Ranulfo fechar o cadeado por fora. Fora atirado dentro da cafua. Era um pequeno quarto, por baixo da escada, onde no se podia estar em p, porque
no havia altura, nem tampouco estar deitado ao comprido, porque no havia comprimento. Ou ficava sentado, ou deitado com as pernas voltadas para o corpo numa posio
mais que incmoda. Assim mesmo Pedro Bala se deitou. Seu corpo dava uma volta e seu primeiro pensamento era que a cafua s servia para o homem-cobra que vira, certa
vez, no circo. Era totalmente cerrado o quarto, a escurido era completa. O ar entrava pelas frestas finas e raras dos degraus da escada. Pedro Bala, deitado como
estava, no podia fazer o menor movimento. Por todos os lados as paredes o impediam. Seus membros doam, ele tinha uma vontade doida de esticar as pernas. Seu rosto
estava cheio de equimoses das pancadas na polcia, e desta vez Dora no estava ali para trazer um pano frio e cuidar do seu rosto ferido. A liberdade era Dora tambm.
No era s o sol, andar livre nas ruas, rir no cais a grande gargalhada dos Capites da Areia. Era tambm sentir junto a si o cabelo loiro de Dora, ouvir ela contar
coisas do morro, sentir os lbios dela sobre os seus lbios (p. 193) feridos. Noiva. Tambm ela estava sem liberdade. Os membros de Pedro Bala doem e agora di sua
cabea tambm. Dora est como ele, sem sol, sem liberdade. Foi levada para um orfanato. Noiva. Antes que ela aparecesse ele nunca pensara nesta palavra: noiva. Gostava
de derrubar negrinhas no areal. De encostar peito com peito, cabea com cabea, pernas com pernas, sexo com sexo. Mas nunca pensara em deitar na areia ao lado de
uma menina, menina como ele, e conversar de coisas tolas e correr picula como os outros meninos, sem a derrubar para fazer o amor. Era outra maneira do amor, pensava
numa confuso. Ele nunca tivera uma idia perfeita do amor. Que era ele, seno uma criana abandonada nas ruas, que pela fora e agilidade e coragem conseguira chefiar
o grupo mais valente de meninos abandonados, os Capites da Areia? Que podia saber de amor? Sempre pensara que o amor fosse o momento gostoso em que uma negrinha
ou uma mulata gemia sob seu corpo no areal do cais. Isto cedo aprendeu, quando no tinha ainda 13 anos. Isto sabiam todos os Capites da Areia, mesmo os mais pequenos,
aqueles que ainda no tinham foras para derrubar uma cabrocha. Mas j o sabiam, e pensavam com alegria no dia em que o fariam. Os membros e a cabea de Pedro Bala
doem. Tem sede, ainda no bebeu nem comeu neste dia. Com Dora foi diferente. Logo que ela chegou, tanto ele como todos os que estavam no trapiche pensaram em a derrubar,
em a possuir, em praticar com ela, que era bonita, o nico amor de que tinham notcia. Mas como era apenas uma menina, eles a tinham respeitado. Depois ela foi como
uma me para todos. E como uma irm tambm, Joo Grande dizia certo. Mas para ele desde o primeiro momento fora diferente. Fora tambm uma companheira de brinquedos
como para os demais, irm querida. Mas fora tambm uma alegria diversa da que d uma irm. Noiva. Gostaria, sim. Mesmo quando quer negar a si prprio no pode. 
verdade que nada faz para isso, que se contenta de conversar com ela, de ouvir a sua voz, pegar timidamente na sua mo. Mas gostaria de  possu-la tambm, de v-la
gemer de amor. No, porm, por uma noite. Por todas as noites de toda uma vida. Como outros tm esposa, esposa que  me, irm e amiga. Ela era me, irm e amiga
dos Capites da Areia. Para Pedro Bala  noiva, um dia ser esposa. No a podem ter num orfanato como uma menina sem ningum. Ela tem um noivo, uma legio de irmos
e de filhos de quem cuidar. O cansao desaparece dos membros de (p. 194)
  Pedro Bala. Ele precisa de movimento, de andar, de correr, para poder conceber um plano para livrar Dora. Ali naquela escurido  que no pode. Fica intil pensando
que ela est talvez numa cafua tambm. Senta-se como pode. Ratos correm na cafua. Mas ele est por demais acostumado com os ratos, no liga. Mas Dora ter medo deste
rudo contnuo.  de enlouquecer um que no seja o chefe dos Capites da Areia. Quanto mais uma menina...  verdade que Dora  a menina valente de quantas mulheres
j nasceram na Bahia, que  a terra das mulheres valentes. Mais valente mesmo que Rosa Palmeiro, que deu em seis soldados, que Maria Cabau, que no respeitava
cara, que a companheira de Lampio, que maneja um fuzil igual a um cangaceiro. Mais valente porque  apenas uma menina, apenas est comeando a viver. Pedro Bala
sorri com orgulho, apesar das dores, do cansao, sede que aos poucos o aperta. Como seria bom um copo d'gua! Diante do areal do trapiche  o mar, um nunca acabar
de gua. Mar que o Querido-de-Deus, o grande capoeirista, corta com seu saveiro para as pescarias nos mares do Sul. O Querido-de-Deus  um bom sujeito. Se Pedro
Bala no houvesse aprendido com ele o jogo capoeira de Angola, a luta mais bonita do mundo, porque  tambm uma dana, no teria podido dar fuga a Joo Grande, Gato
e Sem-Pernas. Agora ali, na cafua, sem poder se mexer, a capoeira no vai lhe servir de nada. Gostaria era de beber gua. Ser que Dora tambm tem sede a estas horas?
Deve estar tambm numa cafua, Pedro Bala imagina o orfanato igualzinho ao reformatrio. A sede  pior que uma cobra cascavel. Faz mais medo que a bexiga. Porque
vai apertando a garganta de um, vai fazendo os pensamentos confusos. Um pouco de gua. Um pouco de luz tambm. Porque se houver um pouco de luz talvez ele veja o
rosto de Dora risonho. Assim na escurido ele o v cheio de sofrimento, cheio de dor. Uma raiva surda, impotente, cresce dentro dele. Levanta-se um pouco, a cabea
encosta nos degraus
escada que lhe serve de teto. Esmurra a porta da cafua. Mas parece que l fora no tem ningum que o oua. V a cara malvada do diretor. Enterrar seu punhal at
o mais fundo do corao do diretor. Sem que sua mo trema, sem remorsos, gozando. Seu punhal ficou na polcia. Mas Volta Seca lhe dar o seu, ele tem uma pistola.
Volta Seca quer ir para o bando de Lampio, que  seu padrinho. Lampio mata soldado, mata homem ruim. Pedro Bala neste momento ama Lampio como a um seu heri,
a um seu vingador.  o brao armado dos

  (p. 195)

 pobres no serto. Um dia ele poder ser do grupo de Lampio tambm. E quem sabe se no poderiam invadir a cidade da Bahia, abrir a cabea do diretor do reformatrio?
Que cara ele no faria quando visse Pedro Bala entrar no reformatrio na frente de uns cangaceiros... Soltaria a garrafa de pinga, presente de um amigo de Santo
Amaro, e Pedro Bala lhe abriria a cabea. No. Antes o deixaria naquela mesma cafua, sem ter o que comer, sem ter o que beber. Sede... A sede o maltrata. Faz com
que ele veja na escurido da parede o rosto triste e doloroso de Dora. Aquela certeza de que ela est sofrendo... Fecha os olhos. Procura pensar em Professor, Volta
Seca, Joo Grande, Gato, Sem-Pernas, Boa-Vida, todos os do trapiche salvando Dora. Mas no pode. Mesmo de olhos fechados v o rosto
dela, amargurado pela sede. Esmurra a porta novamente.
  Grita, xinga nomes. Ningum o atende, ningum o v, ningum o ouve. Assim deve ser o inferno. Pirulito tem razo de ter medo do inferno.  por demais terrvel.
Sofrer sede e escurido. A cano dos presos dizia que l fora  a liberdade e o sol. E tambm a gua, os rios correndo muito alvos sobre pedras, as cascatas caindo,
o grande mar misterioso. Professor, que sabe muitas coisas, porque  noite l livros furtados,  luz de uma vela (est comendo os olhos...), lhe disse certa vez
que tem mais gua no mundo que terra. Tinha lido num livro. Mas nem um pingo de gua na sua cafua. Na de Dora no deve ter tambm. Para que esmurrar a porta como
o faz neste momento? Ningum o atende, suas mos j doem. Na vspera o surraram na polcia. Suas costas esto negras, seu peito ferido, o rosto inchado. Por isso
o diretor disse que ele tinha cara de criminoso. No tem, no. Ele quer  liberdade. Um dia um velho disse que no se mudava o destino de ningum. Joo de Ado disse
que se mudava, sim, ele acreditara em Joo de Ado. Seu pai morrera para mudar o destino dos doqueiros. Quando ele sair, ir ser doqueiro tambm, lutar pela liberdade,
pelo sol, por gua e de comer para todos. Cospe um cuspe grosso. A sede aperta sua garganta. Pirulito quer ser padre para fugir daquele inferno. Padre Jos Pedro
sabia que o reformatrio era assim, falava contra meterem os meninos l. Mas que podia um pobre padre sem parquia contra todos? Porque todos odeiam os meninos pobres,
pensa Pedro Bala. Quando sair, pedir  me-de-santo

  (p. 196)

  Don'Aninha que faa um feitio forte para matar o diretor. Ela tem fora com Ogum, e ele uma vez tirara Ogum da polcia. Fizera muita coisa para a sua idade. Dora
tambm fizera muita coisa naqueles meses entre eles. Agora passavam sede, Pedro Bala esmurra inutilmente uma porta. A sede o ri por dentro como uma legio de ratos.
Cai enrodilhado no cho e o cansao o vence. Apesar da sede, dorme. Mas tem sonhos terrveis, ratos roem o rosto belo de Dora.
  Acorda porque algum bate pancadas leves num dos degraus da escada. Levanta-se curvado, no pode ficar de p direito, que a escada no consente. Pergunta em voz
baixa:
  -- Tem algum a?
  Uma alegria doida o invade quando respondem:
  -- Quem  que t a?
  -- Pedro Bala.
  -- Tu  o chefe dos Capites da Areia?
  -- Sou.
  Ouve um assovio. A voz continua, agora rpida:
  -- Tenho um recado pra voc, um trouxe hoje..
  -- Solta logo...
  -- Agora vem gente. Depois volto.
  Pedro Bala ouve os passos que se afastam. Mas est mais alegre.
  Pensa em seguida que o recado  de Dora, mas v que  uma tolice pensar isso. Como Dora havia de lhe enviar um recado? Deve ser um do grupo. Devem estar tratando
de tir-lo dali. Mas primeiro  preciso que ele saia da cafua. Enquanto ele estiver ali, os Capites da Areia no podero fazer nada. Depois que ele estiver andando
no reformatrio todo, a a fuga ser fcil. Pedro Bala senta-se para pensar. Que hora sero, que dia ser? Ali  sempre noite, nunca brilha a luz do sol. Espera
impaciente que o seu informante volte. Porm este demora ele se agita. Que estaro fazendo os outros sem ele? Professor conceber algum plano para o tirarem dali.
Mas enquanto ele estive ((99p. 197) na cafua  intil. E enquanto no o tirarem, ele no poder tirar Dora do orfanato. Abrem a porta. Pedro Bala se atira para a
frente, pensando que o vo soltar. Uma mo o empurra:
  -- Ei, calma...
  V o bedel Ranulfo na porta. Traz um caneco com gua, que Pedro Bala arranca das suas mos e bebe em grandes goles. Mas  to pouca... No chega para matar a sede.
O bedel lhe entrega um prato de barro com uma gua onde biam alguns caroos de feijo. Pedro Bala pede:
  -- Pode me dar um pouco mais de gua?
  -- Amanh... -- ri o bedel.
  -- S um pouco mais.
  -- Amanh tem mais. E se voc continuar a bater na porta e gritar em vez de 8 passa 15 dias -- empurra a porta na cara de Pedro Bala.
  Ouve a chave que o tranca. Tateia na escurido at encontrar o prato. Bebe a gua escura do feijo. Nem repara que  salgadssima. Depois come os gros duros.
Mas a sede o ataca novamente. O feijo muito salgado ativa a sede. O que  um caneco de gua para aquela sede que exigia uma moringa? Deita. J no pensa em nada.
Passam-se horas. Ele apenas v na escurido o rosto triste de Dora. E sente dores no corpo todo.
  Muito mais tarde ouve novamente baterem na escada. Pergunta:
  -- T a?
  -- Um capenga mandou dizer que vo te tirar daqui. Logo que tu saia da cafua...
  -- J  de noite? -- pergunta Pedro.
  -- T comeando...
  -- Tou morto de sede.
  A voz no responde. Pedro pensa com desespero que  capaz do menino ter ido embora. No entanto, ele no ouviu passos na escada...
  Mas volta a voz:
  -- gua no posso. No tem como passar. Mas quer um cigarro?
  -- Quero, sim.
  -- Ento espera.

  (p. 198)

   Minutos depois as pancadas soam muito de leve na porta. A vi por debaixo da porta:
  -- Vou passar o cigarro por aqui. Ponha as mos embaixo, bem no meio da greta da porta.
  Pedro Bala faz o que lhe mandam. Um cigarro amassado chega s suas mos. Ele acaba de o retirar de sob a porta. Logo depois  um fsforo que vem sobre um pedao
de caixa, o pedao onde se risca.
  -- Obrigado diz Pedro Bala.
  Mas neste momento ouve um barulho l fora. O som de uma bofetada, um corpo que rola. E uma voz que ele no conhece fala:
  -- Se tentar se comunicar com os de fora, seu castigo ser aumentado.
  Pedro se encolhe. Agora um vai sofrer castigo por causa dele. Quando fugir, levar aquele para os Capites da Areia. Para o sol e liberdade. Acende o cigarro.
Com muito cuidado para no perder fsforo que  o nico. Esconde a brasa do cigarro sob a mo para que ningum o possa ver pelas frestas da escada. O silncio o
envolve de novo, e com o silncio os pensamentos, as vises.
  Quando termina de fumar, se enrodilha no cho. Se pudesse dormir... Pelo menos no veria o rosto cheio de sofrimento de Dora.
  Quantas horas? Quantos dias? A escurido  sempre a mesma, a sede  sempre igual. J lhe trouxeram gua e feijo trs vezes. Aprendeu a no beber caldo de feijo,
que aumenta a sede. Agora est muito mais fraco, um desnimo no corpo todo. O barril onde defeca exala um cheiro horrvel. No o retiraram ainda. E sua barriga di,
sofre horrores para defecar.  como se as tripas fossem sair. As pernas no o ajudam. O que o mantm em p  o dio que enche seu corao.
  -- Filhos da me... Desgraados...
   tudo quanto consegue dizer. Assim mesmo, em voz baixa. J no tem foras para gritar, para esmurrar a porta. Agora est certo de (p. 199) que morrer ali. Cada
vez sofre maiores dores para defecar. V Dora estendida no cho, morrendo de sede, chamando por ele. Joo Grande est do lado dela, mas separado por grades. Professor
e Pirulito choram.
  Trouxeram-lhe gua e feijo pela quarta vez. Ele bebe a gua, mas demora a comer o feijo. S sabe dizer em voz baixa:
  -- Filhos da me... Filhos da me...
   Antes que a comida (se poderia chamar aquilo de comida?) chegasse naquele dia (para Pedro era sempre noite), a voz voltou a cham-lo na escada. Ele perguntou,
sem se levantar sequer:
  -- Quantos dias j tem que tou aqui?
  -- Cinco.
  -- Me d outro cigarro.
  O cigarro o reanima um pouco. Pode pensar que com mais cinco dias morrer. Aquilo  castigo para um homem, no para um menino. O dio no cresce mais em seu corao.
J atingiu o mximo.
   sempre noite. Dora morre lentamente ante suas vistas. Joo Grande ao seu lado, as grades separando. Professor e Pirulito choram. Ele dorme ou est acordado?
A barriga di violentamente.
  Quanto tempo durar ainda a escurido? E a agonia de Dora? O cheiro do barril  insuportvel. Dora agoniza ante seus olhos. Ser que ele agoniza tambm?
  A cara do diretor aparece ao lado do rosto de Dora. Vem torturar sua agonia ainda mais? Quanto tempo ela leva para morrer... Pedro (p. 200) Bala pede que ela morra
logo, logo... Ser melhor. Agora o direto veio, veio para aumentar a tortura. Ouve a voz dele:
  -- Levanta... -- e um p o toca.
  Abre mais os olhos. Agora no v mais Dora. S a cara do diretor que sorri:
  -- Vamos ver se agora fica mais manso.
  No pode fitar a claridade que entra pelas janelas. Mal se agenta nas pernas. Cai no meio do corredor. Dora teria morrido ou no? -- pensa ao cair.
  Est novamente na sala do diretor. Este o olha sorridente:
  -- Gostou do apartamento? Continua com muita vontade de roubar? Eu sei ensinar, quebrar moleque aqui.
  Pedro Bala est irreconhecvel de to magro. Os ossos aparecem junto  pele. O rosto, verdoso da complicao intestinal. O bedel Fausto, dono daquela voz que ele
ouvira certa vez na porta da cafua, est ao seu lado. E um tipo forte, tem fama de ser to malvado quanto o diretor. Pergunta:
  -- Na oficina de ferreiro?
  -- Acho que  melhor na plantao de cana. Lavrar terra... - ri. Fausto diz que est bem, o diretor recomenda:
  -- Olho nele. Este  um pssaro ruim. Mas eu te ensino...
  Pedro Bala sustenta seu olhar. O bedel o empurra.
  Agora v detidamente o casaro. No meio do ptio o cabeleireiro raspa a sua cabea a zero. V a cabeleira loira rolar no cho. Do-lhe umas calas e palet de
mescla azul. Veste-se ali mesmo. O bedel leva o a uma oficina de ferreiro:
  -- Tem um faco? E uma foice?
  Entrega os objetos a Pedro Bala. Marcham para o canavial, onde outros meninos trabalham. Neste dia, de to fraco, Pedro Bala mal sustm o faco. Por isso os bedis
o soqueiam. Ele nada diz.

  (p. 201)

   noite, na fila, olha para todos, querendo descobrir aquele que lhe falava e dava cigarros. Sobem as escadas, andam para o dormitrio, que fica no terceiro andar
para impedir qualquer idia de fuga. A porta  fechada. O bedel Fausto diz:
  -- Graa, puxe a reza.
  Um menino avermelhado faz o pelo-sinal. Todos repetem as palavras e os gestos. Depois  um padre-nosso e uma ave-maria, ditas com voz forte apesar do cansao.
Pedro se joga na cama. Uma coberta suja o espera. Mudam a roupa de cama de 15 em 15 dias. E a roupa de cama  apenas uma coberta e uma fronha para um travesseiro
de pedra.
  J est dormindo quando algum toca no seu ombro.
  -- Tu que  Pedro Bala, no ?
  -- Sim.
  -- Fui eu que trouxe o recado.
  Pedro olha o mulato que est a seu lado. Pode ter dez anos:
  -- Eles tm voltado?
  -- Todo santo dia. S quer saber quando tu sai da cafua.
  -- Diz que eu tou no canavial...
  -- Tu no quer comer um sacana hoje? Tem uns aqui, a gente de noite...
  Tou morto de sono... Quanto tempo levei?
  -- Oito dias. J morreu um ali.
  O menino vai embora. Pedro nem perguntou seu nome. Tudo o que quer  dormir. Mas os que andam para as camas dos pederastas fazem rudo. O bedel Fausto sai do seu
quarto de tabiques:
  -- Que barulho  esse?
  Silncio. Ele bate as mos:
  -- Todos de p.
  Fita a todos:
  -- Ningum sabe?

  (p. 203)

  Silncio. O bedel esfrega os olhos, anda entre as camas. Um enorme relgio d dez horas na parede.
  -- Ningum diz?
  Silncio. O bedel range os dentes:
  -- Ento ficaro todos uma hora de p... At as onze. E o primeiro que tentar deitar vai pra cafua. Agora est desocupada...
  Uma voz de menino corta o silncio:
  -- Seu bedel...
   um pequeno, meio amarelento.
  -- Fale, Henrique.
  -- Eu sei...
  Os olhos todos esto fitos nele. Fausto anima a delao:
  -- Diga o que sabe.
  -- Foi Jeremias, que ia pra cama de Berto fazer coisa feia.
  -- Seu Jeremias, seu Berto!
  Os dois saem das suas camas.
  -- De p na porta. At meia-noite. Os outros podem deitar -- olha mais uma vez a todos. Os castigados esto de p na porta.
  Quando o bedel se recolhe, Jeremias ameaa Henrique. Os outros comentam. Pedro Bala dorme.
  No refeitrio, enquanto bebiam o caf aguado e mastigavam o bolacho duro, seu vizinho de mesa fala:
  -- Tu  o chefe dos Capites da Areia? -- sua voz  baixssima.
  -- Sou, sim.
  -- Vi teu retrato no jornal... Tu  um macho! Mas te acabaram -- olha o rosto magro de Bala.
  Mastiga o bolacho. Continua:
  -- Tu vai ficar aqui?
  -- Vou arribar...

  (p. 203)

  -- Eu tambm. Tenho um plano... Quando eu bater asa, posso ir pra teu grupo?
  -- Pode.
  -- Onde fica o buraco?
  Pedro Bala olha com desconfiana:
  -- Tu encontra a gente no Campo Grande toda tarde
  -- Pensa que vou dizer?
  O bedel Campos bate as mos Todos se levantam. Dirigem-se para as diversas oficinas ou para os terrenos cultivados.
  Pelo meio da tarde Pedro Bala v o Sem-Pernas que passa na estrada. V tambm um bedel que o tange.
  Castigos... Castigos...  a palavra que Pedro Bala mais ouve no reformatrio. Por qualquer coisa so espancados, por um nada so castigados. O dio se acumula
dentro de todos eles.
  No extremo do canavial passa um bilhete a Sem-Pernas. No outro dia encontra a corda entre as moitas de cana. Com certeza a puseram durante a noite.  um rolo de
corda fina e resistente. Est novinha. No meio dela o punhal que Pedro mete nas calas. A dificuldade  levar o rolo para o dormitrio. Fugir durante o dia  impossvel,
com a vigilncia dos bedis. No pode levar o rolo entre a roupa, que notariam.
  De repente surge uma briga. Jeremias se joga sobre o bedel Fausto com o faco na mo. Outros meninos se atiram tambm, mas vem um grupo de bedis armados de chicotes.
Esto sujeitando Jeremias.
  Pedro mete o rolo de corda debaixo do palet, abre para o dormitrio. Um bedel vem descendo a escada com um revlver na mo. Pedro se esconde atrs de uma porta.
O bedel vem rpido, passa.
  Empurra a corda para baixo do colcho, volta para o canavial. Jeremias foi levado para a cafua. Os bedis agora juntam os meninos. Ranulfo e Campos foram em perseguio
de Agostinho, que pulou a (p. 204) cerca na confuso da briga. O bedel Fausto, com um talho no ombro, foi para a enfermaria. O diretor est entre eles, os olhos
fuzilando de raiva. Um bedel conta os meninos. Pergunta a Pedro Bala:
  -- Onde estava metido?
  -- Sa pra no me meter no barulho.
  O bedel o olha desconfiado, mas passa.
  Voltam Ranulfo e Campos com Agostinho. O fujo  surrado na vista de todos. Depois o diretor diz:
  -- Metam-no na cafua.
  -- J est Jeremias -- fala Ranulfo.
  -- Ficam os dois. Assim podem conversar...
  Pedro Bala se arrepia. Como iro ficar dois na pequenez da cafua?
  Nesta noite a vigilncia  grande, ele no tenta nada. Os meninos rangem os dentes de raiva.
  Duas noites depois, quando o bedel Fausto j tinha se recolhido h muito ao seu quarto de tabiques e quando todos dormiam, Pedro Bala se levantou, tirou a corda
de sob o colcho. Sua cama ficava junto a uma janela. Abriu. Amarrou a corda num dos armadores de rede que existiam na parede. Deixou que a corda casse pela janela.
Era curta. Faltava ainda muito. Recolheu. Procurava fazer o menor barulho possvel, mas assim mesmo um dos seus vizinhos de cama acordou:
  -- Tu vai bater asa?
  A quele no tinha boa fama. Costumava delatar. Por isso mesmo fora colocado ao lado de Pedro Bala. Bala puxou o punhal, mostrou a ele.
  -- Olha, xereta, trata de dormir. Se tu piar, eu te abro a garganta, palavra de Pedro Bala. E se tu disser alguma coisa depois que eu sair... Tu j viu falar nos
Capites da Areia?
  -- J.

  (p. 205)

  -- Pois eles me vinga.
  Pe o punhal ao alcance da mo. Recolhe completamente a corda, amarra o lenol na ponta com um daqueles ns que o Querido-de-Deus lhe ensinou. Ameaa mais uma
vez o menino, joga a corda, passa o corpo pela janela, comea a descida. Ainda no meio ouve os gritos denunciadores do delator. Se deixa escorregar pela corda, salta
ao cho. O pulo  grande, mas ele j salta correndo. Pula a cerca, aps evitar os cachorros policiais que esto soltos. Desaba pela estrada. Tem alguns minutos de
vantagem. O tempo dos bedis se vestirem e sarem em sua perseguio e soltarem os cachorros tambm. Pedro Bala prende o punhal nos dentes, tira a roupa. Assim os
cachorros no o conhecero pelo faro. E nu, na madrugada fria, inicia a carreira para o sol, para a liberdade.
  Professor l a manchete do Jornal da Tarde:
  "O chefe dos 'Capites da Areia' consegue fugir do reformatrio"
  Trazia uma longa entrevista com o diretor furioso. Todo o trapiche ri. At o padre Jos Pedro, que est com eles, ri em gargalhadas, como se fosse um dos Capites
da Areia.

  Orfanato

  Um ms de orfanato bastou para matar a alegria e a sade de Dora. Nascera no morro, infncia em correrias no morro. Depois a liberdade das ruas da cidade, a vida
aventurosa dos Capites da Areia. No era uma flor de estufa. Amava o sol, a rua, a liberdade.
  Fizeram duas tranas do seu cabelo, amarraram com fitas. Fitas cor-de-rosa. Deram-lhe um vestido de pano azul, um avental de um azul mais escuro. Faziam com que
ela ouvisse aulas junto com meninas de cinco e seis anos. A comida era m, havia castigo tambm.
  Ficar em jejum, perder os recreios. Veio uma febre, ela esteve na enfermaria. Quando voltou estava macilenta. Tinha sempre febre, mas no dizia nada, porque odiava
o silncio da enfermaria, onde o sol no entrava e todas as horas pareciam a hora agonizante do crepsculo. Quando podia, chegava perto das grades, porque por vezes
divisava Professor ou Joo Grande que rondavam por ali. Um dia lhe passaram um bilhete. Pedro Bala fugira do reformatrio. Viria tir-la dali. Nem sentiu a febre
em que estava.
  A visaram por intermdio de outro bilhete, que Professor escreveu e lhe jogou, que ela arranjasse um meio de ir para a enfermaria. Mas nem foi preciso, porque
uma irm notou o avermelhado das suas faces. Ps a mo no seu rosto:
  -- Ests queimando de febre.
  Era sempre crepsculo na enfermaria. Era como uma ante-sala do tmulo, com as pesadas cortinas que impediam a luz de entrar. O mdico que a vira balanara a cabea
com tristeza.

  (p. 207)

  Mas a luz entrou com eles. Como Pedro Bala estava magro, pensou Dora ao se pr ao seu lado. Joo Grande, Gato, Professor, estavam com ele. Professor mostrou a
navalha  Irm, que abafou um grito. A menina que estava com catapora na outra cama tremia sob os lenis. Dora queimava de febre, mal podia estar de p. A Irm
murmurou:
  -- Ela est muito doente...
  Dora respondeu:
  -- Eu vou, Pedro.
  Saram pela porta. Volta Seca tinha o grande cachorro preso pela coleira. Tinham trazido um pedao de carne. Gato abriu o porto. Na rua disse:
  -- Foi canja...
  Professor avisou:
  -- Vamos embora antes que alarmem.
  Se atiraram por uma ladeira. Dora nem sentia a febre porque ia junto com Pedro Bala, ele pegando na sua mo.
  Volta Seca fechava a marcha, a mo no punhal, um sorriso no rosto sombrio.

  Noite de Grande Paz

  Os Capites da Areia olham mezinha Dora, a irmzinha Dora, Dora noiva, Professor v Dora, sua amada. Os Capites da Areia olham em silncio. A me-de-santo Don'Aninha
reza orao forte para a febre que consome Dora desaparecer. Com um galho de (p. 208) sabugueiro manda que a febre se v. Os olhos febris de Dora sorriem. Parece
que a grande paz da noite da Bahia est tambm nos seus olhos.
  Os Capites da Areia olham em silncio sua me, irm e noiva.
  Mal a recuperaram, a febre a derrubou. Onde est a alegria dela, por que ela no corre picula com seus filhinhos menores, no vai para a aventura das ruas com
seus irmos negros, brancos e mulatos? Onde est a alegria dos olhos dela? S uma grande paz, a grande paz da noite. Porque Pedro Bala aperta sua mo com calor.
  A paz da noite da Bahia no est no corao dos Capites da Areia. Tremem com receio de perder Dora. Mas a grande paz da noite est nos olhos dela. Olhos que se
fecham docemente, enquanto a me-de-santo Aninha enxota a febre que a devora.
  A paz da noite envolve o trapiche.

  Dora, Esposa

  O cachorro late a lua na areia. Sem-Pernas sai do trapiche, acompanha Don'Aninha atravs do areal. Ela disse que a febre no tardaria a ir embora. Pirulito sai
tambm, vai chamar o padre Jos Pedro. Tem confiana no padre, ele pode saber um remdio.
  Dentro do trapiche os Capites da Areia esto silenciosos. Dora pediu que eles fossem dormir. Se deitaram pelo cho, mas so raros os que dormem. Na paz imensa
da noite pensam na febre que consome
  Dora. Ela beijou Z Fuinha, mandou que ele fosse dormir. Ele no compreende bem. Sabe que ela est doente, mas no pensa um momento que ela o poder abandonar.
Mas os Capites da Areia (p. 209) temem que isso acontea. Ento ficaro novamente sem me, sem irm, sem noiva.
  Agora s Joo Grande e Pedro Bala esto a seu lado. O negro sorri, mas Dora sabe que o sorriso dele  forado,  um sorriso para a animar, um sorriso arrancado
 fora da tristeza que o negro sente.
  Pedro Bala segura sua mo. Mais retirado, Professor est dobrado sobre si mesmo, a cabea enterrada nas mos.
  Dora diz:
  -- Pedro?
  -- Que ?
  -- Chegue aqui.
  Ele se aproxima. A voz dela  um fio de voz. Pedro fala com carinho:
  -- Tu quer alguma coisa?
  -- Tu gosta de mim?
  -- Tu bem sabe...
  -- Deita aqui.
  Pedro deita ao seu lado. Joo Grande se afasta, chega para perto de Professor. Mas no conversam, ficam entregues  sua tristeza. No entanto  uma noite de paz
que envolve o trapiche. E a paz da noite est tambm nos olhos doentes de Dora.
  -- Mais perto...
  Ele se chega mais, os corpos esto juntos. Ela toma a mo dele, leva ao seu peito. Arde de febre. A mo de Pedro est sobre seu seio de menina. Ela faz com que
ele a acaricie, diz:
  -- Tu sabe que j sou moa?
  A mo dele pousada nos seus seios, os corpos juntos. Uma grande paz nos olhos dela:
  -- Foi no orfanato... Agora posso ser tua mulher.
  Ele a olha espantado:
  -- No, que tu t doente...
  -- Antes de eu morrer. Vem...
  -- Tu no vai morrer.

  (p. 210)

  -- Se tu vier, no.
  Se abraam. O desejo  abrupto e terrvel. Pedro no a quer magoar, mas ela no mostra sinais de dor. Uma grande paz em todo seu ser.
  -- Tu  minha agora fala ele com voz agitada.
  Ela parecia no sentir a dor da posse. Seu rosto acendido pela febre se enche de alegria. Agora a paz  s da noite, com Dora est a alegria. Os corpos se desunem.
Dora murmura:
  --  bom... Sou tua mulher.
  Ele a beija. A paz voltou ao rosto dela. Fita Pedro Bala com amor.
  -- Agora vou dormir -- diz.
  Deita ao lado dela, segura sua mo ardente. Esposa.
  A paz da noite envolve os esposos. O amor  sempre doce e bom, mesmo quando a morte est prxima. Os corpos no se balanam mais no ritmo do amor. Mas nos coraes
dos dois meninos no h mais nenhum medo. Somente paz, a paz da noite da Bahia.
  Na madrugada, Pedro pe a mo na testa de Dora. Fria. No tem mais pulso, o corao no bate mais. O seu grito atravessa o trapiche, desperta os meninos. Joo
Grande a olha de olhos abertos. Diz a Pedro Bala:
  -- Tu no devia ter feito...
  -- Foi ela que quis -- explica e sai para no rebentar em soluos.
  Professor se chega, fica olhando. No tem coragem de tocar no corpo dela. Mas sente que para ele a vida do trapiche acabou, no lhe resta mais nada que fazer ali.
Pirulito entra com o padre Jos Pedro. O padre pega no pulso de Dora, bota a mo na testa:
  -- Est morta.
  Inicia uma orao. E quase todos rezam em voz alta.
  -- Padre nosso que estais no cu...
  Pedro Bala se lembra das rezas  noite no reformatrio. Seus ombros se encolhem, tapa os ouvidos. Volta-se, v o corpo de (p. 212) Dora. Pirulito ps uma flor
roxa entre seus dedos. Pedro Bala rompe em soluos.
  Veio a me-de-santo Don'Aninha, veio tambm o Querido-de-Deus. Pedro Bala no toma parte da conversa. Aninha diz:
  -- Foi como uma sombra nesta vida. Vira santa na outra
  Zumbi dos Palmares  santo dos candombls de caboclo, Rosa Palmeiro tambm. Os homens e as mulheres valentes viram santo dos negros...
  -- Foi como uma sombra... -- repete Joo Grande.
  Foi como uma sombra para todos, um acontecimento sem explicao. Menos para Pedro Bala, que a teve. Menos para Professor que a amou.
  Padre Jos Pedro fala
  -- Vai pro cu, no tinha pecado. No sabia o que era pecado...
  Pirulito reza. Querido-de-Deus sabe o que esperam dele. Que leve o cadver no seu saveiro e o jogue no mar, adiante do forte velho. Como poder sair um enterro
do trapiche?  difcil explicar tudo isso ao padre Jos Pedro. O Sem-Pernas o faz numa voz apressada. O padre a princpio se horroriza.  um pecado, ele no pode
consentir num pecado. Mas consente, que no vai denunciar onde moram os Capites da Areia. Pedro Bala no fala.
  Em torno  a paz da noite. Nos olhos mortos de Dora, olhos de me, de irm, de noiva e de esposa, h uma grande paz. Alguns meninos choram. Volta Seca e Joo Grande
vo levar o corpo. Mas, parado ante ele, est Pedro Bala, imvel. Volta Seca no pode estender as mos. Joo Grande chora como uma mulher. Don'Aninha toma do brao
de Pedro, tira-o dali e envolve o corpo de Dora numa toalha branca de rendas:
  -- Vai para Yemanj -- diz. -- Ela tambm vira santo...
  Mas ningum pode levar o cadver. Porque Pedro Bala est abraado com ele, no o larga. Professor o chama:
  -- Deixa. Eu tambm gostava dela. Agora...

  (p. 213)

  Levam-na para a paz da noite, para o mistrio do mar. O padre reza,  uma estranha procisso que se dirige na noite para o saveiro do Querido-de-Deus. Do areal,
Pedro Bala v o saveiro que se afasta. Morde as mos, estende os braos.
  Voltam para o trapiche. A vela branca do saveiro se perde no mar. A lua ilumina o areal, as estrelas tanto esto no cu como no mar. H uma paz na noite. Paz que
veio dos olhos de Dora.

  Como uma estrela de loira
cabeleira

  Contam no cais da Bahia que quando morre um homem valente vira estrela no cu. Assim foi com Zumbi, com Lucas da Feira, com Besouro, todos os negros valentes.
Mas nunca se viu um caso de uma mulher, por mais valente que fosse, virar estrela depois de morta.
  Algumas, como Rosa Palmeiro, como Maria Cabau, viraram santas nos candombls de caboclo. Nunca nenhuma virou estrela.
  Pedro Bala se joga n'gua. No pode ficar no trapiche, entre os soluos e as lamentaes. Quer acompanhar Dora, quer ir com ela, se reunir a ela nas Terras do
Sem Fim de Yemanj. Nada para diante sempre. Segue a rota do saveiro do Querido-de-Deus. Nada, nada sempre. V Dora em sua frente, Dora, sua esposa, os braos estendidos
para ele. Nada at j no ter foras. Bia ento, os olhos voltados (p. 214) para as estrelas e a grande lua amarela do cu. Que importa morrer quando se vai em
busca da amada, quando o amor nos espera?
  Que importa tampouco que os astrnomos afirmem que foi um cometa que passou sobre a Bahia naquela noite? O que Pedro Bala viu foi Dora feita estrela, indo para
o cu. Fora mais valente que todas mulheres, mais valente que Rosa Palmeiro, que Maria Cabau. To valente que antes de morrer, mesmo sendo uma menina, se dera
ao seu amor. Por isso virou uma estrela no cu. Uma estrela de longa cabeleira loira, uma estrela como nunca tivera nenhuma na noite de paz da Bahia.
  A felicidade ilumina o rosto de Pedro Bala. Para ele veio tambm a paz da noite. Porque agora sabe que ela brilhar para ele entre mil estrelas no cu sem igual
da cidade negra.
  O saveiro do Querido-de-Deus o recolhe.

  Cano da Bahia, cano da
liberdade

  Vocaes

  No havia passado muito tempo sobre a morte de Dora, a imagem da sua presena to rpida e no entanto to marcante, da sua morte tambm, ainda enchia de vises
as noites do trapiche. Alguns, quando entravam, todavia, olhavam para o canto onde ela costumava sentar ao lado do Professor e de Joo Grande. Ainda com a esperana
de encontr-la. Fora um acontecimento sem explicao. Fora o totalmente inesperado na vida deles, o aparecimento de uma me, de uma irm. Motivo por que eles ainda
a procuravam, apesar de terem visto o Querido-de-Deus a levar no seu saveiro para o fundo do mar. S Pedro Bala no a procurava no trapiche. Procurava ver, no cu
de tanta estrela, uma que tivesse longa e loira cabeleira.
  Um dia Professor entrou no trapiche e no acendeu sua vela, no abriu um livro de histrias, no conversou. Para ele toda aquela vida tinha acabado desde que Dora
fora levada pela febre. Quando ela viera, enchera o trapiche com sua presena. Para Professor tudo tinha uma nova significao. O trapiche ficara como a moldura
de um quadro: ora os cabelos loiros caindo sobre Gato, que via sua me, ora os lbios que beijavam Z Fuinha para ele dormir. Ou a boca que cantava cantigas de ninar.
Tambm sorrisos de orgulho para a coragem de Volta Seca, como se fosse uma destemida mulata sertaneja. Ou a entrada no trapiche, os cabelos voando, o rosto todo
rindo, de volta da aventura do dia nas ruas da cidade. Ou os olhos cheios de amor, a febre queimando seu rosto, as mos chamando o amado para a posse primeira e
ltima. Agora Professor olhava o trapiche como para uma moldura sem quadro. Intil. Para ele deixara de ter significao, ou (p. 218) tinha uma significao terrvel
demais. Mudara muito naqueles meses aps a morte de Dora, andava calado, o rosto srio, e entrara em relaes com aquele senhor que certa vez, num passeio da rua
Chile, conversara com ele, lhe dera uma piteira e seu endereo.
  Nesta noite Professor no acendeu vela, no abriu livro de histria. Ficou calado quando Joo Grande veio para seu lado. Arrumava suas coisas numa trouxa. Quase
tudo era livro. Joo Grande olhava sem dizer nada, mas compreendia muito, se bem todos dissessem que no havia negro mais burro que o negrinho Joo Grande. Mas quando
Pedro Bala chegou e sentou tambm a seu lado e lhe ofereceu um cigarro, Professor falou:
  -- Vou embora, Bala...
  -- Pra onde, mano?
  Professor olhou o trapiche, os meninos que andavam, que riam, que se moviam como sombras entre os ratos:
  -- Que adianta a vida da gente? S pancada na polcia quando pegam a gente. Todo mundo diz que um dia pode mudar... Padre Jos Pedro, Joo de Ado, tu mesmo. Agora
vou mudar a minha...
  Pedro Bala no disse nada, mas a pergunta estava nos seus olhos. Joo Grande no perguntava nada, compreendia tudo.
  -- Vou estudar com um pintor do Rio. Dr. Dantas, aquele da piteira, escreveu a ele, mandou uns desenhos meus. Ele mandou dizer que me mandasse... Um dia vou mostrar
como  a vida da gente... Fao o retrato de todo mundo... Tu falou uma vez, lembra? Pois fao...
  A voz de Pedro Bala o animou:
  -- Tu tambm vai ajudar a mudar a vida da gente...
  -- Como? -- fez Joo Grande.
  Professor tambm no entendeu. Tampouco Pedro Bala sabia explicar. Mas tinha confiana no Professor, nos quadros que ele faria na marca do dio que ele levava
no corao, na marca de amor  justia e  liberdade que ele levava dentro de si. No se vive inutilmente uma infncia entre os Capites da Areia. Mesmo quando depois
se vai se um artista e no um ladro, assassino ou malandro. Mas Pedro Bala no sabia explicar tudo isso. Apenas disse:

  (p. 219)

  -- A gente nunca te esquece, mano... Tu lia histria para gente, era o mais batuta da gente... O mais batuta...
  Professor baixou a cabea. Joo Grande se levantou, sua voz era um chamado, era um grito de despedida tambm:
  -- Gentes! Gentes!
  Vieram todos, ficaram em torno. Joo Grande estendeu os braos:
  -- Gentes, Professor vai embora. Vai ser um pintor no Rio de Janeiro. Gentes, viva Professor!
  O viva apertou o corao do menino. Olhou para o trapiche. No era como um quadro sem moldura. Era como a moldura de inmeros quadros. Como quadros de uma fita
de cinema. Vidas de luta e de coragem. De misria tambm. Uma vontade de ficar. Mas que adiantava ficar? Se fosse, poderia ser de melhor ajuda. Mostraria aquelas
vidas... Apertam sua mo, o abraam. Volta Seca est triste, to triste como se tivesse morrido um cangaceiro do grupo de Lampio.
  Na noite do cais o homem da piteira, que era um poeta, entrega uma carta e dinheiro a Professor:
  -- Ele o esperar no cais. Telegrafei. Espero que voc no traia a confiana que depositei no seu talento.
  Nunca um passageiro de terceira teve tanta gente na sua despedida. Volta Seca lhe d um punhal de presente. Pedro Bala faz tudo para rir, para dizer coisas gozadas.
Mas Joo Grande no esconde a tristeza que vai dentro dele.
  Professor ainda de longe v o bon de Pedro, que se sacode no cais. E no meio daqueles homens desconhecidos, oficiais fardados, comerciantes e senhoritas, fica
tmido, no sabe que fazer, sente que toda a sua coragem ficou com os Capites da Areia. Mas dentro do seu peito vem uma marca de amor  liberdade. Marca que o faria
abandonar o velho pintor que lhe ensina coisas acadmicas para ir pintar por sua conta quadros que, antes de admirar, espantam todo o pas.

  (p. 220)

  Passou o inverno, passou o vero, veio outro inverno, e este cheio de longas chuvas, o vento no deixou de correr uma s noite no areal. Agora Pirulito vendia jornais,
fazia trabalhos de engraxate, carregava bagagens dos viajantes. Conseguira deixar de furtar para viver. Pedro Bala consentira que ele continuasse no trapiche, apesar
que ele no levava a mesma vida que os outros. Pedro Bala no entende o que vai dentro de Pirulito. Sabe que ele quer ser padre, que quer fugir daquela vida. Mas
acha que aquilo no resolver nada, no endireitar nada na vida de todos eles. O padre Jos Pedro fazia tudo para mudar a vida deles. Mas era um s, os outros no
achavam que ele fizesse bem. Que tinha adiantado? S todos unidos, como dizia Joo de Ado.
  Mas Deus chamava Pirulito. Nas noites do trapiche o menino ouvia o chamado de Deus. Era uma voz poderosa dentro dele. Uma voz poderosa como a voz do mar, como
a voz do vento que corre em torno ao casaro. Uma voz que no fala aos seus ouvidos, que fala ao seu corao. Uma voz que o chama, que o alegra e o amedronta ao mesmo
tempo. Uma voz que exige tudo dele para lhe dar a felicidade a servir. Deus o chama. E o chamado de Deus dentro de Pirulito  poderoso como a voz do vento, como
a voz potente do mar. Pirulito quer viver para Deus, inteiramente para Deus, uma vida de recolhimento e de penitncia, uma vida que o limpe dos pecados, que o torne
digno da contemplao de Deus. Deus o chama e Pirulito pensa na sua salvao. Ser um penitente, no olhar mais o espetculo do mundo. No quer ver nada do que
se passa no mundo para ter os olhos suficientemente limpos para poderem ver a face de Deus. Porque para aqueles que no tm os olhos completamente limpos de todo
pecado, a face de Deus  terrvel como o mar enfurecido. Mas para quem tm os olhos e o corao limpos de todo o pecado, a face de Deus  mansa como as ondas do mar
numa manh de sol e de bonana.
  Pirulito est marcado por Deus. Mas est marcado tambm pela vida dos Capites da Areia. Desiste da sua liberdade, de ver e ouvir o espetculo do mundo, da marca
de aventura dos Capites da Areia, para ouvir o chamado de Deus. Porque a voz de Deus que fala no seu corao  to poderosa que no tem comparao. Rezar pelos
Capites da Areia na sua cela de penitente. Porque tem que ouvir e seguir a voz que o chama.  uma voz que transfigura seu rosto na noite invernosa do trapiche.
Como se l fora fosse a primavera.

  (p. 221)

  Padre Jos Pedro foi chamado novamente ao arcebispado. Desta vez o Cnego est acompanhado do superior dos Capuchinhos. Padre Jos Pedro treme, pensando que novamente
vo lhe ralhar, vo falar dos seus pecados. Fez uma coisa contra as leis para ajudar os Capites da Areia. Teme ter fracassado, porque em quase nada conseguira melhorar
a vida deles. Mas em certos momentos cruis levara um pouco de conforto queles pequenos coraes. E tinha Pirulito... Era uma conquista para Deus. Se no fizera
tudo, se no transformara como queria aquelas vidas, no tinha perdido tudo tambm. Algo havia conseguido para Deus. Se alegrava, apesar da tristeza do pouco que
havia conseguido para os Capites da Areia. Assim mesmo, em certos momentos fora como a famlia que lhes faltava. Certas horas tinha sido pai e me. Agora os chefes
estavam j rapazes, quase homens. Professor j tinha ido embora, outros no tardariam a ir. Mesmo que fossem ser ladres, levar uma vida de pecado, em certos momentos
o padre conseguira minorar o espetculo de misria das suas vidas com um pouco de conforto e de carinho. E de solidariedade.
  Mas desta vez o Cnego no ralha. Anuncia que o arcebispado resolveu lhe dar uma parquia. Conclui:
  -- O senhor nos deu muito que fazer, padre, com suas idias erradas acerca de educao. Espero que a bondade do Sr. Arcebispo lhe dando esta parquia far com
que o senhor pense nas suas obrigaes e desista dessas inovaes soviticas.
  A parquia nunca tivera cura porque o arcebispo nunca encontrara um padre que se dispusesse a ir para o meio dos cangaceiros, numa perdida vila do alto serto.
Mas o nome do lugarejo alegrou o corao do padre Jos Pedro. Ia para o meio dos cangaceiros. E os cangaceiros so como crianas grandes. Agradeceu, ia falar, mas
o superior dos Capuchinhos o interrompeu:
  -- O Sr. Cnego me disse que entre estes meninos h um que tem vocao sacerdotal.
  -- Ia falar disso mesmo disse o padre. -- Nunca vi uma vocao to decidida.

  (p. 222)

  O missionrio sorriu:
  -- Porque ns estamos em falta de um irmo. No  o mesmo que ser padre, bem sei. Mas est muito prximo. E se a sua vocao verdadeira a ordem pode faz-lo estudar
e mesmo se ordenar.
  -- Ele vai ficar louco de alegria.
  -- O senhor responde por ele?
  Pirulito ir ser frade. Um dia talvez se ordene. O padre sai agradecendo a Deus.
  Levam o padre  estao. O apito do trem  como um lamento. Esto ali vrios dos Capites da Areia. Padre Jos Pedro os fita com amor. Pedro Bala diz:
  -- O senhor foi bom pra gente, padre. Um homem bom. A gente no vai esquecer o senhor...
  No reconhecem Pirulito quando ele chega vestido com uma batina de frade, um longo cordo pendendo ao lado. Padre Jos Pedro diz:
  -- Conhecem o irmo Francisco da Sagrada Famlia?
  Eles olham Pirulito com certa vergonha. Mas Pirulito sorri. Est mais magro, um ar de asceta. Com o hbito de capuchinho fica muito alto.
  -- Ele rezar por vocs... -- diz o padre Jos Pedro.
  Se despede. Entra para o vago. O trem apita,  como uma despedida. Da janela, o padre v os meninos que agitam mos e bons, velhos chapus, trapos que servem
de leno. Uma velha que vai defronte dele, doidinha para puxar conversa, se espanta do padre chorando.
  Boa-Vida pouco aparece no trapiche. Tem um violo, faz sambas, est enorme, mais um malandro nas ruas da Bahia. Ningum tem uma vida igual  dos malandros. Passa
o dia conversando nas docas, no mercado, vai s festas dos morros e da Cidade de Palha  noite, ou

  (p. 223)

 s macumbas. Toca seu violo, come e bebe do melhor, apaixona as cabrochas bonitas com sua voz e sua msica. Arma fuzu nas festas e quando a polcia o persegue
vem se esconder no trapiche entre os Capites da Areia.
  Ento toca para eles, ri com eles em gargalhadas como se ainda fosse um deles. Boa-Vida vai se afastando aos poucos,  proporo que vai crescendo. Quando tiver
dezenove anos j no voltar. Ser um malandro completo, um daqueles mulatos que amam a Bahia acima de tudo, que fazem uma vida perfeita nas ruas da cidade. Inimigo
da riqueza e do trabalho, amigo das festas, da msica, do corpo das cabrochas. Malandro. Armador de fuzus. Jogador de capoeira navalhista, ladro quando se fizer
preciso. De bom corao, como canta um ABC que Boa-Vida faz acerca de outro malandro. Prometendo s cabrochas se regenerar e ir para o trabalho, sendo malandro sempre.
Um dos valentes da cidade. Figura que os futuros Capites da Areia amaro e admiraro, como Boa-Vida amou e admirou o Querido-de-Deus.
  Um dia, passado muito tempo, Pedro Bala ia com o Sem-Pernas pelas ruas. Entraram numa igreja da Piedade, gostavam de ver as coisas de ouro, mesmo era fcil bater
uma bolsa de uma senhora que rezasse. Mas no havia nenhuma senhora na igreja quela hora. Somente um grupo de meninos pobres e um capuchinho que lhes ensinava catecismo.
  --  Pirulito... -- disse Sem-Pernas.
  Pedro Bala ficou olhando. Encolheu os ombros:
  -- Que adianta?
  Sem-Pernas olhou:
  -- No d de comer...
  -- Um dia um vai ser padre tambm. Tem que ser  tudo junto.
  Sem-Pernas disse:
  -- A bondade no basta.
  Completou:

  (p. 224)

  -- S o dio...
  Pirulito no os via. Com uma pacincia e uma bondade extremas ensinava s crianas buliosas as lies de catecismo. Os dois Capites da Areia saram balanando
a cabea. Pedro Bala botou a mo no ombro do Sem-Pernas.
  -- Nem o dio, nem a bondade. S a luta.
  A voz bondosa de Pirulito atravessa a igreja. A voz de dio do Sem-Pernas estava junto de Pedro Bala. Mas ele no ouvia nenhuma. Ouvia era a voz de Joo de Ado,
o doqueiro, a voz de seu pai morrendo na luta.

  Cano de amor da vitalina

  Gato contou que a solteirona era cheia do dinheiro. Era a ltima de uma famlia rica, andava pelos quarenta e cinco anos, feia e nervosa. Corria a notcia de que
tinha uma sala cheia de coisas de ouro, de brilhantes e jias acumuladas pela famlia atravs de geraes. Pedro Bala pensou que era uma coisa capaz de dar um bocado
de dinheiro. Gonzales, o dono da casa de penhor O 14, dava dinheiro por aqueles objetos. Perguntou ao Sem-Pernas:
  -- Tu  capaz de penetrar?
  -- Se sou...
  -- Depois a gente invade.
  Riram no trapiche. Gato saiu para ver Dalva. Sem-Pernas avisou:
  -- Amanh de manh vou l.

  (p. 225)

  A solteirona abriu a porta. S tinha uma criada, uma negra velha, que parecia fazer parte da herana, pois acompanhava a famlia h cinqenta anos. A solteirona
olhou muito digna para o Sem-Pernas:
  -- Quer alguma coisa?
  -- Eu sou um pobre dio e aleijado mostrava a perna coxa. -- No quero viver furtando, nem pedindo esmola. A senhora tem um trabalho para mim? Posso fazer compras.
  A solteirona no tirava os olhos dele. Um menino... No era a bondade que falava dentro dela. Era a voz do sexo que dava seus ltimos latidos. Dentro em pouco
seu sexo ficaria intil, os mdicos diziam que ento o seu nervoso cessaria. Muito antes, quando ainda era mocinha, houvera um menino na casa para fazer compras.
Fora bom... Mas seu irmo descobrira, expulsara o menino. Agora o irmo estava morto, outro menino vinha pedir para fazer compras:
  -- T bem.
  Mandou que ele tomasse banho. Pela tarde deu-lhe dinheiro para as compras e mais para uma roupa para ele. Sem-Pernas conseguiu bater mil e duzentos nas contas.
Pensou:
  -- Aqui vou  fazer dinheiro...
  Na cozinha a negra contava histrias antigas com sua lngua embolada. Sem-Pernas ouvia demonstrando excessivo interesse para ganhar confiana da negra. Mas quando
perguntou pelas coisas de ouro a negra no respondeu. Sem-Pernas no insistiu. Sabia ser paciente, estava acostumado quele trabalho. Na sala a solteirona fazia
ponto de cruz numa toalha, mirava Sem-Pernas com interesse, pela porta. Era feia de cara, mas o corpo velhusco ainda tinha certo atrativo.
  Chamou Sem-Pernas para ver o trabalho que ela estava fazendo, quando Sem-Pernas olhou ela se curvou, ele viu os seios grandes. Mas no pensou que ela estivesse
lhe mostrando. Achou o trabalho muito bonito, disse:
  -- A senhora  muito inteligente...
  Parecia at um menino bem-educado. Apesar da perna coxa e da cara feia, a solteirona o achou lindo. Seria melhor que fosse um pouco (p. 225) menos crescido. Mas
assim mesmo... Novamente se curvou, mostrou os seios ao Sem-Pernas. Sem-Pernas desviou o olhar, no pensava que fosse de propsito. Quando ele elogiou novamente
o trabalho, ela passou a mo no seu rosto:
  -- Obrigada, meu filho sua voz era lnguida.
  A negra botou um colcho na sala de jantar para o Sem- Pernas dormir. Cobriu com um lenol, arranjou um travesseiro. A solteirona conversava na casa de uma amiga,
na mesma rua, e quando voltou Sem-Pernas j estava deitado. Ouviu que ela se despedia de algum:
  -- Desculpe este trabalho de trazer uma vitalina pra casa.
  -- Dona Joana, no diga isso...
  Entrou, trancou a porta da rua, tirou a chave. A negra j tinha ido dormir no quarto junto da cozinha. A solteirona veio at a sala de jantar, deu uma espiada
em Sem-Pernas, que fez que estava dormindo. Suspirou. Marchou para seu quarto.
  As luzes estavam todas apagadas na casa. Apesar de ser muito cedo em relao  hora em que dormiam no trapiche, Sem-Pernas se entregou ao sono.
  Por isso no sabe a que horas a vitalina veio. Sentiu foi uma mo que passava em seus cabelos. Pensou que fosse um sonho bom. A mo deslizava, passava no seu peito,
na sua barriga, agora segurava de manso no seu sexo. Sem-Pernas despertou completamente, mas ficou de olhos fechados. A solteirona machucava seu sexo, se encostava
contra ele. Estava de camisa de dormir, suspendeu a camisa, botou a mo de Sem-Pernas no seu corpo, Sem-Pernas se encostou nela. Quis falar, ela ps a mo na sua
boca, apontou para a cozinha:
  -- Pode ouvir...
  Disse ainda mais baixo:
  -- Tu vai ser bom para mim, no vai?
  Se apertava contra ele. Puxou as calas do Sem-Pernas. Depois se cobriram com o lenol. Mas quando Sem-Pernas quis tudo, ela disse:
  -- No. S em cima.

  (p. 227)

  Era uma coisa incompleta que enraivecia Sem-Pernas.
  A solteirona gemia baixinho de amor. Apertava a cabea do Sem-Pernas contra seus seios enormes, o sexo dele contra suas coxas, a mo do menino no seu sexo.
  Sem-Pernas levanta estremunhado. Um grande cansao nos seus membros. Aquelas noites so como batalhas. Nunca  um gozo completo, uma satisfao total. A solteirona
quer uma migalha de amor. Teme o amor completo, o escndalo de um filho. Mas tem sede e fome de amor, quer nem que sejam as migalhas. Mas Sem-Pernas quer fazer o
amor completo, aquilo o irrita, faz crescer seu dio. Ao mesmo tempo se sente preso ao corpo da solteirona, s carcias a meio, trocadas na noite. Uma coisa o retm
naquela casa. Se bem ao acordar tenha dio de Joana, uma raiva impotente, uma vontade de a estrangular j que no a pode possuir totalmente, se a acha feia e velha,
quando a noite se acerca fica nervoso pelos carinhos da vitalina, pela mo que movimenta seu sexo de menino, pelos seus seios onde repousa a cabea, pelas suas coxas
grossas. Imagina  planos para a possuir, mas a solteirona os frustra, fugindo no ltimo momento, e ralha com ele em voz baixa. Uma raiva surda possui Sem-Pernas.
Mas a mo dela vem de novo para seu sexo e ele no pode lutar contra o desejo. E volta quela luta tremenda da qual sai nervoso e esgotado. Durante o dia responde
mal a Joana, diz brutalidades, a solteirona chora. Ele a chama de vitalina, diz que vai embora. Ela lhe d dinheiro, pede que ele fique. Mas no  pelo dinheiro
que ele fica. Fica porque o desejo o retm. J sabe qual a chave que abre a sala onde Joana guarda seus objetos de ouro. Sabe como tirar a chave para lev-la aos
Capites da Areia. Mas o desejo o retm ali, junto dos seios e das coxas da vitalina. Junto da mo da vitalina.
  Fora sempre infeliz para o lado de mulher. Quando conseguia uma negrinha no areal era com a ajuda dos outros, era  fora. Nenhuma olhava para ele, convidando
com os olhos. Outros eram (p. 228) feios, mas ele era repulsivo com a perna coxa, andando feito caranguejo. Demais terminara por se fazer antiptico e a se acostumar
a possuir negrinhas a pulso. Agora vinha uma mulher branca e com dinheiro, velha e feisca era verdade, mas bem comvel ainda, e se deitava com ele. Acariciava seu
sexo com a mo, juntava coxa com coxa, deitava sua cabea nos seus seios grandes. Sem-Pernas no podia sair dali, se bem cada dia estivesse mais bruto e mais inquieto.
Seu desejo reclamava uma posse completa. Mas a vitalina se contentava em colher migalhas do amor.
  Sem-Pernas durante o dia a odeia, se odeia, odeia o mundo todo.
  Pedro Bala reclamou a demora. J era tempo do Sem-Pernas saber os segredos da casa. Sem-Pernas diz que sim, que no demora mais. E naquela noite a batalha de amor
 mais forte ainda. A solteirona geme de amor, recolhendo as migalhas do amor. Mas no cede a sua honra. Isso d coragem ao Sem-Pernas para no outro dia arribar
com a chave.
  A vitalina o espera para o amor. Est como uma esposa a quem o marido abandonasse. Chora e se lastima. Seu amor no vem, ela tambm precisa de amor, como todas
essas moas que passam de vestidos bonitos na rua.
  Mas o roubo a enfurece. Porque pensa que Sem-Pernas s amou nas noites longas de vcios para a furtar. Sua sede de amor humilhada.  como se houvessem cuspido
na sua cara, dizendo que era por causa da sua feira. Chora, no geme mais uma cano de amor. Se sente com coragem para estrangular o Sem-Pernas se encontrasse.
Porque burlaram do seu amor, da sede de amor que est no seu sangue. A sua desgraa  mais completa porque durante uma semana foi plenamente feliz com as migalhas
de amor. Rola no cho com um ataque.
  No trapiche, Sem-Pernas ri, relatando sua aventura. Mas no fundo sabe que a solteirona o fez ainda pior, aumentou com seus vcios o dio que vivia latente no seu
corao. Agora um desejo insatisfeito enche suas noites. Um desejo que impede seu sono, que lhe d raiva.

  (p. 229)

  Na rabada de um trem

  Os navios chegam a Ilhus carregados de mulheres. Mulheres que vm da Bahia, de Aracaju, o mulherio todo de Recife, mesmo do Rio de Janeiro. Os gordos coronis
olham das pontes a chegada das mulheres. Morenas, loiras e mulatas, vm em busca deles. Porque a notcia da alta do cacau correu pelo pas todo. A notcia de que
numa cidade relativamente pequena como Ilhus estavam abertos quatro cabars. Que os coronis queimavam nas noites de jogo e de champanha notas de quinhentos mil-ris.
Que pela madrugada saam nus pelas ruas da cidade, formando o chamado terno do Y. A notcia corria pelas ruas de mulheres perdidas. Os caixeiros-viajantes levavam
a notcia. O cabar da Brama, em Aracaju, ficou despovoado de mulheres. Foram para o El-Dorado, cabar de Ilhus. O mulherio de Recife desceu todo em alguns navios
do Lloyd Brasileiro. Os pernambucanos ficaram sem mulheres, vieram todas para o cabar Bataclan, apelidado pelos estudantes em frias de Escola. Vieram algumas do
Rio de Janeiro e estas foram para o Trianon, ex-Vesvio, o mais luxuoso dos quatro cabars da cidade do cacau. At Rita Tanajura, clebre pelas grandes ndegas reboleantes,
deixou a paz da sua cidade de Estncia, onde era a rainha do pequeno mulherio de vida fcil e onde se dava com todo mundo, e veio ser a rainha do Far-West, o cabar
da rua do Sapo, onde os beijos e o estalo das garrafas de champanha se misturavam com os tiros, com o barulho das brigas. Porque o Far-West era o cabar dos capatazes,
dos pequenos fazendeiros de repente enriquecidos.

  (p. 230)

  Na rua de Dalva, na zona das mulheres perdidas da Bahia, a casas se despovoaram. Vieram mulheres para o Bataclan, mulheres para o El-Dorado, mulheres para o Far-West.
Umas poucas vieram para o Trianon, onde danavam com os coronis. No Bataclan mulheres pernambucanas e sergipanas davam parte do dinheiro que ganhavam dos coronis,
e que era muito, aos estudantes que em compensao lhes davam o amor. Os viajantes enchiam o El-Dorado At no Far-West as mulheres ganhavam jias. Por vezes ganhavam
um tiro tambm, como uma estranha jia vermelha no peito. Rita
  Tanajura danava o charleston em cima de uma mesa, entre champanha e tiros. Tudo isso foi naquela alta do cacau de h muitos anos.
  Quando Dalva soube que Isabel tinha colares e anel de brilhante e, no entanto, no estava no Trianon, que era o mais luxuoso dos cabars, estava era no Bataclan,
no resistiu. Arrumou as malas. O que no faria ela no Trianon, ela que era a melhor das mulheres da sua rua Enfardou Gato com uma elegantssima roupa de casimira
feita sol medida, de repente Gato no era mais um menino, era o mais jovem dos vigaristas da Bahia.
  Na noite que, envergando seu traje novo, sapatos negros de verniz, gravata borboleta, chapu de palhinha, apareceu no trapiche Joo Grande soltou uma exclamao
de assombro:
  -- Pois no  o Gato?
  Gato no fizera ainda dezoito anos. Fazia quatro que amava Dalva. Virou para Joo Grande:
  -- Agora vou comear a vida...
  Ofereceu cigarros tirados de uma cigarreira cara, alisou o cabelo bem assentado. Botou a mo no ombro de Pedro Bala:
  -- Mano, vou para Ilhus. A patroa vai cavar a vida. Eu vou com ela. Sou capaz de enricar. Quando tiver  fazendeiro a gente vai faze uma farra daquelas.
  Pedro sorriu. Era outro que ia. No seriam meninos toda vida... Bem sabia que eles nunca tinham parecido crianas. Desde pequenos na arriscada vida da rua, os
Capites da Areia eram como homens eram iguais a homens. Toda a diferena estava no tamanho. No mais
eram iguais: amavam e derrubavam negras no areal desde cedo furtavam para viver como os ladres da cidade. Quando eram preso (p. 231) apanhavam surras como os homens.
Por vezes assaltavam de armas na mo como os mais temidos bandidos da Bahia. No tinham tambm conversas de meninos, conversavam como homens. Sentiam mesmo como
homens. Quando outras crianas s se preocupavam com brincar, estudar livros para aprender a ler, eles se viam envolvidos em acontecimentos que s os homens sabiam
resolver. Sempre tinham sido como homens, na sua vida de misria e de aventura, nunca tinham sido perfeitamente crianas. Porque o que faz a criana  o ambiente
de casa, pai, me, nenhuma responsabilidade. Nunca eles tiveram pai e me na vida da rua. E tiveram sempre que cuidar de si mesmos, foram sempre os responsveis
por si. Tinham sido sempre iguais a homens. Agora os mais velhos, os que eram desde h anos os chefes do grupo, estavam rapazolas, comeavam a ir para seus destinos.
Professor j fora, fazia quadros no Rio de Janeiro. Boa-Vida se desligara aos poucos do trapiche, toca violo nas festas, vai aos candombls, arma fuzu nas quermesses.
 mais um malandro na cidade. Seu nome j  conhecido at nos jornais. Como os outros vagabundos,  conhecido pelos investigadores de polcia, que sempre esto de
olho nos malandros. Pirulito  frade num convento, Deus o chamou, nunca mais sabero dele. Agora  o Gato que parte, vai arrancar dinheiro dos coronis de Ilhus.
O Querido-de-Deus certa vez disse que Gato enricaria. Porque a vida na rua, no abandono, fez de Gato um jogador desonesto, um vigarista, um gigol de mulheres.
  No demorar que os outros partam. S Pedro Bala no sabe o que fazer. Dentro em pouco ser mais que um rapazola, ser um homem e ter que deixar para outro a
chefia dos Capites da Areia. Para onde ir? No poder ser um intelectual como Professor, cujas mos s viviam para pintar, no nasceu para malandro, como Boa-Vida,
que no sente o espetculo da luta diria dos homens, que s ama andar vagabundando pelas ruas, conversar acocorado nas docas, beber nas festas de morro. Pedro sente
o espetculo dos homens, acha que aquela liberdade no  suficiente para a sede de liberdade que tem dentro de si. Tampouco sente o chamado de Deus, como Pirulito
o sentiu. Para ele as pregaes do padre Jos Pedro nunca disseram nada. Gostava do padre como de um homem bom. S as palavras de Joo de Ado encontravam acolhida
no seu corao. Mas Joo de Ado mesmo sabe muito pouco. O que tem  msculos potentes e voz autoritria, e no entanto amiga, para chefiar uma greve. Tampouco (p.
232) Pedro Bala quer ir como Gato enganar os coronis de Ilhus, arranca o dinheiro deles. Quer qualquer coisa que no sabe ainda o que , e por isso se demora entre
os Capites da Areia.
  O trapiche grita se despedindo do Gato. Este sorri, elegantssimo, alisando o cabelo, no dedo aquele anelo cor de vinho que furtara certa vez.
  Do cais Pedro Bala d adeus ao Gato. Vestido com suas roupas esfarrapadas, agitando o bon, se sente muito longe do Gato, que ao lado de Dalva parece um homem
feito com sua roupa bem talhada Pedro sente uma aflio, uma vontade de fugir, de ir para qualquer parte num navio ou na rabada de um trem.
  Mas quem vai na rabada de um trem  Volta Seca. Uma tarde a polcia o pegou quando o mulato despojava um negociante da sua carteira. Volta Seca tinha ento dezesseis
anos. Foi levado para a polcia, o surraram porque ele xingava todos, soldados e delegados com aquele imenso desprezo que o sertanejo tem pela polcia. Ele no soltou
um grito enquanto apanhou. Oito dias depois o puseram na rua, e ele saiu quase alegre, porque agora tinha uma misso na vida matar soldados de polcia.
  Passou uns dias no trapiche, o rosto sombrio, afogado em pensamentos. O serto o chamava, a luta do cangao o chamava. Um dia disse a Pedro Bala:
  -- Vou passar uns tempos com os Maloqueiros em Aracaju.
  Os ndios Maloqueiros eram os Capites da Areia em Aracaju. Viviam sob as pontes, roubavam e brigavam nas ruas. O juiz de menores Olimpio Mendona era um homem
bom, procurava resolver os conflitos como melhor podia, se abismava com a inteligncia das crianas iguais a homens, compreendia que era impossvel resolver o problema.
Contava aos romancistas coisas dos meninos, no fundo amava os meninos. Mas se sentia aflito porque no podia resolver o problema deles. Quando entre os ndios Maloqueiros
aparecia algum novo, ele j sabia que era um baiano que tinha chegado na rabada de um trem. E quando um sumia, sabia que tinha ido para entre os Capites da Areia
na Bahia.

  (p. 233)

  Uma madrugada o trem de Sergipe apitou na estao da Calada. Ningum tinha vindo trazer Volta Seca  estao porque ele ia para voltar, ia passar uns tempos entre
os ndios Maloqueiros, esquecer a polcia baiana, que o tinha marcado. Volta Seca se meteu no vago de carga que estava aberto, se escondeu entre uns fardos. Aos
poucos o trem abandona a estao. Depois  a estrada do serto, ndia Nordestina. Nas casas de barro aparecem mulheres e meninas. Os homens seminus lavram a terra.
Na estrada de animais que corre paralela  estrada de ferro passam boiadas. Vaqueiros gritam tangendo os animais. Nas estaes vendem doces de milho, mingau, mungunz,
pamonha e canjica. O serto vai entrando pelo nariz e pelos olhos de Volta Seca. Queijos e rapaduras passam em tabuleiros nas pequenas estaes, as paisagens agrestes
jamais esquecidas enchem novamente os olhos do sertanejo. Estes muitos anos na cidade no tinham arrancado seu amor ao serto miservel e belo. Nunca fora um menino
da cidade igual a Pedro Bala, a Boa-Vida, ao Gato. Fora sempre um deslocado na cidade, com uma fala diferente, falando em Lampio, dizendo meu padrim, imitando as
vozes dos animais sertanejos.
  Antigamente ele e sua me tinham um pedao de terra. Ela era comadre de Lampio, os coronis respeitavam sua terra. Mas quando Lampio se internou pelo serto
de Pernambuco os coronis ficaram com a terra da me de Volta Seca. Ela desceu para a cidade para pedir justia. Morreu no caminho, Volta Seca continuou a caminhada
com seu rosto sombrio. Muita coisa aprendeu na cidade, entre os Capites da Areia. Aprendeu que no era s no serto que os homens ricos eram ruins para com os pobres.
Na cidade, tambm. Aprendeu que as crianas pobres so desgraadas em toda parte, que os ricos perseguem e mandam em toda parte. Sorriu por vezes, mas nunca deixou
de odiar. Na figura de Jos Pedro descobriu o motivo por que Lampio respeitava os padres. Se j pensava que Lampio era um heri, a sua experincia na cidade, o
dio adquirido na cidade, fez com que amasse a figura de seu padrinho acima de tudo. Acima mesmo da de Pedro Bala.
  Agora  o serto. Perfume das flores do serto. Campos amigos, aves amigas, magros cachorros nas portas das casas. Velhos que parecem missionrios indianos, negros
de longos rosrios no pescoo.
  Cheiro bom de comidas de milho e mandioca. Homens magros que (p. 234) lavram a terra para ganhar mil e quinhentos dos donos da terra. S caatinga  que  de todos,
porque Lampio libertou a caatinga expulsou os homens ricos da caatinga, fez da caatinga a terra dos cangaceiros que lutam contra os fazendeiros. O heri Lampio,
heri de todo o serto de cinco estados. Dizem que ele  um criminoso, um cangaceiro sem corao, assassino, desonrador, ladro. Mas para
  Volta Seca, para os homens, as mulheres e as crianas do serto  um novo Zumbi dos Palmares, ele  um libertador, um capito de um novo exrcito. Porque a liberdade
 como o sol, o bem maior do mundo. E Lampio luta, mata, deflora e furta pela liberdade. Pela liberdade e pela justia para os homens explorados do serto imenso
de cinco estados: Pernambuco, Paraba, Alagoas, Sergipe e Bahia.
  O serto comove os olhos de Volta Seca. O trem no corre, este vai devagar, cortando as terras do serto. Aqui tudo  lrico, pobre e belo. S a misria dos homens
 terrvel. Mas estes homens so to fortes que conseguem criar beleza dentro desta misria. Que no faro quando Lampio libertar toda a caatinga, implantar a justia
e a liberdade?
  Passam violeiros, improvisadores de poesia. Passam vaqueiros que tangem o gado, homens plantam mandioca e milho. Nas estaes os coronis descem para estirar as
pernas. Levam grandes revlveres. Os violeiros cegos cantam pedindo uma esmola. Um negro de camisu e rosrio atravessa essa a estao dizendo estranhas coisas em
lngua desconhecida. Foi escravo, hoje  um doido na estao. Todos temem, temem suas pragas. Porque ele sofreu muito, o chicote de feitor rasgou suas costas. Tambm
o chicote da polcia, feitor dos ricos, rasgou as costas de Volta Seca. Todos o temero um dia tambm.
  Caatingas do serto, olor das flores sertanejas, o manso andar do trem sertanejo. Homens de alpercatas e chapu de couro. Crianas que estudam para cangaceiro na
escola da misria e da explorao do homem.
  O trem pra no meio da caatinga. Volta Seca pula fora do vago. Os cangaceiros apontam os fuzis, o caminho que os trouxe est parado no outro lado da estrada,
os fios do telgrafo cortados. Na caatinga agreste no se v ningum. Uma moa desmaia num dos (p. 235) carros, um caixeiro-viajante esconde a carteira com dinheiro.
Um coronel gordo sai do vago, fala:
  -- Capito Virgulino...
  O cangaceiro de culos aponta o fuzil:
  -- Para dentro.
  Volta Seca pensa que seu corao vai estalar de alegria. Encontrou seu padrinho, Virgulino Ferreira Lampio, heri das crianas sertanejas. Chega para junto dele,
um outro cangaceiro o quer afastar, mas ele diz:
  -- Meu padrim...
  -- Quem  tu?
  -- Sou Volta Seca, filho de tua comadre...
  Lampio o reconhece, sorri. Os cangaceiros esto entrando nos vages de primeira, no so muitos, uns doze. Volta Seca pede:
  -- Meu padrim, deixe eu ficar com voc... Me d um fuzil.
  -- Tu ainda  um menino... -- Lampio olha com seus culos escuros.
  -- No sou mais no, j briguei com soldado...
  Lampio grita:
  -- Z Baiano, d um fuzil a Volta Seca...
  Olha o afilhado:
  -- Tu guarda esta sada. Se um quiser arribar, mete fogo.
  Entra para a coleta. Desmaios e gritos l dentro, o soar de um disparo. Depois o grupo volta para a estrada. Traz dois soldados de polcia que viajavam no trem.
Lampio divide dinheiro com os cangaceiros. Volta Seca tambm recebe. De um vago sai um fio de sangue. O cheiro bom do serto penetra as narinas de volta Seca.
Os soldados so encostados numas rvores. Z Baiano prepara o fuzil, mas a voz de Volta Seca faz um pedido:
  -- Deixe pra mim, padrim. Eles me bateram na polcia, bateram em muito menino.
  Levanta o fuzil, qual  o sertanejo que no tem boa pontaria?
  Seu rosto sombrio tem um riso que o enche todo. Cai o primeiro, o segundo tenta fugir, mas a bala o alcana nas costas (p. 236) Depois Volta Seca corre para cima
dele com o punhal, sacia sua vingana. Z Baiano diz:
  -- Este menino  dos bons...
  -- A me dele era um bicho, minha comadre... -- lembra
  Lampio orgulhoso.
  -- Uma verdadeira fera... -- pensa o viajante enquanto o trem se move lentamente aps os empregados afastarem os toros de madeira de sobre os trilhos. O grupo
de cangaceiros se perde na caatinga. O ar do serto enche o peito de Volta Seca, que pra e com o punhal faz dois traos na madeira do fuzil. Os dois primeiros...
Ao longe o trem apita angustiosamente.

  Como um trapezista de circo

  Fora demasiada audcia atacar aquela casa da rua rui Barbosa. Perto dali, na praa do Palcio, andavam muitos guardas, investigadores, soldados. Mas eles tinham
sede de aventura, estavam cada vez maiores, cada vez mais atrevidos. Porm havia muita gente na casa, deram o alarme, os guardas chegaram. Pedro Bala e Joo Grande
abalaram pela ladeira da Praa. Barando abriu no mundo tambm. Mas o Sem-Pernas ficou encurralado na rua. Jogava picula com os guardas. Estes tinham se despreocupado
dos outros, pensavam que j era alguma coisa pegar aquele coxo. Sem-Pernas corria de um lado para outro da rua, os guardas avanavam. Ele fez que ia escapuli por
outro lado, driblou um dos guardas, saiu pela ladeira. Mas em vez de descer e tomar pela Baixa dos Sapateiros, se dirigiu para a praa d Palcio. Porque Sem-Pernas
sabia que se corresse na rua o pegariam (p. 238) com certeza. Eram homens, de pernas maiores que as suas, e alm do mais ele era coxo, pouco podia correr. E acima
de tudo no queria que o pegassem. Lembrava-se da vez que fora  polcia. Dos sonhos das suas noites ms. No o pegariam e enquanto corre este  o nico pensamento
que vai com ele. Os guardas vm nos seus calcanhares. Sem-Pernas sabe que eles gostaro de o pegar, que a captura de um dos Capites da Areia  uma bela faanha
para um guarda. Essa ser a sua vingana. No deixar que o peguem, no tocaro a mo no seu corpo. Sem-Pernas os odeia como odeia a todo mundo, porque nunca pde
ter um carinho. E no dia que o teve foi obrigado ao abandonar porque a vida j o tinha marcado demais. Nunca tivera uma alegria de criana.
  Se fizera homem antes dos dez anos para lutar pela mais miservel das vidas: a vida de criana abandonada. Nunca conseguira amar ningum, a no ser a este cachorro
que o segue. Quando os coraes das demais crianas ainda esto puros de sentimentos, o do Sem-Pernas j estava cheio de dio. Odiava a cidade, a vida, os homens.
Amava unicamente o seu dio, sentimento que o fazia forte e corajoso apesar do defeito fsico. Uma vez uma mulher foi boa para ele. Mas em verdade no o fora para
ele e sim para o filho que perdera e que pensara que tinha voltado. De outra feita outra mulher se deitara com ele numa cama, acariciara seu sexo, se aproveitara
dele para colher migalhas do amor que nunca tivera. Nunca, porm, o tinham amado pelo que ele era, menino abandonado, aleijado e triste. Muita gente tinha odiado.
E ele odiara a todos. Apanhara na polcia, um homem ria quando o surravam. Para ele  este homem que corre em sua perseguio na figura dos guardas. Se o levarem,
o homem rir de novo. No o levaro. Vm em seus calcanhares, mas no o levaro. Pensam que elevai parar junto ao grande elevador. Mas Sem-Pernas no pra. Sobe para
o pequeno muro, volve o rosto para os guardas que ainda correm, ri com toda a fora do seu dio, cospe na cara de um que se aproxima estendendo os braos, se atira
de costas no espao como se fosse um trapezista de circo.
  A praa toda fica em suspenso por um momento. Se jogou, diz uma mulher, e desmaia. Sem-Pernas se rebenta na montanha como um trapezista de circo que no tivesse
alcanado o outro trapzio. O cachorro late entre as grades do muro.

  Notcias de jornal

  O jornal da tarde publica um telegrama do rio dando conta do sucesso da exposio de um jovem pintor at ento desconhecido. Dias depois transcreve uma crtica
de arte publicada tambm num jornal do Rio de Janeiro. Porque o pintor  baiano, e o Jornal da Tarde  muito cioso das glrias baianas. Um trecho da crtica de arte,
aps falar das qualidades e defeitos do novo pintor social, de usar e abusar de expresses como clima, luz, cor, ngulos, fora e outras mais, diz: ... um detalhe
notaram todos que foram estranha exposio de cenas e retratos de meninos pobres.  que todos os sentimentos bons esto sempre representados na figura de uma menina
magra de cabelos loiros e faces febris. E que todos os sentimentos maus esto representados por um homem de sobretudo negro e um ar de viajante. Que representar
para um psicanalista a repetio quase inconsciente destas figuras em todos os quadros? Sabe-se que o pintor Joo Jos tem uma histria...
  E continuava o abuso das palavras cor, fora, clima, luz, ngulos e outras mais complicadas.
  Meses depois uma notcia informava aos leitores do Jornal da Tarde, sob o ttulo de  Presente de grego a Polcia de Belmonte devolve o  vigarista gato que a polcia
de Belmonte, havia recebido da policia de Ilhus um verdadeiro presente de grego. Um conhecido e jovem vigarista que atuava em Ilhus com o nome de Gato", aps
ter abiscoitado bons cobres de muitos fazendeiros e comerciantes, fora remetido para Belmonte. L continuava a passar contos do vigrio, em que era mestre. Conseguira
vender uma imensidade de terras, timas para o cultivo do cacau, a muitos fazendeiros. Quando estes foram ver as terras, no eram mais que o leito sobre o qual corria
o rio Cachoeira. A polcia de Belmonte tinha conseguido deitar mo no temvel vigarista e o remetia de volta para Ilhus.
  Os ilheenses so mais ricos que ns, terminava com certa ironia o correspondente que assinava a notcia, podem sustentar com mais conforto o elegante Gato que
os filhos da bela Belmonte, a Princesa do Sul. Porque se Belmonte  a Princesa, Ilhus  muito justamente chamada a Rainha do Sul.
  Entre fatos policiais sem importncia o Jornal da Tarde noticiou um dia que um malandro conhecido pelo nome de Boa-Vida armara um fuzu tremendo numa festa na
Cidade de Palha, abrira a cabea do dono da casa com uma garrafa de cerveja e estava sendo procurado pela polcia.
  Perto de um Natal o Jornal da Tarde apareceu com manchetes em tipos enormes. Uma notcia de tanta sensao como aquela que fizera conhecida a histria da mulher
que acompanhava o bando de (p. 241) Lampio, a amante do cangaceiro. Porque a populao dos cinco estados, de Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraba e Pernambuco, vive
com os olhos fitos em Lampio. Com dio ou com amor, nunca com indiferena. A manchete dizia em letras garrafais:
  Uma criana de 16 anos no grupo de Lampio
  Os tipos das letras dos ttulos que encabeavam a reportagem eram tambm enormes:
   um dos mais temveis cangaceiros - trinta e cinco traos no seu fuzil - pertenceu aos "Capites da Areia" - a morte de machado devida a volta seca
  A reportagem era extensa. Contava como as vilas saqueadas h algum tempo vinham notando entre o bando de Lampio uma criana de uns dezesseis anos, que levava
o nome de Volta Seca. Apesar da sua idade, o jovem cangaceiro se fizera temido em todo o serto como um dos mais cruis do grupo. Constava que seu fuzil tinha trinta
e cinco marcas. E cada marca num fuzil de cangaceiro representa um homem morto. Depois vinha a histria da morte de Machado, um dos mais antigos do grupo de Lampio.
  Aconteceu que o grupo tinha pegado na estrada um velho sargento de polcia. E Lampio o entregara a Volta Seca para que o despachasse. Volta Seca o despachara
devagarinho,  ponta de punhal, cortando os pedacinhos com visvel satisfao. Fora tanta a crueldade, que Machado, horrorizado, levantou o fuzil para acabar com
Volta Seca. Mas antes que disparasse, Lampio, que tinha um grande orgulho de Volta Seca, atirou em Machado. Volta Seca continuara sua tarefa.
  A notcia se estendia, narrando diversos outros crimes do cangaceiro de 16 anos. Depois lembrava que entre os Capites da Areia (p. 242) vivera um menino com o
nome de Volta Seca e que era possvel que fosse o mesmo. Vinham ento vrias consideraes de ordem moral.
  A edio se esgotou.
  Meses depois a edio se esgotou novamente porque trazia a notcia da priso de Volta Seca, enquanto dormia, executada pela coluna volante que percorria o serto
dando caa a Lampio. Anunciava que o cangaceiro chegaria no outro dia  Bahia. Vinham vrios clichs onde Volta Seca aparecia com seu rosto sombrio. O Jornal da
Tarde dizia que era rosto de criminoso nato.
  O que no era verdade, como o prprio jornal da Tarde noticiou tempos depois, ao relatar em edies extraordinrias e sucessivas o jri que condenou Volta Seca
a 30 anos de priso por 15 mortes conhecidas e provadas. No entanto, seu fuzil tinha 60 marcas. E o jornal lembrava esse fato, repetindo que cada marca era um homem
morto. Mas publicava tambm parte do relatrio do mdico-legista, cavalheiro de honestidade e cultura reconhecidas, j ento um dos grandes socilogos e etngrafos
do pas, relatrio que provava que Volta Seca era um tipo absolutamente normal e que se virara cangaceiro e matara tantos homens e com tamanha crueldade no fora
por vocao de nascena. Fora o ambiente... e vinham as devidas consideraes cientficas.
  O que alis no despertou tanta curiosidade entre o pblico como a descrio de belssimo, vibrantssimo e apaixonadssimo discurso de dr. Promotor Pblico, que
fizera os jurados chorar, e at o prprio juiz tinha limpado as lgrimas, ao descrever o dr. Promotor, com sublime fora oratria, o sofrimento das vtimas do feroz
cangaceiro-menino.
  O pblico ficou indignado porque Volta Seca no chorou durante o jri. Seu rosto sombrio estava cheio de estranha calma.

  (p. 243)

  Companheiros

  H um movimento novo na cidade. Pedro Bala sai do trapiche com Joo Grande e Barando. O cais est deserto, parece que todos o abandonaram. Somente soldados de
policia guardam os grandes armazns. No h descarga de navios neste dia. Porque os estivadores, com Joo de Ado  frente, foram prestar solidariedade aos condutores
de bonde que esto em greve. Parece que h uma festa na cidade, mas uma festa diferente de todas. Passam grupos de homens que conversam, os automveis cortam as
ruas conduzindo gente para o trabalho, empregados no comrcio riem, a ladeira da Montanha est cheia de gente que sobe e desce, pois os elevadores tambm esto parados.
As marinetes vo entupidas, gente sobrando pelas portas. Os grupos de grevistas passam silenciosos para a sede do sindicato, onde vo ouvir a leitura do manifesto
dos estivadores, que Joo de Ado conduz nas suas mos grandes. Na porta do sindicato grupos conversam, soldados montam guarda.
  Pedro Bala anda com Joo Grande e Barando pelas ruas. Diz:
  -- T bonito...
  Joo Grande tambm sorri, o negrinho Barando fala:
  -- Hoje vai ter fuzu.
  -- Eu  que no queria ser condutor de bonde, nem motorneiro.
  Ganha uma porcaria. Eles faz bem... -- fala Joo Grande.
  -- Vamos espiar? -- prope Pedro Bala.
  Vo para a porta do sindicato. Entram homens negros, mulatos, espanhis e portugueses. Vem quando Joo de Ado e os outros (p. 244) estivadores saem entre vivas
dos operrios das linhas de bonde. Eles vivam tambm. Joo Grande e Barando porque gostam do doqueiro
  Joo de Ado. Pedro Bala no s por isso como porque acha bonito o espetculo da greve,  como uma das mais belas aventuras dos Capites da Areia.
  Um grupo de homens bem vestidos entra no sindicato. Da porta eles ouvem uma voz que discursa, uma que interrompe: Vendido, amarelo.
  -- T bonito... -- repete Pedro Bala.
  Tem vontade de entrar, de se misturar com os grevistas, de gritar e lutar ao lado deles.
  A cidade dormiu cedo. A lua ilumina o cu, vem a voz de um negro do mar em frente. Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi. No trapiche as crianas
j dormem. At o negro Joo Grande ronca estirado na porta, o punhal ao alcance da mo. Somente
  Pedro Bala vela, estirado na areia, olhando a lua, ouvindo o negro que canta as saudades da sua mulata que partiu. O vento traz trechos soltos da cano e ela
faz com que Pedro Bala procure Dora no meio das estrelas do cu. Ela tambm virou uma estrela, uma estranha estrela de longa cabeleira loira. Os homens valentes
tm uma estrela em lugar do corao. Mas nunca se ouviu falar de uma mulher que tivesse no peito, como uma flor, uma estrela. As mulheres mais valentes da terra
e do mar da Bahia, quando morriam, viravam santas para os negros, como os malandros que foram tambm muito valentes. Rosa Palmeiro virou santa num candombl de
caboclo, rezam para ela oraes em nag, Maria Cabau  santa nos candombls de Itabuna, pois foi naquela cidade que ela mostrou sua coragem primeiro. Eram duas
mulheres grandes e fortes. De braos musculosos como homens, como grevistas. Rosa Palmeiro era bonita, tinha o andar gingado de martima, era uma mulher do mar,
certa vez teve um saveiro, cortou as ondas da entrada da barra. Os homens do cais a amavam no s pela sua coragem, como pelo seu corpo tambm. Maria Cabau era
feia, mulata escura, filha de negro e ndia, grossa e zangada. Dava nos homens que a achavam feia. Mas se entregou toda a um cearense

  (p. 245)

 amarelo e fraco que a amou como se ela fosse uma mulher bonita, de corpo belo e olhos sensuais. Tinham sido valentes, viraram santas nos candombls de caboclo,
que so candombls que de quando em vez inventam novos santos, no tm aquela pureza de rito dos candombls nags dos negros. So candombls dos mulatos. Mas Dora
fora mais valente que elas. Era apenas uma menina, vivera igual a um dos Capites da Areia, e todos sabem que um capito da areia  igual a um homem valente. Dora
vivera com eles, fora me para todos eles. Mas fora irm tambm, correra com eles pelas ruas, invadira casas, batera carteiras, brigara com o grupo de Ezequiel.
Depois, para Pedro Bala, fora noiva e esposa, esposa quando a febre a devorava, quando a morte j a rondava naquela noite de tanta paz. Paz que ia dos olhos dela
para a noite em torno. Estivera no orfanato, fugira dele, igual a Pedro Bala fugindo do reformatrio. Tivera coragem para morrer, consolando seus filhos, irmos,
noivos e esposo que eram os Capites da Areia. A me-de-santo Don'Aninha a enrolara numa toalha branca, bordada como se fora para um santo. O querido-de-deus a levara
no seu saveiro para junto de Yemanj. Padre Jos Pedro rezava. Todos a queriam. Mas s Pedro Bala quis ir com ela. Professor fugiu do trapiche porque no pde mais
suportar o casaro depois que ela partiu. Mas s Pedro Bala se jogou n'gua para seguir o destino de Dora, ir fazer com ela aquela maravilhosa viagem que os valentes
fazem com Yemanj no fundo verde do mar. Por isso s ele viu quando ela virou estrela e cruzou os cus. Ela veio s para ele, com sua longa cabeleira loira. Brilhou
sobre sua cabea de quase afogado e suicida. Deu-lhe novas foras, o saveiro do querido-de-deus que voltava o pde recolher. Agora olha o cu procurando a estrela
de Dora.  uma estrela de longa cabeleira loira, uma estrela como no existe nenhuma outra. Porque nunca existiu nenhuma mulher como Dora, que era uma menina. A
noite est cheia de estrelas que se refletem no mar calmo. A voz do negro parece se dirigir s estrelas, como que h pranto na sua voz cheia. Ele tambm procura
a amada que fugiu na noite da Bahia. Pedro Bala pensa que a estrela que  Dora talvez ande agora correndo sobre as ruas, becos e ladeiras da cidade a procur-lo.
Talvez o pense numa aventura nas ladeiras. Mas hoje no so os Capites da Areia que esto metidos numa bela aventura. So os condutores de bonde, negros fortes,
mulatos risonhos, espanhis e portugueses, que vieram de terras distantes. So eles, que levantam os (p. 246) braos e gritam iguais aos Capites da Areia. A greve
se soltou na cidade.  uma coisa bonita a greve,  a mais bela das aventuras. Pedro Bala tem vontade de entrar na greve, de gritar com toda a fora do seu peito,
de apartear os discursos. Seu pai fazia discursos numa greve, uma bala o derrubou. Ele tem sangue de grevista. Demais a vida da rua o ensinou a amar a liberdade.
A cano daqueles presos dizia que a liberdade  como o sol: o bem maior do mundo. Sabe que os grevistas lutam pela liberdade, por um pouco mais de po, por um pouco
mais de liberdade.  como uma festa aquela luta.
  Os vultos que se aproximam o fazem levantar desconfiado. Mas logo reconhece a figura enorme do estivador Joo de Ado. Junto a ele vem um rapaz bem vestido, mas
com os cabelos despenteados. Pedro
  Bala tira o bon, fala para Joo de Ado:
  -- Tu hoje ganhou viva, hein?
  Joo de Ado ri. Distende seus msculos, seu rosto est aberto num sorriso para o chefe dos Capites da Areia:
  -- Capito Pedro, eu quero apresentar a tu o companheiro Alberto.
  O rapaz estende a mo para Pedro Bala. O chefe dos Capites da Areia limpa primeiro sua mo no palet rasgado, depois aperta a do estudante. Joo de Ado est
explicando:
  --  um estudante da Faculdade, mas  um companheiro da gente.
  Pedro Bala olha sem desconfiana. O estudante sorri:
  -- J ouvi falar muito em voc e em seu grupo. Voc  um batuta...
  -- A gente  macho, sim responde Pedro Bala.
  Joo de Ado se aproxima mais:
  -- Capito, a gente tem que conversar com tu. Tem um assunto com tu. Um troo srio. Aqui o companheiro Alberto...
  -- Vamos para dentro? -- fala Pedro Bala.
  Acordam Joo Grande ao passar. O negro olha com desconfiana o estudante, pensa que  um polcia, levanta um pouco o punhal por detrs do brao. S Pedro Bala
v e fala:
  --  um amigo de Joo de Ado. Vem com a gente, Grande.

 (p. 247)

  Vo os quatro. Sentam num canto. Alguns dos Capites da Areia acordam e espiam o grupo. O estudante olha o trapiche, as crianas que dormem. Treme como se um vento
frio tivesse passado pelo seu
corpo:
  -- Que horror!
  Mas Pedro Bala est dizendo a Joo de Ado:
  -- Que coisa porreta a greve! Nunca vi coisa to bonita.  como uma festa...
  -- A greve  a festa dos pobres... -- diz o estudante.
  A voz de Alberto  mansa e boa. Pedro Bala o escuta enlevado, como se fosse a voz de um negro cantando uma cano no mar.
  -- Meu pai morreu numa greve, tu sabe? Pergunte a Joo de Ado, se est duvidando...
  -- Foi uma morte bonita fala o estudante. -- Ele foi um campeo da sua classe. No foi o Loiro?
  O estudante sabe o nome de seu pai. Seu pai foi um campeo... Todos o conhecem. Teve uma morte bonita, morreu numa greve, a greve  a festa dos pobres... Escuta
a voz do estudante:
  -- Voc acha a greve bonita, Pedro?
  -- Companheiro, esse  um porreta diz Joo de Ado. --Tu no conhece os Capites da Areia nem Capito Pedro...  um companheiro...
  Companheiro... Companheiro... Pedro Bala acha a palavra mais bonita do mundo. O estudante diz como Dora dizia a palavra irmo.
  -- Pois companheiro Pedro, a gente precisa de voc e do seu grupo.
  -- Pra qu? -- pergunta Joo Grande curioso.
  Pedro Bala apresenta:
  -- Este negro  Joo Grande, um negro bom. Quem for bom  igual a Joo Grande, melhor no ...
  Alberto estende a mo ao negro. Joo Grande fica um momento indeciso, no est acostumado a apertos de mo. Mas logo aperta aquela mo, meio encabulado. O estudante
novamente diz:

  (p. 248)

  -- Vocs so uns batutas...
  De repente, interessado, pergunta:
  --  verdade que Volta Seca foi um de vocs?
  -- Um dia a gente tira ele da cadeia... --  a resposta de Bala. O estudante olha meio espantado. D uma espiada pelo trapiche, Joo de Ado faz um sinal como
que lembrando: Eu no lhe dizia?
  Pedro Bala quer conversar sobre a greve, saber o que querem dele:
  --  pra greve que precisa da gente?
  -- Se for? -- perguntou o estudante.
  -- Se for pra ajudar os grevistas, tou decidido. Pode contar com a gente... -- levanta-se, est um rapazola, o rosto disposto para a luta.
  -- Tu no v... -- comea a explicar Joo de Ado.
  Mas cala, porque o estudante est falando:
  -- A greve est indo muito em ordem. Ns queremos fazer coisas com muita ordem, porque assim venceremos e os operrios conseguiro o aumento. Ns no queremos
armar barulho, queremos mostrar que os operrios so capazes de disciplina. (Uma pena, pensa Pedro Bala, que ama os barulhos.) Mas acontece que os diretores da Companhia
andam contratando fura-greves para trabalhar amanh. Se os operrios dissolverem os grupos de furadores de greve, daro margem a que a polcia intervenha e est
todo o trabalho perdido.
  Ento o companheiro Joo de Ado lembrou de vocs...
  -- Pra debandar os fura-greve? T certo -- diz Bala alegrssimo
  O estudante pensa na discusso daquela noite na organizao. Quando Joo de Ado fizera a proposta de chamar os Capites da Areia, muitos companheiros tinham se
declarado contra. Sorriam da idia. Joo de Ado s dizia:
  -- Vocs no conhece os Capites da Areia.
  Aquilo, aquela confiana, impressionara Alberto e alguns outros. Por fim a idia venceu, no perderiam nada em tentar. Agora est satisfeito de ter vindo. E na
sua cabea j fazia planos para aproveitar na luta os Capites da Areia. Para quanta coisa no serviriam aqueles meninos esfomeados e mal vestidos? Lembrava-se de
outros exemplos, da luta antifascista na Itlia, os meninos de Lusso. Sorria para Pedro Bala. Explicou o plano: os furadores de greve viriam pela (p. 249) madrugada
para os trs grandes depsitos de bondes para tomar conta dos carros. Os Capites da Areia deviam se dividir em trs grupos, guardar as entradas dos trs depsitos.
E impedir, fosse como fosse, que os furadores de greve conseguissem botar os bondes em marcha. Pedro Bala assentia com a cabea. Virou para Joo de Ado:
  -- Se Sem-Pernas tivesse vivo e Gato tivesse aqui...
  Depois se lembra de Professor:
  -- Professor inventava um plano bom num minuto... Depois fazia um desenho da briga. Agora t no Rio.
  -- Quem ? -- pergunta o estudante.
  -- Um chamado Joo Jos, que a gente tratava de Professor. Agora t pintando quadro no Rio.
  --  o pintor Joo Jos?
  Esse mesmo -- fez Bala.
  -- Eu sempre pensei que fosse lenda essa histria. Sabe que ele  um companheiro bom?
  -- Sempre foi um companheiro bom disse Pedro Bala com
fora.
  O estudante fazia planos sobre os Capites da Areia. Agora Pedro Bala acordava todos e explicava o que tinham que fazer. O estudante estava entusiasmado com as
palavras do moleque. Quando terminou de explicar, Bala resumiu tudo nestas palavras:
  -- A greve  a festa dos pobres. Os pobres  tudo companheiro, companheiro da gente.
  -- Voc  um batuta disse o estudante.
  -- Vai ver como a gente acaba com os traidor.
  Explicava a Alberto:
  -- Eu vou com um grupo pro depsito maior. Joo Grande vai com outro. Barando com o terceiro para o menor. No entra ningum. A gente sabe fazer. Tu vai ver...
  -- Eu estarei l para ver fez o estudante. -- Ento, s quatro horas da madrugada?
  -- T certo.
  O estudante faz um gesto.

  (p. 250)

  -- At logo, companheiros...
  Companheiros... Palavra bonita, pensa Pedro Bala. Ningum dorme mais no trapiche nesta noite. Preparam as mais diversas armas.
  Na madrugada que nasce, as estrelas comeam a desaparecer do cu. Mas Pedro Bala parece ver numa estrela que corre a estrela de Dora que o alegra. Companheira...
Tambm ela tinha sido uma companheira boa. A palavra brinca na sua boca,  a palavra mais bonita que ele j viu. Pedir a Boa-Vida que faa um samba dela, um samba
para um negro cantar  noite no mar. Vo como se fossem para uma festa. Armados com as mais diversas armas: navalhas, punhais pedaos de pau. Vo para uma festa,
porque a greve  a festa dos pobres, repete Pedro Bala para si mesmo.
  No p da ladeira da Montanha se dividem em trs grupos. Joo Grande chefia um, Barando vai com outro, o maior vai com Pedro Bala. Vo para uma festa. A primeira
festa verdadeira que tm aquelas crianas. Ainda assim  uma festa de homens. Mas  uma festa dos pobres, dos pobres como eles.
  A madrugada  fria. Na esquina do depsito, quando Pedro Bala est colocando os meninos, Alberto se aproxima dele. Pedro se volta o rosto sorridente. O estudante
fala:
  -- Eles j vm, companheiro.
  -- Espera pra ver.
  Agora  o estudante quem sorri. Evidentemente est entusiasma do com os meninos. Pedir  organizao para trabalhar com eles. Iro fazer muitas coisas juntos.
  Os fura-greves vm num grupo cerrado. Um americano o
chefia com a cara fechada. Se dirigem todos para a entrada. Da sombra, dos becos, ningum sabe de onde, como demnios fugidos do inferno, surgem meninos esfarrapados
e de armas na mo. Punhais, navalhas, paus. Tomam a porta, o grupo dos fura-greves pra. Logo (p. 251) os demnios se atiram,  um bolo s. So em nmero maior que
o grupo de fura-greves. Estes rolam com os golpes de capoeira, recebem pauladas, alguns j fogem. Pedro Bala derruba o americano, com a ajuda de outro o soqueia.
Os fura-greves pensam que  so demnios fugidos do inferno.
  A gargalhada livre e grande dos Capites da Areia ressoa na madrugada. A greve no  furada.
  Tambm Joo Grande e Barando so vitoriosos. O estudante ri com eles a gargalhada dos Capites da Areia.
  No trapiche diz para alegria dos meninos:
  -- Vocs so os mais batutas que eu j vi...
  -- Companheiros, companheiros diz Joo de Ado.
  Diz o vento que passa, diz a voz do corao de Pedro Bala.  como a msica de uma cano cantada por um negro:
  -- Companheiros.

  Os atabaques ressoam como clarins de guerra
  Depois de terminada a greve o estudante continua a vir ao trapiche.Mantm longas conversas com Pedro Bala, transforma os Capites da Areia numa brigada de choque.

  (p. 252)

  Uma tarde Pedro Bala vai pela rua Chile, o bon desabado sobre os olhos, assoviando, enquanto arrasta os ps no cho. Uma voz exclama:
  -- Bala!
  Se volta. O Gato est elegantssimo na sua frente. Uma prola na gravata, um anel no dedo mnimo, roupa azul, chapu de feltro quebrado num jeito malandro:
  --  tu, Gato?
  -- Vamos sair daqui.
  Entram numa rua sem movimento. Gato explica que chegou de l. Ilhus h poucos dias. Que arrancou um bocado de dinheiro de l. Est um homem e todo perfumado e
elegante:
  -- Quase no te conheo... -- diz Pedro Bala. -- E Dalva?
  -- Ficou amigada com um coronel. Mas eu j tinha deixado ela. Agora tenho uma moreninha do balacobaco...
  -- E aquele anelo que Sem-Pernas fazia troa?...
  Gato ri:
  -- Empurrei por quinhento num coronel cheio da nota... O bicho engoliu sem gritar...
  Conversam e riem. Gato pergunta notcia dos outros. Diz que no dia seguinte embarcar para Aracaju com a morena, pois acar est dando dinheiro. Pedro Bala o
v ir embora todo elegante. Pensa que se ele tivesse demorado mais algum tempo no trapiche, talvez no fosse um ladro. Aprenderia com Alberto, estudante, o que
ningum soubera lhe ensinar. Aquilo que Professor como que adivinhara.
  A revoluo chama Pedro Bala como Deus chamava Pirulito nas noites do trapiche.  uma voz poderosa dentro dele, poderosa como a voz do mar, como a voz do vento,
to poderosa como uma voz sem comparao. Como a voz de um negro que canta num saveiro o samba que Boa-Vida fez:
  Companheiros, chegou a hora...

  (p. 253)

  A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu corao. Ajudar a mudar o destino de todos os pobres. Uma voz que atravessa a cidade, que parece vir dos
atabaques que ressoam nas macumbas da religio ilegal dos negros. Uma voz que vem com o rudo dos bondes onde vo os condutores e motorneiros grevistas. Uma voz
que vem do cais, do peito dos estivadores, de Joo de Ado, de seu pai morrendo num comcio, dos marinheiros dos navios, dos saveiristas e dos canoeiros. Uma voz
que vem do grupo que joga a luta da capoeira, que vem dos golpes que o Querido-de-Deus aplica. Uma voz que vem mesmo do padre Jos Pedro, padre pobre de olhos espantados
diante do destino terrvel dos Capites da Areia. Uma voz que vem das filhas-de-santo do candombl de Don'Aninha, na noite que a polcia levou Ogum. Voz que vem
do trapiche dos Capites da Areia. Que vem do reformatrio e do orfanato. Que vem do dio do Sem-Pernas se atirando do elevador para no se entregar. Que vem no
trem da
  Leste Brasileira, atravs do serto, do grupo de Lampio pedindo justia para os sertanejos. Que vem de Alberto, o estudante pedindo escolas e liberdade para a
cultura. Que vem dos quadros de Professor, onde meninos esfarrapados lutam naquela exposio da rua Chile. Que vem de Boa-Vida e dos malandros da cidade, do bojo
dos seus violes, dos sambas tristes que eles cantam. Uma voz que vem de todos os pobres, do peito de todos os pobres. Uma voz que diz uma palavra bonita de solidariedade,
de amizade: companheiros. Uma voz que convida para a festa da luta. Que  como um samba alegre de negro, como ressoar dos atabaques nas macumbas. Voz que vem da
lembrana de Dora, valente lutadora. Voz que chama Pedro Bala. Como a voz de Deus chamava Pirulito, a voz do dio o Sem-Pernas, como a voz dos sertanejos chamava
Volta Seca para o grupo de Lampio. Voz poderosa como nenhuma outra. Porque  uma voz que chama para lutar por todos, pelo destino de todos, sem exceo. Voz poderosa
como nenhuma outra. Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. Voz que traz com ela uma festa, que faz o inverno acabar l fora e ser a primavera. A primavera
da luta. Voz que chama Pedro Bala, que o leva para a luta. Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, de todos os peitos explorados da cidade. Voz que
traz o bem maior do mundo, bem que  igual ao sol, mesmo maior que o sol: a liberdade. A cidade no dia de primavera  deslumbradoramente bela. Uma voz de mulher
canta a cano da Bahia. Cano da beleza da

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  Bahia. Cidade negra e velha, sinos de igreja, ruas caladas de pedra. Cano da Bahia que uma mulher canta. Dentro de Pedro Bala uma voz o chama: voz que traz
para a cano da Bahia, a cano da liberdade. Voz poderosa que o chama. Voz de toda a cidade pobre da Bahia, voz da liberdade. A revoluo chama Pedro Bala.
  Pedro Bala foi aceito na organizao no mesmo dia em que Joo Grande embarcou como marinheiro num navio cargueiro do Lide. No cais d adeus ao negro, que parte
para a sua primeira viagem. Mas no  um adeus como aqueles que dera aos outros que partiram antes.
  No  mais um gesto de despedida.  um gesto de saudao ao companheiro que parte:
  -- Adeus, companheiro.
  Agora comanda uma brigada de choque formada pelos Capites da Areia. O destino deles mudou, tudo agora  diverso. Intervm em comcios, em greves, em lutas obreiras.
O destino deles  outro. A luta mudou seus destinos.
  Ordens vieram para a organizao dos mais altos dirigentes. Que Alberto ficasse com os Capites da Areia e Pedro Bala fosse organizar os ndios Maloqueiros de
Aracaju em brigada de choque tambm. E que depois continuasse a mudar o destino das outras crianas abandonadas do pas.
  Pedro Bala entra no trapiche. A noite cobriu a cidade. A voz do negro canta no mar. A estrela de Dora brilha quase tanto quanto a lua no cu mais lindo do mundo.
Pedro Bala entra, olha as crianas. Barando vem para junto dele, agora tem 15 anos o negrinho.

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  Pedro Bala olha. Esto deitados, alguns j dormem, outros conversam, fumam cigarros, riem a grande gargalhada dos Capites da Areia. Bala rene a todos, bota Barando
junto de si:
  -- Gentes, agora eu vou embora, vou deixar vocs. Vou embora, Barando agora fica o chefe. Alberto vem sempre ver vocs, vocs devem fazer o que ele diz. E todo
mundo oua: Barando agora  o chefe.
  O negrinho Barando fala:
  -- Gentes, Pedro Bala vai embora. Viva Pedro Bala!...
  Os punhos dos Capites da
  Areia se levantam fechados.
  -- Bala! Bala! -- gritam
numa despedida.
  Os gritos enchem a noite, calam a voz do negro que canta no mar, estremecem o cu de estrelas e o corao de Pedro. Punhos fechados de crianas que se levantam.
Bocas que gritam se despedindo do chefe: Bala! Bala!
  Barando est na frente de todos. Ele agora  o chefe. Pedro Bala parece ver Volta Seca, Sem-Pernas, Gato, Professor, Pirulito, Boa-Vida, Joo Grande e Dora, todos
ao mesmo tempo entre eles. Agora o destino deles mudou. A voz do negro no mar canta o samba de Boa-Vida:
  Companheiros, vamos pra luta...
  De punhos levantados, as crianas sadam Pedro Bala, que parte para mudar o destino de outras crianas. Barando grita na frente de todos, ele agora  o novo chefe.
  De longe, Pedro Bala ainda v os Capites da Areia. Sob a lua, num velho trapiche abandonado, eles levantam os braos. Esto em p, o destino mudou.
  Na noite misteriosa das macumbas os atabaques ressoam como clarins de guerra.

  ... Uma Ptria e uma famlia
  Anos depois os jornais de classe, pequenos jornais, dos quais vrios no tinham existncia legal e se imprimiam em tipografias clandestinas, jornais que circulavam
nas fbricas, passados de mo em mo, e que eram lidos  luz de fifs, publicavam sempre notcias sobre um militante proletrio, o camarada Pedro Bala, que estava
perseguido pela policia de cinco estados como organizador de greves, como dirigente de partidos  ilegais, como perigoso inimigo da ordem estabelecida.
  No ano em que todas as bocas foram impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma noite de terror, esses jornais (nicas bocas que ainda falavam) clamavam pela
liberdade de Pedro Bala, lder da sua classe, que se encontrava preso numa colnia.
  E, no dia em que ele fugiu, em inmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da notcia. E, apesar de que fora era o terror, qualquer
daqueles lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polcia. Porque a revoluo  uma ptria e uma famlia.

  FIM

  Na casa mal-assombrada de Doninha Quaresma (existiam botijas enterradas e a alma de Doninha), hoje do Capito, na paz de Estncia. Sergipe, maro de 1937.
  A bordo do Rakuyo Maru, subindo a costa da Amrica do sul, pelo Pacfico, em caminho do Mxico, junho de 1937.
